quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Outros Crimes Exemplares - O Glutão

(Imagem: Desconheço autoria)

Durante o jantar, quando atirou no rosto dele o conteúdo da jarra, recebeu de volta um olhar estupefacto e o som de um baque surdo.
Não morreu afogado, decerto, mas do susto. Sofria do coração.
Muito justo.
Por que diabos comer de forma tão glutona e estúpida?

Enchia o prato como se estivesse jejuando há dias e por trás da montanha alimentar ela só vislumbrava dois gulosos olhos, que por sua vez, não entreviam nada além do anseio de abarrotar a pança.
Como se não bastasse, ficava arrumando e arrebanhando com os talheres, o arroz, o feijão, a salada e a carne, tal qual se comporta um cão pastor com as ovelhas. Parecia temer que a comida fugisse.
Não satisfeito arfava e gemia de deleite.
E isso ela não suportou. Transpusera todos os seus limites de tolerância.

Inês Mota



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4 comentários:

Jens disse...

Soberba concisão, Inês. Não pude conter o riso diante da voracidade do pobre Pantagruel. Pelo menos morreu com o pandulho cheio.

Um beijo.

Ines Motta disse...

Não sei, Jens! Acho que, numa atitude de cruel e rigorosa coerência, decidi que ele ainda não havia jantado.

Oscar disse...

Yo soy Oscar de Bs As, si te gusta el tango entra a mi blog "entradas antiguas", Casa de Carlos Gardel
Un beso grande
Oscar de Bs As

Dilberto L. Rosa disse...

Deleite é este desfile de concisão e de precisão, minha glutona das palavras: devora-as sem dó nem piedade - mas o faz com uma avidez tão poética e suave, que elas adoram ser por ti digeridas! Pobre de nós, glutões de teus 'posts', se te cansares de nossa avidez e nos tascares uma jarra! Rs. Abração! E, em breve, você "estará recebendo gratuitamente" o texto prometido!