sábado, 8 de outubro de 2016

Óbolo para Caronte



 Imagem. Fonte: Portal dos Mitos

Morri numa quinta-feira de agosto.
Para ser mais exata, às 11:00 horas do dia 24, tal como registrado no documento de óbito.Consta das crenças populares que esse é o dia que o cão anda solto. Não saberia esclarecer entretanto a que espécie de cão se referem, o que não faz a menor diferença.
A princípio me abstenho de esmiuçar os detalhes do fatídico ocorrido visto que o que está em causa no ensejo não são as picuinhas dos ávidos perscrutadores da vida alheia – ou da morte alheia-, que não descansam até conseguirem encontrar uma explicação plausível, elucidativa – e justa – para a tragédia e, por fim, darem-se por satisfeitos.

Os abutres são mais ferozes quando o morto resolve dar cabo da própria vida (o que felizmente não é o meu caso) e cada um veste sua sinistra capa, empunha boné e lupa e se empenha na tarefa investigatória, não descansando antes da absoluta convicção do motivo que levou o pobre diabo a uma atitude tão drástica e avassaladora que deixa como legado um sofrimento eterno para a família: "O que teria ocorrido? Sofria a defunta de alguma doença grave escondida a sete chaves? Estava a dever grandes somas ao banco? Haveria por fim descoberto que viver é esquisito e desistido de buscar um sentido à existência? Teria enlouquecido de vez? Deixou alguma carta dando explicações?".

Quero antes de tudo, ressaltar que não sou uma ingrata, uma mal agradecida que não leva em conta a dor dos familiares e amigos, a gentileza, o amor e os gastos dispendidos com a despedida do mundo terreno. A minha indignação reside no fato de teimarem em me proporcionar um velório “digno de tão querida pessoa” (sic), transgredindo todas as minhas ordens expressas, ditas, escritas, propaladas e reiteradas aos cinco ventos aos membros da família, a amigos e inimigos, próximos e distantes.

Pelos Deuses! Quantas vezes deixei claro que abominava e dispensava aquela cerimônia lúgubre que imprime ao dia uma cara de noite, um céu cinzento de garoa fina. E aquele ar pesado, impregnando as ventas do mundo e a boca da noite com um cheiro de dor e desengano, lágrimas e ausência.

Carpideiras de plantão entoam um triste alarido misturado com o burburinho das vozes das rezadeiras e o choro pungente dos parentes inconsoláveis. As luzes bruxuleantes pendem das paredes e teto, velas de chamas amarelas e chorosas piscam pesadamente e pingam estalactites quentes ao lado do lustroso ataúde que lembra um enorme e – caro – pão doce. A fila das pessoas se acotovelando para apreciar mais de perto a cara do desencarnado, a desgraça dos parentes e a certificar-se se a dor expressa pela família condiz com tão suposta grande perda.

O cheiro de morte, de incenso, do chá, do café e biscoitos servidos aos visitantes. O odor das flores. Ah! As flores… Eu disse que não queria flores. Mas eles teimam em retirá-las de onde nunca deveriam ter saído para pateticamente recobrirem um corpo morto que elas não podem e nunca puderam perfumar. E há mais flores. Há grinaldas e mais grinaldas ornadas de fitas com dizeres pesarosos dispostas em círculos pelo salão. Pobres flores. Morrerão precocemente. Sem merecer.

Debalde minhas escaramuças – defunto não tem querer – segue noite adentro a cerimônia. A família, sofrida, aos farrapos, se reveza no doloroso espetáculo. Os visitantes escasseiam à certa altura. No silêncio, um galo canta ao longe. Ainda há galos anunciando o sol e que a vida continua para os que ficam. A madrugada avança lenta, prolongando o sofrimento dos que esperam o grand finale, a hora do merecido descanso — dos vivos, em dolorida paz, em suas casas, ciosos do dever cumprido - e do aconchego que resta ao morto ao colo da terra.

Mal clareia o dia, novo ajuntamento de gente. Terços. Ladainhas e choros, ora convulsivos, ora serenos e resignados. Hora da partida. Segue o cortejo, de carros, de gentes conhecidas e desconhecidas, de curiosos, que se dirigem à minha morada final. Uma breve visita à igreja para as bênçãos do padre, com mais rezas, abraços de conforto aos familiares, recomendações aos deuses, pedidos de misericórdia ao pai eterno, água benta, crucifixo, o cheiro de incenso, o cheiro da morte dormida.
Por fim, uma gaveta me acomoda. Uma, duas ou três pás de cal. Os funcionários da morte caçoam. Morreu de uma cocada… coitada. Não, não fora uma cocada que fizera mal, esclarece. Fora um coco que lhe caíra na cabeça. De grande altura. Não resistiu, a infeliz. Morte estúpida. Gargalham convulsivamente e se vão deixando na cripta abafada um bafo azedo de aguardente. Depois, só o escuro, o silêncio. Só eu e elas, as flores inocentes. O sono no escuro silencioso com cheiro de terra.

Pobres dos mortos que não têm vontades.

Pobres dos vivos. Não levo o óbolo para Caronte.


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sexta-feira, 10 de junho de 2016

A Mesma Praça



Deixei a Valentina na escola e resolvi descer pela Praça Afonso Pena. Sim, aquela mesma que se converte numa linda piscina de águas marrons e sujas quando chove muito aqui na Tijuca. Mas que, quando é praça, é uma boa praça, sim.

Claro que me dirigi diretinho para aos equipamentos de ginástica da terceira idade e, brinquei com as maquininhas por uns quarenta minutos, até que um grupo de pessoas mais adiante me chamou à atenção junto ao monumento do Tim Maia.
Corri pra lá. Havia uns atores professores, que davam aulas de teatro à pessoas da 'melhoridade'. (As aspas decorrem da minha incerteza quanto a isso) 
Fiquei curiosa. Sentei, observando tudo; como eles atuavam propositalmente, de forma caricatural, carregada, exagerada belamente na 'cor'.

Durante uma hora, mais ou menos, me diverti, com as gentes que aos poucos chegavam e, captei e compactuei com aquela energia gostosa que se manifestava bem na minha frente e ali, se fazia visível, contagiante e colorida.
Cantei com eles a música que servia de fundo para a representação. Cantei alto, com muita vontade, aquela canção da minha adolescência, lembrando do meu pai e sorrindo de muita saudade: "Esse cabeludo por acaso é cantor? Desliga esse rádio, menina e, crie juízo. Isso não é música de futuro".

Quando chega o fim dos trabalhos, um senhorzinho de barbas brancas e longos cabelos me carrega pra roda e, rodamos, cantando, sorrindo e ouvindo as orientações dos que repassavam as lições, pedindo para que atentassem às deixas de cada um.
Vez ou outra, os meus vizinhos da esquerda ou da direita, me interpelavam, atrapalhando as explicações e aí, ouvíamos alguns 'psiu!', suaves repreensões.
-Ah, menina, então você é de Natal.... só podia. Percebi pelo sotaque...Linda cidade!!!
-Adorei. Ficamos em Ponta Negra e fizemos passeio de bugue, com emoção, hahahaha.
-Praias linda! Aquilo lá é o paraíso - na terra. Que é que estás a fazer aqui? Se eu pudesse eu morava naquele céu...
Aí começa a chamada.
-Fulano...!
-Presente!
-Sicrano!
-Presente!
-Inês!
-Faltou. A Inês é morta! heheheheh
-Como é seu nome mesmo?
-Inês Mota!
-Gente, a Inês é viva, hahahaha
-Viva, viva a Inês viva!
-Quer fazer parte do grupo? Toda quinta, aqui, às nove em ponto.
-Ah, não sei.... vou ficar olhando...tenho trauma. Nunca soube representar...
-Não precisa. Basta simular um bocadinho. Só um bocadinho, entendeu? hahaha.
-Como o Fernando Pessoa. "O poeta é um fingidor..."
E tome música, violão, gente cantando, eu cantando a música do cabeludo que pai não gostava. https://youtu.be/vZ8sw_lH9ms

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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Kurosawua ou a angústia da influência

Imagem: "Ícaro e Dédalo", por Charles Paul Landon
Eram dias de mudança.
A casa, como em toda mudança, apinhada de caixas e móveis, bichos e gentes. Um caos que não se sabia por onde por ordem.


Da janela, Agnes assiste aos inusitados voos das crianças que, do 20º andar do prédio em frente, despencam sorridentes em queda livre.
Embaixo, o sangue, o espanto, o desassossego, a dor, o carpido das mães.
Agnes, pensativa, lembra apenas dos rostos felizes dos meninos que não temiam voar.
Em frente à casa, multidão. Um formigueiro em burburinho.
Tumulto. Especulações.


Então fora isso.
Era o que se propalava na rua. Era do Ângelo, a culpa.
Ângelo de Agnes de seu Chico.

33 anos, manso, sorridente, estudioso. Desde pequeno gostava das engenharias. Lia revistas de eletrônica. Engendrava  rádios transmissores domésticos.
Agnes e Ângelo são abordados. Na própria casa.

Polícia. Polícia. Polícias verdes e marrons. Camuflados.
Ângelo ri com todos aqueles bonitos dentes e grandes feito pedras de dominós. Debocha.
É broma. Só pode ser.


O artefato era seguro. Fora feito há mais de 20 anos. "Eu era um menino".
O projeto, só compartilhado com alguns outros poucos diletantes das tecnologias, era audacioso. E perfeito. Nenhum acidente registrado durante os testes com o protótipo.
Quantos voaram. Quantos realizaram sonhos. Quanta liberdade furtiva em meio aos cerceamentos. 


Mas os sonhos, como sonhos que são, são esquecidos, passam como o tempo e os protótipos e os projetos perfeitos ficam para trás, na caixa dos esquecimentos.
Ângelo sabe agora que não está sonhando. As polícias viram exércitos. Dentro de casa, na rua. Infinitas. Infinitas como fractais.
Enquanto bolina a memória, Ângelo vê materializar-se o objeto elíptico, tão familiar, tão roto. Surgem os distintos botões de cores e dimensões variadas, como os planetas do Sistema solar.


Mas, como lembrar das combinações, o código secreto, acionar o equipamento - agora mortal-  e, desativar suas funções?
Debalde, ele luta para lembrar a sequência. Os dedos passam trêmulos pelo dispositivo. O tempo não perdoa. Deleta a memória. O tempo, o tempo é lugar comum, é clichê.
Gabriel... Quem sabe, ele lembra... Ele não lembra.
Antes de sair, Ângelo volta-se para Agnes. Olham-se.

Agnes, rebela-se. As polícias não são páreo para uma mãe.
Avança. Transpõe a porta, abraça Ângelo.
Tropeçam. Caem, levantam, abraçados.


Agnes acorda. Chora um choro de felicidade.
Fora só um sonho. Apenas um sonho.
E do sonho, restaram as perturbadoras lembranças. As lembranças e o artefato. Em suas mãos.
Persevera.

Há de descobrir o bendito código.
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