quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

MEMÓRIAS DE QUANDO FUI NETA (Sobre maracujás e ninhos)

imagem: site BAIXAKI


Não saberia precisar quando e, quiçá, isso não seja relevante para quem se dispor a desperdiçar um bocadinho de tempo com escritos de quem pensa que pode sair por aí divagando sobre situações tão banais e insossas de sua infância.
Mas já que cheguei até aqui com esse delongamento introdutório, que nem de longe se arvora a triscar as tendências do Gongorismo ou Quevedismo, apenas brincar de fazer uso de muita ou pouca forma disforme para dizer pouco ou nada do que nada sei e não passa de pequena crônica despretensiosa.
O que posso afirmar é que foi num tempo em que, juro, eu não conhecia a história do Labirinto de Creta e tampouco ouvira falar do novelo de Teseu. Entretanto quando saia nas minhas insólitas viagens pela Caatinga, costumava levar uns grãos de milho que espalhava pelo caminho, os quais, sabia, me guiariam de volta para casa.
Eu buscava desbravar o mato cerrado, o desconhecido, a "grandiosidade" do sítio do meu avô, as árvores, os bichos, os riachos e córregos. Eu procurava especialmente as latadas de maracujá do mato, ao seu ver, erroneamente chamado de brabo, já que nunca presenciara qualquer atitude tempestuosa que lhe valesse tal alcunha. Deleitava-me com o divino o sabor das frutas, deitada na relva vendo manadas de bichos-nuvens fugazes, passeando com pressa e se desintegrando no azul do céu, quem sabe medrosas, temendo manadas ferozes no seu encalce.
Depois, já em casa, como era bom observar sorrateiramente a vaidade melancólica da minha mãe, tão atarefada, que à beira do fogão de lenha, se dava o direito de ficava bonita ornando os cabelos com as majestosas flores de maracujá matizadas de vermelho, azul e roxo, que eu trazia pra ela.
No dia em que me deslumbrei com a visão do primeira comida esquisita que me pareceu fios de tecer redes, cismei que aquilo dava em árvores e daí em diante, nas aventuras subsequentes. os passeios se tornaram mais longos, as caçadas mais meticulosas. Os maracujás já não eram objetos exclusivos de busca,
Jamais encontrei os tão cobiçados pés do que me disseram chamar-se macarrão e passei a desconfiar que eles davam mesmo era embaixo da terra, escondidos feito batata doce ou macaxeira. Ou, quem sabe, brotavam dos ninho enroladinho dos rouxinóis que eu vira pendurado junto ao silo de feijão do Vô Joca.
Naquele tempo, não tinha certeza de nada. Hoje, tampouco.
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Abissal

Foto: Inês Mota


O caleidoscópio de rochas vivas generosamente acolhia-me e, ainda assim, o meu mundo era sombrio e tenebroso.

Eu sentia tanto medo. E o medo retraía-me ao posto de atalaia que me garantia relativa segurança em meio aos ferozes habitantes.

Para não me afogar, vencia a fadiga e protelava o sono, dia e noite. Noite e dia, empenhada em enxugar o mar d' água em torno de mim.

Oh, Sísifo! Como eu sabia dos seus desenganos.

Um dia, o misericordioso Merlin Azul segredou-me que esse mundo se chamava mar.
Segredou-me que meu nome é peixe.

Ciente da minha nova condição, descartei panos, dores e o escuro do mundo abissal.

Agora cuido de voar e contemplar estrelas

Inês Mota

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

NEM TODO CÉU É DE BRIGADEIRO

Imagem da Net- Kurosawa- Kagemusha

Tudo passa lento e morno e a noite vai tingindo o dia como Kurosawa pinta seus filmes.
Sentada no banco do parque, conto os tijolos vermelhos da calçada e acompanho o movimento nervoso das formigas que em fila indiana carregam ovos de dinossauros na cabeça.

Um vento travesso rouba o chapéu do seu Zé e o deposita no galho seco do fícus...fícus benjamina...fícus benjamim...Benjamim...

-Benjamim, chame seu pai pra dentro!
-"Papaiii"..!

Uma folha fugida do outono que não temos, passa rodopiando e se acomoda no vão dos meus dedos enquanto o pardal belisca o pão do mendigo que costura os seus sonhos numa mochila de lona verde tecida no tear que pai comprou em São Paulo e queimado por descuido de Dimas. 

Seu Nozinho contorna a calçada pela quarta vez, montando sua velha bicicleta preta e assobiando Hey Jude porque segundo ele é impossível atravessar esse Saara sem Beatles. 

Um cão sarnento passa cambaleante espantando as moscas da pata ferida e me olha pedindo licença para se deitar e ficar triste. Ele se deita e nós ficamos tristes.

Ao longe, o radio toca um prelúdio para ninar gente grande e pequena. É a voz de algodão doce de  Luiz Vieira que lembra saudade, inverno, trovão e bolinho de chuva.
Um relâmpago risca o  céu, que agora cinza ameça desabar sobre nós.

Bem que mãe disse que ia chover!

Inês Mota



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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Kafka e sua obra: pessimismo?

(Imagem by me )


No entendimento do filósofo e escritor brasileiro Leandro Konder, não.

No seu livro Kafka- Vida e Obras, Konder argumenta que enquanto filósofo, Kafka foi levado a adotar ideias pessimistas. Certa vez em conversa com um amigo, Kafka afirmou de forma negativa e radical: "Somos pensamentos niilistas aparecidos no cérebro de Deus. Somos um de seus maus humores, um dia ruim d'Ele". E quando o amigo indaga, se então havia esperança, ele retruca: "Para Deus, sim. Mas não para nós".

 É necessário, entretanto, separar as ideias de cunho pessoal do escritor quando se restringia a pensamentos filosóficos das ideias que ele traz implícitas na sua obra. E felizmente, para nós, Kafka foi um artista e não um filósofo. "Essa criação artística vem corrigir a deformação pessimista e conservadora de algumas de suas ideias filosóficas", diz Konder, que argumenta:

"Em suas obras de ficção, Kafka não foi pessimista. A moral do pessimista é mais ou menos a seguinte: Não adianta fazer nada, porque o mundo é uma porcaria e há de ser sempre assim como está'. A moral das estórias de Kafka é muito diferente. Se podemos resumir a lição que Kafka nos dá, devemos dizer que seus livros são gritos de alarme, são denúncias, avisos de perigo, e não aconselham ninguém a se resignar com a situação a que o mundo chegou."

Um dos exemplos que mais ilustrariam o humanismo ativo presente na obra kafkiana, nos é apresentada no seu livro O Processo. Em determinado trecho da obra, no capítulo Diante da Lei, nos ensina que para se conseguir justiça é preciso enfrentar com rigor e obstinação os males da passividade, nesta parte da obra, O capelão da penitenciária narra uma lenda a Joseph k, personagem central da trama :

Manuscrito original de O processo consrvado em Marbach, Alemanha

"Conta ela que um cidadão foi detido por uma sentinela diante de uma porta, que era a porta da Lei. O cidadão quer entrar porém o guarda não o permite. O cidadão pergunta se poderá entrar mais tarde e o guarda lhe responde:"Talvez. Mas não agora". Ao perceber que o cidadão está procurando olhar através da porta, o guarda previne: 'Se te sentes assim tão atraído, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, advirto que sou forte. E embora forte, sou o mais ínfimo dos guardas. De sala para sala as portas serão guardadas por sentinelas cada vez mais fortes...'
...O cidadão se instala diante da porta e passa toda sua vida na expectativa de um dia poder obter permissão para entrar. Já velho e a morrer, indaga da sentinela: 'por que, durante todos estes anos, não apareceu aqui outra pessoa que não fosse eu, querendo entrar por esta porta?'. O guarda responde: 'Porque esta porta não existia senão para ti, só tu tinhas o direito de entrar por ela e agora , a morreres, vou fechá-la'. E fecha...
Joseph K, o personagem, revolta-se contra a atitude do guarda e acredita que ele agiu de má fé. Entretanto, o padre que havia feito a narração o critica e o adverte de que a lenda é deveras complexa e encerra inúmeras interpretações. O intuito do capelão, por sua vez é obscurecer o entendimento da narração envolver o espírito do acusado em grande desordem.
Mas a lenda era bem clara: O cidadão cometeu o pecado da obediência. Ele não ousou discordar da absurda autoridade nem questionar sua legitimidade".
Konder acrescenta: "O próprio Joseph K, ao longo do seu monstruoso processo luta para sobreviver, mas morre porque nunca leva a sua luta contra a desumana organização judicial às últimas consequências. O guarda da porta da Lei era um empulhador. O capelão, tentando obscurecer com interpretações contraditórias o sentido da lenda era outro empulhador. Por não terem sabido definir claramente a empulhação e por não terem tomado uma posição radical de luta prática contra ela, os personagens de Kafka se viram triturados pela engrenagem dos empulhadores..."

Várias outras de suas obras vêm corroborar essa ideia do inconformismo diante dos percalços da vida. Esse pensamento é recorrente em diversas outras obras de Kafka, além de O Processo, aqui citado. Assim também ocorre em A Toca - Uma advertência contra a inércia causada pelo medo. Esse pensamento também permeia outra de sua obra Um Velho Manuscrito, que sugere a busca em nós mesmos a coragem imprescindível para fugir dos opressores.“As ideias implícitas nas estórias citadas são mais lúcidas do que as idéias filosóficas que expunha para si próprio e para os amigos, fora da criação literária. Estas últimas , um pensamento filosófico discutível; as outras, o artista de gênio, a visão correta de uma vigorosa imaginação criadora."


Fonte: Leandro Konder em Kafka- Vida e Obras


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