quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Síndrome

Imagem: Leonid Afremov



Eu tenho dois filhos.
Eu sinto tanta saudade dos meus filhos.
Sempre senti saudade deles. Desde que nasceram.
Senti saudade quando eram pequeninos e os deixei para trabalhar.
Senti saudade quando eles passavam mais tempo na escola do que em casa.
Quando eles deixaram de ser filhos para se tornar adolescentes que não querem ter mãe, eu tive uma imensa saudade deles.
Quando eles voltaram a ser filhos senti ainda mais saudade. Tornam-se tão independentes e distantes.
Eu tenho dois filhos. E uma saudade muito grande.
Sinto enorme saudade de minha filha. Ela está perto demais. A proximidade impede de nos enxergarmos.
E sinto muita saudade do meu filho. Está tão longe que também não posso vê-lo.
Eu sempre vou sentir saudades dos meus filhos.
Eu tenho dois filhos.
E um ninho meio vazio.




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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Fissuras


(Imagem: Salvador Dalí)

A cidade era de pouca chuva, mas quando isso acontecia vinham as trovoados, os relâmpagos e os raios.
Eram muitos raios que teciam teias de aranhas douradas no céu escuro.

Os raios caíam mais de uma vez no mesmo lugar: sobre minha casa e minha cabeça.
Foram tantas as ocorrências que, certa vez, olhando-me no espelho, percebi que a minha alma apresentava discretas fissuras.
Com o passar dos anos, as fissuras evoluíram e aos poucos se transformaram em fendas profundas. Profundas. Cada vez mais profundas.
Ocorreu-me não dar importância ao episódio e por muitos anos recusei-me a conferir o estado da minha alma.

Numa noite de São João em que fui atingida por inúmeros desses raios, não pude mais ignorar o meu destino.
Diante do espelho, ainda pude ver os cacos da minha alma no exato instante em que desmoronava num grito lancinante e repousava inerte sobre o assoalho. 
Sem saber como recompô-la, desde então eu sou apenas um corpo onde os sonhos não perduram.
Que não envelhece e não mais sente dor.

Inês Mota

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domingo, 13 de dezembro de 2009

Revelação



Imagem: desconheço autoria

Meu nome é Oscar. Eu sempre fui um gato arredio e irreverente. Não capitulo ante as necessidades doentias do amor.
Quando Dona Nonó chega ao galpão abandonado com a comida e a água todos correm até ela fazendo festa em alvoroço. Eu permaneço deitado e só saio para comer e beber quando os companheiros saciados se retiram.
Foi assim durante 27 anos de minha vida.
Certa manhã Dona Nonó não apareceu. Os outros gatos sairam para caçar ratos. Eu não gosto de caçar.  
Por fim, Seu Jaime, o viúvo, apareceu para continuar o trabalho de Dona Nonó.
Nesse dia, ele me chamou de homem. Desde então eu parei de miar e não preciso mais comer ração. Tampouco rato. Também não sou mais alvo de censura por meu retraimento.
Ainda sou Oscar. Agora, um bicho submisso, obediente, reverente cheio de amor e medo.
Ajudo o Seu Jaime na tarefa de alimentar os gatos e descobrir homens em meio a bichos abandonados.

Inês Mota
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sábado, 21 de novembro de 2009

O Sentido da vida -O milagre do nascimento (Monty Python)

Para ver naqueles dias em que se questiona o sentido da vida. E vale a pena questionar isso?
Melhor é dar umas boas risadas.

O Milagre da Vida - Monty Python





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domingo, 25 de outubro de 2009

El otro yo - Mario Benedetti

(Imagem:desconheço autoria)

Se trataba de un muchacho corriente: en los pantalones se le formaban rodilleras, leía historietas, hacía ruido cuando comía, se metía los dedos a la nariz, roncaba en la siesta, se llamaba Armando. Corriente en todo menos en una cosa: tenía Otro Yo. El Otro Yo usaba cierta poesía en la mirada, se enamoraba de las actrices, mentía cautelosamente, se emocionaba en los atardeceres. Al muchacho le preocupaba mucho su Otro Yo y le hacía sentirse incómodo frente a sus amigos. Por otra parte el Otro Yo era melancólico, y debido a ello, Armando no podía ser tan vulgar como era su deseo.
Una tarde Armando llegó cansado del trabajo, se quitó los zapatos, movió lentamente los dedos de los pies y encendió la radio. En la radio estaba Mozart, pero el muchacho se durmió. Cuando despertó el Otro Yo lloraba con desconsuelo. En el primer momento, el muchacho no supo que hacer, pero después se rehízo e insultó concienzudamente al Otro Yo. Este no dijo nada, pero a la mañana siguiente se había suicidado.
Al principio la muerte del Otro Yo fue un rudo golpe para el pobre Armando, pero enseguida pensó que ahora sí podría ser enteramente vulgar. Ese pensamiento le reconfortó.
Sólo llevaba cinco días de luto cuando salió la calle con el propósito de lucir su nueva y completa vulgaridad. Desde lejos vio que se acercaban sus amigos. Eso le llenó de felicidad e inmediatamente estalló en risotadas. Sin embargo, cuando pasaron junto a él, ellos no notaron su presencia. Para peor de males, el muchacho alcanzó a escuchar que comentaban: «Pobre Armando, y pensar que parecía tan fuerte y saludable».
El muchacho no tuvo más remedio que dejar de reír y, al mismo tiempo, sintió a la altura del esternón un ahogo que se parecía bastante a la nostalgia. Pero no pudo sentir auténtica melancolía, porque toda la melancolía se la había llevado el Otro Yo.

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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Eu quero meu donnut!


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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sem inspiração


Fui ali e volto já. Por favor não levem minha bicicleta.



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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Monologion Retro - Virgilio Brandão


(Imagem: Albert Watson)
Tenho fome do futuro,
ou será vontade de comer a planura?
Oh, dá-me, dá-me bruma à mesa,
areia cevada de rosas, tinto de oiro…
e salve a puta, salve a puta-alma das sevícias dos anjos!
— e, quando tudo for são e puro como eles
não te esqueças de embrutecer-me.

— Madre! — grita o pobre que não pode ser doutor.
— Ai que doce! — geme o rico brincando de ti.

Esqueci-me de alguma coisa, Deus?




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domingo, 6 de setembro de 2009

Le Notti di Cabiria - TRAILER ORIGINAL



Obra prima de Federico Fellini, estrelado por sua musa Giulietta Masina, eterna companheira. Na vida e no cinema.


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domingo, 30 de agosto de 2009

Exorcizando demônios

(Carvão em papel cason por Ines Mota)
Rabisco tosco de um sonho confuso.



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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Outros Crimes Exemplares - O libidinoso

(Imagem: desconheço autoria)

Havia chegado do sepultamento do pai, triste e abalada.
Tudo que necessitava naquele momento era apoio e conforto.
Ele, de fato a confortou, abraçando-a no leito enquanto repousavam. E isso era louvável.
Mas ao fazê-lo, ficou excitado e ela pode sentir o ousado e atrevido volume que lhe tocava as coxas.
Era necessário um pouco mais de respeito num momento de tão grande dor e sofrimento.

Foi sem pensar.
E quando se deu conta, já arremessara contra ele o primeiro objeto ao alcance da mão.
Não teve culpa se o ferro de passar era tão pesado.

Ines Mota

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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Outros Crimes Exemplares - O Glutão

(Imagem: Desconheço autoria)

Durante o jantar, quando atirou no rosto dele o conteúdo da jarra, recebeu de volta um olhar estupefacto e o som de um baque surdo.
Não morreu afogado, decerto, mas do susto. Sofria do coração.
Muito justo.
Por que diabos comer de forma tão glutona e estúpida?

Enchia o prato como se estivesse jejuando há dias e por trás da montanha alimentar ela só vislumbrava dois gulosos olhos, que por sua vez, não entreviam nada além do anseio de abarrotar a pança.
Como se não bastasse, ficava arrumando e arrebanhando com os talheres, o arroz, o feijão, a salada e a carne, tal qual se comporta um cão pastor com as ovelhas. Parecia temer que a comida fugisse.
Não satisfeito arfava e gemia de deleite.
E isso ela não suportou. Transpusera todos os seus limites de tolerância.

Inês Mota



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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Borges e eu - Borges.

(Imagem: desconheço autoria)

Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, na contemplação do arco de um saguão e da cancela; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agra­dam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o sabor do café e a prosa de Stevenson; o outro comunga dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atribu­tos de um actor. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não seja de alguém, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamen­te, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco vou-lhe cedendo tudo, ainda que me conste o seu perverso hábito de falsificar e magnificar. Espinosa entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro.

Não sei qual dos dois escreve esta página.



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quinta-feira, 30 de julho de 2009

O Outro - Um conto de Jorge Luis Borges

O fato Ocorreu no mês de fevereiro de 1969, ao norte de Boston, em Cambridge. Não o escrevi imediatamente, porque meu primeiro propósito foi esquecê-lo para não perder a razão. Agora, em 1972, penso que, se o escrevo, os outros o lerão como um conto e, com os anos, o será talvez para mim. Sei que foi quase atroz enquanto durou e mais ainda durante as noites desveladas que o seguiram. Isto não significa que seu relato possa comover a um terceiro. Seriam dez da manhã. Eu estava recostado em um banco, defronte ao rio Charles. A uns quinhentos metros à minha direita havia um alto edifício cujo nome nunca soube. A água cinzenta carregava grandes pedaços de gelo. Inevitavelmente, o rio fez com que eu pensasse no tempo. A milenar imagem de Heráclito. Eu havia dormido bem; minha aula da tarde anterior havia conseguido, creio, interessar aos alunos. Não havia ninguém à vista. Senti, de repente, a impressão (que, segundo os psicólogos, corresponde aos estados de fadiga) de já ter vivido aquele momento. Na outra ponta de meu banco, alguém se havia sentado. Teria preferido estar só, mas não quis levantar em seguida, para não me mostrar descortês. O outro se havia posto a assobiar. Foi então que ocorreu a primeira das muitas inquietações dessa manhã. O que assobiava, o que tentava assobiar (nunca fui muito entoado), era o estilo crioulo de La Tapera de Elias Regules. O estilo me reconduziu a um pátio lá desaparecido e à memória de Álvaro Mellián Lafinur, morto há muitos anos. Logo vieram as palavras. Eram as da décima do princípio. A voz não era a de Álvaro, mas queria parecer-se com a de Álvaro. Reconheci-a com horror.
Aproximei-me e disse-lhe:
- O senhor é oriental ou argentino?
- Argentino, mas desde o ano de 1914 vivo em Genebra
- foi a resposta.

Houve um silêncio longo. Perguntei-lhe:
- No número dezessete da Malagnou, em frente à igreja russa?
Respondeu-me que sim.
- Neste caso - disse-lhe resolutamente
- o senhor se chama Jorge Luis Borges. Eu também sou Jorge Luis Borges. Estamos em 1969, na cidade de Cambridge.

- Não - respondeu-me com a minha própria voz um pouco distante. Ao fim de um tempo insistiu:
- Eu estou aqui em Genebra, em um banco, a alguns passos do Ródano. 0 estranho é que nos parecemos, mas o senhor é muito mais velho, com a cabeça grisalha.
Respondi:
- Posso te provar que não minto. Vou te dizer coisas que um desconhecido não pode saber. Lá em casa há uma cuia de prata com um pé de serpentes, que nosso bisavô trouxe do Peru. Há também uma bacia de prata que pendia do arção. No armário do teu quarto, há duas filas de livros. Os três volumes das Mil e Uma Noites de Lane, com gravações em aço e notas em corpo menor entre os capítulos, o dicionário latino de Quicherat, a Germania de Tácito em latim e na versão de Gordon, um Dom Quixote da casa Garnier, as Tábuas de Sangue de Rivera Indarte, o Sartor Resartus de Carlyle, uma biografia de Amiel e, escondido atrás dos demais, um livro em brochura sobre os costumes sexuais dos povos balcânicos. Não esqueci tampouco um entardecer em um primeiro andar da praça Dubourg.
- Dufour - corrigiu.
- Está bem. Dufour. Te basta, tudo isto?
- Não - respondeu.
- Essas provas não provam nada. Se eu estou sonhando, é natural que eu saiba o que sei. Seu catálogo prolixo é totalmente vão.
A objeção era justa.
Respondi:
- Se esta manhã e este encontro são sonhos, cada um de nós dois tem que pensar que o sonhador é ele. Talvez deixemos de sonhar, talvez não. Nossa evidente obrigação, enquanto isto, é aceitar o sonho, como aceitamos o universo e termos sido engendrados e olharmos com os olhos e respirarmos.
- E se o sonho durasse? - disse com ansiedade.
Para tranqüilizá-lo e me tranqüilizar, fingi uma serenidade que certamente eu não sentia.
Disse-lhe:

- Meu sonho já durou setenta anos. Afinal de contas, ao rememorar, não há pessoa que não se encontre consigo mesma. É o que nos está, acontecendo agora, só que somos dois. Não queres saber alguma coisa de meu passado, que é o futuro que te espera? Assentiu sem uma palavra. Prossegui, um pouco perdido:
- A mão está saudável e bem, em sua casa de Charcas y Maipú, em Buenos Aires, mas o pai morreu há uns trinta anos. Morreu do coração. Uma hemiplegia o liquidou; a mão esquerda posta sobre a mão direita era como a mão de uma criança posta sobre a mão de um gigante. Morreu com impaciência de morrer, mas sem uma queixa. Nossa avó havia morrido na mesma casa. Alguns dias antes do fim chamou-nos a todos e disse-nos: '"Sou uma mulher muito velha que está morrendo muito devagar. Que ninguém se perturbe por uma coisa tão comum e corrente". Norah, tua irmã, se casou e tem dois filhos. A propósito, em casa como estão?
- Bem. O pai sempre com seus gracejos contra a fé. Ontem à noite disse que Jesus era como os gaúchos que não querem se comprometer e que, por isto, pregava através de parábolas.
Vacilou e disse:
- E o senhor? - Não sei o número de livros que escreverás, mas sei que são demasiados. Escreverás poesias que te darão uma satisfação não partilhada e contos de índole fantástica. Darás aulas como teu pai e como tantos outros de nosso sangue. Agradou-me que nada perguntasse sobre o fracasso ou êxito dos livros.
Mudei de tom e prossegui:

- No que se refere à História... Houve outra guerra, quase entre os mesmos antagonistas. A França não tardou a capitular; a Inglaterra e a América travaram contra um ditador alemão, que se chamava Hitler, a cíclica batalha de Waterloo. Buenos Aires, ao redor de mil novecentos e quarenta e seis, engendrou outro Rosas, bastante parecido com nosso parente. Em cinqüenta e cinco, a província de Córdoba nos salvou, como antes Entre Rios. Agora, as coisas andam mal. A Rússia está se apoderando do planeta; a América, travada pela superstição da democracia, não se resolve a ser um império. Cada dia que passa nosso país está mais provinciano, Mais provinciano e mais presunçoso, como se fechasse os olhos. Não me surpreenderia se o ensino do latim fosse substituído pelo do guarani. Notei que mal me prestava atenção. O medo elementar do impossível, e no entanto certo, o aterrorizava. Eu, que não fui pai, senti por esse pobre moço, mais íntimo que um filho da minha carne, uma onda de amor. Vi que apertava entre as mãos um livro.
Perguntei-lhe o que era.

- Os possessos ou, segundo creio, Os Demônios, de Feodor Dostoiewski
- me replicou não sem vaidade.
- Já o esqueci. Que tal é?
Nem bem o disse, senti que a pergunta era uma blasfêmia.
- O mestre russo - sentenciou - penetrou mais que ninguém nos labirintos da alma eslava. Essa tentativa retórica me pareceu uma prova de que se havia acalmado. Perguntei-lhe que outros volumes do mestre havia percorrido. Enumerou dois ou três, entre eles O Sósia. Perguntei-lhe se, ao lê-los, distinguia bem as personagens, como no caso de Joseph Conrad, e se pensava prosseguir o exame da obra completa.
- A verdade é que não - respondeu-me com uma certa surpresa. Perguntei-lhe o que estava escrevendo e disse que preparava um livro de versos que se chamaria Os hinos vermelhos. Também havia pensado em Os ritmos vermelhos.
- Por que não? - disse-lhe.
- Podes alegar bons anteceden-tes. O verso azul de Rubén Darío e a canção gris de Verlaine.
Sem me fazer caso, esclareceu que seu livro contaria a fraternidade entre todos os homens. O poeta de nosso tempo não pode voltar as costas à sua época. Fiquei pensando e perguntei-lhe se verdadeiramente se sentia irmão de todos. Por exemplo, de todos os empresários de pompas fúnebres, de todos os carteiros, de todos os escafandristas, de todos os que vivem nas casas de números pares, de todos os afônicos, etc. Disse-me que seu livro se referia à grande massa dos oprimidos e dos párias.
- Tua massa de oprimidos e párias - respondi - não é mais que uma abstração. Só os indivíduos existem, se é que existe alguém. O homem de ontem não é o homem de hoje, sentenciou algum grego. Nós dois, neste banco de Genebra ou Cambridge, somos talvez a prova. Salvo nas severas páginas da História, os fatos memoráveis prescindem de frases memoráveis. Um homem a ponto de morrer quer se lembrar de uma gravura entrevista na infância; os soldados que estão por entrar na batalha falam do barro ou do sargento. Nossa situação era única e, francamente, não estávamos preparados. Falamos, fatalmente, de literatura; temo não haver dito outras coisas que as que costumo dizer aos jornalistas. Meu alter ego acreditava na invenção ou descobrimento de metáforas novas; eu, nas que correspondem a afinidades íntimas e notórias e que nossa imaginação já aceitou. A velhice dos homens e o acaso, os sonhos e a vida, o correr do tempo e da água. Expus-lhe esta opinião que haveria de expor em um livro anos depois. Quase não me escutava. De repente, disse:
- Se o senhor foi eu, como explicar que tenha esquecido seu encontro com um senhor de idade que, em 1918, lhe disse que ele também era Borges? Não havia pensado nessa dificuldade. Respondi, sem convicção:
- Talvez o fato tenha sido tão estranho que eu tenha tratado de esquecê-lo. Aventurou uma tímida pergunta:
- Como anda sua memória?
Compreendi que, para um moço que não havia feito vinte anos, um homem de mais de setenta era quase um morto.
Respondi:

- Costuma parecer-se com o esquecimento, mas ainda encontra o que lhe pedem. Estou estudando anglo-saxão e não sou o último da classe. Nossa conversação já havia durado demais para ser a de um sonho.
Uma súbita idéia me ocorreu.
- Eu posso te provar imediatamente - disse-lhe - que não estás sonhando comigo. Ouve bem este verso, que nunca leste, que eu me lembre. Lentamente entoei o famoso verso: L'hydre - univers tordant son corps ecaillé d'astres. Senti seu quase temeroso estupor. Repetiu-o em voz baixa saboreando cada resplandescente palavra.
- É verdade - balbuciou - Eu não poderei nunca escrever um verso como este. Antes, ele havia repetido com fervor, agora recordo, aquela breve peça em que Walt Whitman rememora uma noite compartilhada diante do mar em que foi realmente feliz.
- Se Whitman a cantou - observei - é porque a desejava e não aconteceu. O poema ganha se não adivinhamos que é a manifestação de um anelo. Não a história de um fato.
Ficou a me olhar.
- O senhor não o conhece - exclamou.- Whitman é incapaz de mentir. Meio século não passa em vão. Sob nossa conversação de pessoas de leitura miscelânea e de gostos diversos, compreendi que não podíamos nos entender. Éramos demasiado diferentes e demasiado parecidos. Não podíamos nos enganar, o que torna o diálogo difícil. Cada um de nós dois era o arremedo caricaturesco do outro. A situação era anormal demais para durar muito mais tempo. Aconselhar ou discutir era inútil, porque seu inevitável destino era ser o que sou. De repente, lembrei uma fantasia de Coleridge. Alguém sonha que atravessa o paraíso e lhe dão como prova uma flor. Ao despertar, ali esta a flor. Ocorreu-me artifício semelhante
- Ouve - disse-lhe -, tens algum dinheiro?

- Sim me replicou. - Tenho uns vinte francos. Esta noite convidei Simón Jichlinski ao Crocodile.
- Diz a Simón que exercerá a medicina em Carouge e que fará muito bem... aqora, me dá uma de tua moedas. Tirou três escudos de poeta e umas peças menores. Sem compreender, me ofereceu um dos primeiros. Eu lhe estendi uma dessas imprudentes notas americanas que têm valor muito diferente e o mesmo tamanho.
Examinou-a com avidez.

- Não pode ser - gritou. - Leva a data de mil novecentos e sessenta e quatro. (Meses depois, alguém me disse que as notas de banco não levam data.)
- Tudo isto é um milagre - conseguiu dizer - e o milagroso dá medo. Os que foram testemunhas da ressurreição de Lázaro terão ficado horrorizados. Não mudamos nada, pensei. Sempre as referências livrescas. Fez a nota em pedaços e guardou a moeda. Eu resolvi lançá-la ao rio. O arco do escudo de praia perdendo-se no rio de prata teria conferido à minha história uma imagem vivida, mas a sorte não quis assim. Respondi que o sobrenatural, se ocorre duas vezes, deixa de ser aterrador. Propus a ele que nos víssemos no dia seguinte, nesse mesmo banco que está em dois tempos e dois lugares. Assentiu logo e me disse, sem olhar o relógio, que já era tarde. Os dois mentíamos e cada qual sabia que seu interlocutor estava mentindo. Disse-lhe que viriam me buscar.
- Buscá-lo? - interrogou.
- Sim. Quando alcançares a minha idade, terás perdido a visão quase por completo. Verás a cor amarela, sombras e luzes. Não te preocupes. A cegueira gradual não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão. Despedimo-nos sem nos termos tocado. No dia seguinte, não fui. O outro tampouco terá ido. Meditei muito sobe esse encontro, que não contei a ninguém. Creio ter descoberto a chave. O encontro foi real, mas o outro conversou comigo em um sonho e foi assim que pude me esquecer.
Eu conversei com ele na vigília e a lembrança ainda me atormenta.
O outro me sonhou, mas não me sonhou rigorosamente. Sonhou, agora o entendo, a impossível data no dólar.


Tradução de Lígia Morrone Averbuck


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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Caicó - E viva o profano mais sagrado da festa.


Dia 26 de julho de 2009, comemorou-se com muita festa os 50 anos do Bar de Ferreirinha, em Caicó: A bebida é mero detalhe?

Eu, fã do escritor Moacy Cirne, num momento de tietagem assumida.

Título de Cidadão Caicoense a Moacy: Redundância ao caicoense desde sempre?
Moacy Cirne e José de Anchieta Fernandes. Medalhas de Amigos do Bar de Ferreirinha. De outros carnavais
O violeiros Benedito Nascimento e Carlos Alberto da Cabaceira, prestigiaram o evento com versos de improviso.

CASA DE CULTURA DE CAICÓ - Esforço conjunto faz manter vivas a cultura e a tradição:

Custódio
Dodora
Djalma Mota
"Esse velho casarão
Fez história em nossa terra
Morada do Padre Guerra
Símbolo de educação
Representa a tradição
dos velhos tempos do além
do barroquismo mantém
traços da arquitetura
Hoje a casa de cultura
É do poeta também."
(Djalma Mota)

Escadaria ...

E interior do Sobrado

A irreverência e a arte de Custódio e Magão no palco dos eventos





Maguila declama poemas do livro
Vigarista de Sentimentos da caicoense Suerda Medeiros. Homenagem em vida, porque segundo ela, no que concordo plenamente, camiseta com foto em homenagem póstuma é de um mau gosto sem limite.

Jonas solta a voz e encanta

A Casa de Cultura homenageia Moacy Cirne, através de monólogo de Maguila.

(...)
"Em Caicó,
mel e rapadura,
apaixonei-me por Ava Gardner,
por Brigitte Bardot,
por Gilda, a que nunca houve.
Em Caicó,
mel e puxa-puxa,
o mundo e o Fluminense nasceram
para mim.
E eu ainda não conhecia Nevers.
(...)
extraído do livro Rio Vermelho, edição Fundação José Augusto/Departamento Estadual de Imprensa, 1998.

Grupo de Teatro da cidade de Janduís.
"Capineiro de meu pai
Não me corte os meus cabelos
Minha mãe me penteou
Minha madrasta me enterrou
Pelo figo da figueira que o Passarim beliscou"
Sucesso da Oficina de Cordel, Projeto desenvolvido pela Casa de Cultura, ministrado por Djalma Mota, membro da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte.




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terça-feira, 21 de julho de 2009

Rotineiro

Num dia extremamente rotineiro, acordo cedo como de costume e ponho a roupa de caminhar. Saio. Atravesso a BR pela Passarela de Neópolis. O tráfego já é intenso e o barulho, infernal. Caminho até a Avenida da Integração. E hoje resolvi mudar o percurso e vou direto pela Jaguarari, ao invés de pegar a Prudente. Péssima idéia!
Lá, nesse horário, é muito silencioso. Dá um pouco de medo. Medo do que vejo: garotos fumando maconha entocados pelos becos; pessoas no mais completo abandono dormindo ao relento. E medo do que não vejo, mas imagino haver ali. Um lugar que me reporta à infância. Ao imaginário infantil, ao tenebroso dos contos que não eram exatamente de fadas, onde tudo parecia sinistro e de dimensões enormes .
Uma hora de caminhada. E mais uma hora pra voltar pra casa. Agora não há mais silêncio. Só o barulho ininterrupto dos carros que passam raspando em mim. E são tantos! Fico imaginando quem são essas pessoinhas dentro de tantos veículos, para onde elas vão e fazer o que , tão apressadas.
Já em casa, prossegue a rotina. Fazer o almoço. Ler. Tomar umas canecas de chá verde, comer barrinhas de cereal e as providenciais claras de ovo, minha fonte de proteínas preferida.
Depois do almoço regado a vinho oriundo das vinícolas patoenses, envelhecido em tonéis de plástico na geladeira, uma hora pra dormir e recuperar energias.
Hora da musculação. E eu aqui escrevendo besteira e enfezando o coitado do computador.
Mastigo as intragáveis pastilhas de suplemento alimentar e saio. O que queria mesmo agora era ligar o som alto e dançar sem roupa pela casa e depois retomar a leitura de "A Montanha Mágica", há muito abandonada.
Não dá. Garrafinha de água do lado, vou encher as mãos de calos e de ferrugem do ferro velho da Academia Líder, ali na BR. E suar ao som enfadonho das bandas de Forró de Fortaleza e do lenga-lenga do papo-cabeça de camarão de alguns frequentadores do local
Putz. Vício é vício.


Objeto Neuronial n° 03
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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Chove Chuva! - A Jorge Ben Jor.

Sou fã do Jorge Ben Jor.
Acho a sua voz, divina, suave.
E quando o ouço, sinto uma saudade boa não sei de quê.
Agora, chove. Curto.
Deitada, no meu quarto, fiz este poeminha despretensioso.

Saudade - A jorge Ben Jor
A cortina na janela
filtra a memória:
A melancólica nota da goteira
fustiga a bacia de zinco
O silvo afinado do vento
escapa apressado
pela fresta da porta
O pranto da lenha verde
a arder sob a chama do fogão
A aquarela da colcha de taco
esfumaça seus tons nos meus
sonhos.
Ouço a música difusa
etérea
Saudade é a voz de Jorge Ben Jor.


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domingo, 12 de julho de 2009

Objeto Neuronial n° 02 - Leda

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Leda

Resolvemos experimentar uma periodicidade semanal para as tirinhas Objeto Neuronial, colocando-as no ar aos domingos.
Apresentamos a personagem Leda, nome que significa alegre e tem o mesmo radical de ledice, derivado do latim Laetitia, que em português se lê Letícia e era o nome de uma deusa romana que personificava a alegria. A história é baseada em fatos reais e você pode vê-la também no blog http://teianeuronial.com/

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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Tampopo - A arte de fazer (e comer) espaguete


A mistura perfeita de sabor e de vida (ou morte) abordada nos filmes que têm a comida como ponto central da trama, fascina muita gente. Inclusive a mim, que sou uma apaixonada pela Sétima Arte, embora um pouco menos entusiasta no ofício de transformar alimentos em magia.
A lista de produções em que a gastronomia tem papel de destaque, é longa e interminável.

Nessa categoria, os meus preferidos são: "Tomates verdes fritos", "Como água para chocolate", "Delicatessen", "Ratatouille, "A Festa de Babette", "Vatel", " A Fantástica Fábrica de Chocolate", "Bagdá Café, "O cheiro de papaia verde", "O Cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante", "A comilança", "A mulher do padeiro", "Chocolate", entre outros.
Com o intuito de rever algumas dessas obras, convidei meu parceiro Thiago para me acompanhar na empreitada cine-gastronômica desta quarta-feira e assistimos "Tampopo, os Brutos também comem espaguete".
Tampopo é uma produção japonesa de 1985, dirigida por Juzo Itami. É uma comédia que prenuncia os efeitos da globalização na cultura japonesa, mais especificamente na culinária.
Com o intuito de satirizar os filmes de cowboy, o produtor focaliza a trama numa história central, enquanto desenvolve uma série de outras pequenas narrativas paralelas, histórias deliciosas que entrecortam a trama principal e mostram a importância da comida na cultura e sociedade nesse país.
O filme conta a história da dona de um restaurante, Tampopo (Nobuko Miyamoto) que vê seus clientes insatisfeitos com seus pratos. Assim, junto com o entregador de leite, Goro (Tsutomu Yamazaki) e mais alguns amigos, se lança na busca da melhor receita da sopa de macarrão - aquele macarrão japonês, que vem com caldo e acompanhamentos e é parecido com o miojo instantâneo que comemos aqui no Brasil, mas com carnes, algas, legumes -, cartão de visitas do seu restaurante.
O casal protagonista se vê envolvido nas mais divertidas situações, rodeada de cozinheiros tradicionais, bisbilhotando nos restaurantes, testando métodos e ingredientes, pesquisando, investigando e descobrindo segredos até conquistar a fórmula perfeita para converter o trabalho e o esrforço de Tampopo em sucesso.


Em meio a isso tudo, rolam histórias de amizade, camaradagem, brigas bizarras, sensualidade, sexo, amor e uma miríade de cozinhas e cozinheiros.
Destaco cenas interessantes, como a do "mestre" que passa o segredo de se apreciar um bom espaguete, utilizando outros sentidos, além do paladar, como a visão, o tato e a audição, e dos mendigos-gourmet, que sabem mais de vinho e iguarias do que os melhores experts. A cena mais hilária, entretanto, fica por conta de uma professora japonesa e suas alunas, numa aula de como comer espaguete com elegância.


Ao evidenciar a alimentação no cinema, o autor acaba chamando a atenção do espectador através do sentido da visão, e o induz a "sentir" o gosto da comida, antes mesmo que ela chegue à boca, ou seja, ensina as técnicas de "comer com os olhos".
E é Claro que depois disso tudo, me bateu uma fome terrível e, ainda que fosse tarde e contrariasse meus hábitos alimentares, não resisti e ataquei a geladeira, fazendo uma "boquinha" antes de dormir.




Fonte: Pérolasdadegustação.blogspot.




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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Estreia - Objeto Neuronial n° 01




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quinta-feira, 25 de junho de 2009

"O labirinto", por Jorge Luis Borges

(imagem da internet)

Este é o labirinto de Creta.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.


(in Atlas - tradução de Miguel Angel Paladino)






De como um ícone, um mito que revolucionou a música pop, não conseguiu escapar dos traumas de infância, das doenças (reais ou fictícias) das tragédias, dos desencontros, dos desajustes, da solidão.
E morre só ...

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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Kafka em 4 minicontos.

(Kafka. Esboço de um raro sorriso...longe da opressão?)

Lamentos
São as sedutoras vozes da noite: também assim cantavam as Sereias...
Não fora de justiça, para com elas, atribuir-lhes o deliberado propósito de seduzir: elas bem sabiam que possuíam garras e nenhum seio fértil, e disso lamentavam-se em altas vozes - mas não tinham culpa de soarem tão belos os lamentos.

A Coleira
Livre e confiante cidadão da Terra, eis que está preso a uma corrente longa o bastante para lhe proporcionar a liberdade sobre todo o espaço terrestre; conquanto longa apenas de maneira a que não o solicite coisa alguma fora dos limites da Terra. É ao mesmo tempo livre e confiante cidadão do Céu, e eis que está preso a igual corrente celeste.
Quando pende muito para a Terra, estrangula-o a corrente celeste; quando pende muito para o Céu, estrangula-o a coleira terrestre...
Tem todavia todos os recursos, sente isso; sim, mas obstina-se em negar que tudo se dava a um erro inicial na fixação dos grilhões.

O pião
Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E se via um menino que tinha um pião já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda irava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade, acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto corria até perder o fôlego atrás dele. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos – fugentava- o dali e ele cambaleava como um pião lançado com um golpe sem jeito da fieira.

O abutre
Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.
- É que estou sem defesa - respondi. - Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
- Mas deixar-se torturar dessa maneira! - disse o senhor. - Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? - disse eu. - Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente - disse o senhor. - É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora?
- Não sei lhe dizer. - respondi.
Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem - disse o senhor. - Vou o mais depressa possível.
O abutre escutara tranquilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.




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sexta-feira, 19 de junho de 2009

Cuando éramos niños - Mario Benedetti

(Foto: Inês Mota)

Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía.

luego cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque era un océano
la muerte solamente
una palabra

ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en los cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros.

ahora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra.

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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Off. Diário de bordo 1

Meus queridos leitores: Gostaria de ratificar a minha mais completa inaptidão para escrever um artigo legal. E por isso, não posto nada, ainda. Ou seja, estou aqui para dizer que não estou.
Ai, ai...
Pois não é que descobri, entre surpresa, decepcionada e resignada, que não tenho leitores?
Pra você ver as criaturas como são. Eu aqui, tão enferma, coitadinha e nenhum vivente se dirigiu a minha pessoa para desejar boa recuperação. Nem um chazinho de hortelã, nem um mísero Apracur, um Anador ou um Vick Pirena.

Estou mal e com uma aparência horrível. Os olhos lacrimejam e as articulações doem a nível quase insuportável. Minha cabeça pesa uma tonelada e um aguaceiro constante escorre pelo nariz, além dos irritantes acessos de tose, do frio e das lombras da febre.

Hoje, após dois dias sem me alimentar, minha filha trouxe-me um prato de comida e gentilmente ordenou: En-gu-la!!!!!
E eu engoli. Fazer o que? Ainda que meu paladar não reconhecesse o sabor de uma cenoura e o meu olfato ignorasse o cheiro do peixe. Desceu tudo feito bucha. Segundos depois, representantes de uma pequena rebelião interna ameaçavam retornar ao lugar de origem. Ficou só na ameaça, felizmente, ainda que eu me sentisse inflada feito uma bóia. Agora sei exatamente como se sentem os pobres gansos destinados a produzir foe gras. (Ainda fazem aquilo com os bichinhos?)
Em suma, é isso.
Estou destruída. Debilitada. Logo hoje que ia começar uma série na academia pra turbinar quadríceps, glúteos, bíceps, tríceps e adjacências?...
Odeio gripe!
Mãeeê!... buá.






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domingo, 7 de junho de 2009

Off.

(Imagem: não sei a autoria)

Olá, meus queridos leitores.
Estou enferma.
Não digo que estou gripada. O termo, parece que é obsoleto.
Tenho uma virose, então. ( E gripe não é uma virose?)
Mas deixa pra lá...

Pelo menos espero não ser a gripe suína. Ops, suína também não é apropriado.É Gripe "A" .

Mas voltemos ao motivo de minha incursão a esse Objeto:
Ficarei uns dias sem postar.
E vocês hão de perguntar: E daí?
Daí, nada...!
É isso!
Até porque ando severamente infectada e afetada por outro agente não microscópico - a falta de criatividade.
Prometo voltar quando sarar dos males físicos e puder postar algo decente.
Bye.
Beijos.
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