segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Outros Crimes Exemplares (I.M.) *



(Imagem da Internet. Desconheço autoria)

OUTROS CRIMES EXEMPLARES (I.M)

* Conto válido como 3ª avaliação da disciplina Teoria da Literatura II - UFRN- 2011.

Então.
Essa é uma história antiga. Quer dizer, é mais ou menos antiga. Tem uns quarenta anos, por aí. Começa com Seu  Benedito Romão.
O Seu Benedito era um comerciante dono de uma bodega muito sortida na Rua Antônio Garcia e morava com sua mãe numa casa em frente ao campo de futebol “José Avelino da Silva”, no bairro Paraíba, em Caicó. Era um senhor rechonchudo e simpático que costumava assobiar em meio ao seu ofício de vendedor. Gostava de uma roupa cáqui e as calças altas estavam sempre presas por um cinturão de couro marrom. Não se apartava do seu chapéu de feltro cinza. Tinha um jeito todo especial de embalar as coisas que vendia no  estabelecimento. Por exemplo, ao embrulhar as bolachas secas, pegava uma folha de papel pardo, rasgava com uma régua de madeira, colocava-a sobre os pratos dourados da balança e, com uma caneca de zinco pontiaguda ia trazendo a massa aos pouquinhos, para que não ultrapassasse uma quarta – a clientela não comprava de meio ou de um quilo –, juntava o embrulho e ia torcendo o papel para produzir o fechamento, que ficava parecendo uma trança de cabelo como a que  mãe fazia em mim.

Será que é necessário explicar a vocês o que é uma quarta de bolacha ou algo sobre a tal caneca de zinco? Melhor não. É preferível continuar com a história, porque essas digressões podem esticar demais  as coisas e  comprometer o relato, não é mesmo?
Antes eu preciso esclarecer que, pelo que sei, Seu Benedito, além da labuta semanal na bodega, aos sábados e aos domingos trabalhava vendendo seus produtos num ponto no Mercado Público, justo ao lado de onde ficava o sebo de livros do Zé Maria. Num desses dias de pouco movimento, ele, que nem era muito chegado a livro, decidiu sair e comprar um exemplar que lhe pareceu interessante. No fim da tarde, já em casa, sentou-se na sua espreguiçadeira e começou a leitura, enquanto sua esposa lhe trazia uma taça de vinho tinto e uma porção  de queijo.
Tratava-se de um livro de contos intitulado Outros Crimes Exemplares. A primeira história se chamava “Cada um tem a Pasárgada que merece”. Eu até poderia relatar sumariamente a intriga, tal como me passaram, mas como tenho um volume da obra em casa, vou expor a coisa tim tim por tim tim:

“Estou pensando em ir embora, quero voltar para o meu torrão...”
Dia e noite era essa cantilena do meu marido Cazuzinha queixando-se que sentia saudades da sua terra, uma cidade praieira na grande Recife. Amiúde, tinha uns banzos medonhos relembrando dos amigos, das aventuras e bebedeiras, dos banhos de rio e de mar e das pescarias, dos sons da cidade, dos maracatus e dos frevos.
Sentia saudades de andar de bicicleta, dos dias ensolarados, das serestas na lua cheia, de montar em burro brabo, da festa do Bom Jesus dos Navegantes, da comida caseira e das histórias que a sua mãe contava. 
Era um homem jovem e saudável e teria vivido muito, não fosse a estupidez de incluir no rol dos saudosismos a primeira e inesquecível namorada e as memoráveis farras com as meretrizes da cidade. Isso eu não suportei. Cheguei aos limites da tolerância. Qualquer uma no meu lugar faria o mesmo.
O vinho que preparei para ele naquele domingo de Páscoa potencializou o efeito do veneno e tudo não rendeu cinco minutos. Agora, ele escuta o som do silêncio e os carpidos de sua mãe, Dona Bia de Seu Cazuza. Justa que sou, permiti que fosse enterrado onde queria estar vivo. Cada um tem a pasárgada que merece.

É verdade que Seu Benedito ficou um pouco chocado com tal desfecho e com a patente frieza da personagem, mas talvez esse fato o tenha motivado ainda mais a retomar empolgado a leitura do segundo conto, “O triste fim de Inácio Moura”, que diz o seguinte:

Durante o velório do meu marido, encarei como uma estranha coincidência o reencontro com o Inácio Moura, um velho conhecido que havia se graduado em Natal e retornara à terrinha para ministrar aulas na universidade local. O acaso nos aproximou e, diante da indignação de minha ex-sogra e praticamente da cidade inteira, casei-me com ele três meses depois, numa cerimônia simples no Fórum Municipal, estabelecendo-me de vez  no estado pernambucano. 
Inácio era um escritor renomado e dentre suas obras figura a famosa tese de mestrado denominada A Última cantiga de ninar ao menino que se recusava a crescer, dedicada a mim e aos dois filhos que tive com o meu primeiro marido. Entretanto, o mais importante trabalho literário produzido por ele foi um livro que traz o título Outros Crimes Exemplares, motivo de orgulho para ele – e  para mim, já que lhe dei a ideia de produzir contos cujos enredos girassem em torno de assassinatos cometidos por motivos fúteis. A obra foi lançada  com  sucesso em  várias cidades país afora, em meio a muitas críticas positivas nas rodas de conversas  literárias.
Ele produziu mais algumas obras importantes, inclusive a sua tese de doutorado, Patrimônio histórico do Sertão Potiguar, de cujo lançamento participei. O livro agora trazia uma dedicatória pomposa, não mais a mim, mas a sua orientadora de nome afrancesado, Sophie Cavagnac. E eu pergunto: é justo isso? Que ser humano poderia suportar tamanho despautério? Nós brindamos ao seu sucesso, mas aquele foi o último champagne que ele saboreou na vida. Reconheço, entretanto, a minha falha quanto à dosagem de veneno, o que lhe provocou um fim lento e doloroso. E disso eu sinto remorso. Afinal, ele era um bom homem e merecia uma morte  abreviada.
Sua última obra, um livro de poesias chamado Brevidade das coisas: Poesias de I.M., foi publicada postumamente, em meio a grande clamor, dali a dois meses.

Nesse momento, Seu Benedito, indignado, não sabia se continuava a ler os demais contos ou se parava por ali mesmo. Olhou de relance para a esposa, que na cozinha preparava uns docinhos de festa e  pensou que não custava nada ver até onde ia a ousadia do autor, qual absurdo viria pela frente e assim passou ao terceiro conto, intitulado  “Festim Maldito” :

Apesar dos reveses pelos quais por vezes temos que passar, a vida continua e a solidão, dizem, não é algo para ser cultivado. Depois de alguns meses sozinha após a morte do meu marido, recentemente conheci um comerciante e nos apaixonamos. Mudei-me definitivamente para Caicó, casamo-nos e agora tenho uma vida feliz e harmoniosa, não fossem alguns hábitos irritantes que ele insiste em cultivar, como usar um chapéu démodé de feltro cinza, trabalhar sem descanso nos fins de semana e fazer fotos de túmulos no cemitério local, toda sexta-feira, impreterivelmente.

Sonolento, Seu Benedito fechou o livro sem terminar a leitura. Sua mulher já o chamava para que se recolhessem. Era tarde e ambos tinham muitos afazeres impontantes no dia seguinte.

E é como eu estava dizendo, esses fatos são antigos mesmo e acho que me foram contados por minha mãe, que esmiuçou a vida toda de Seu Benedito. Não esqueceu sequer de mencionar que o queijo que acompanhava o vinho chileno naquela remota tarde de domingo era de manteiga e derretido. Um detalhe até prescindível, porque em Caicó praticamente só se come esse queijo e sempre dessa forma.
Falou das circunstâncias em que ocorreu a morte do Seu Benedito, um rapaz velho que, como eu já citei antes, tinha uma bodega na tal rua, que se vestia assim, assim, que vivia com a velha mãe, Dona Isabel, até que conheceu uma mulher das bandas do Pernambuco, com dois filhos barbados a tiracolo, se enrabichou por ela e se casou, a despeito dos conselhos da família. 

Ah, sobre a morte, consta que ele, durante um brinde na festa de suas Bodas de Papel, sofreu um ataque cardíaco fulminante e caiu mortinho. Nesse tempo se morria e pronto, estava acabado. Ninguém nem investigava o motivo real. A viúva, que não era mais viúva quando eu conheci esta história, tomou conta da bodega e nem chegou a aprender a embrulhar bolacha do jeito do Seu Benedito, por causa do desgraçado advento da sacola plástica, disseminada mundo afora que dará uma considerável contribuição ao fim da vida no planeta.

Foi o que mãe me contou. Como ela conhecia tantos detalhes? Ora, e eu lá vou saber? Nunca perguntei. O que eu sei é que ela sabia. Sabia e tá acabado. Mas vejam só, às vezes as coisas se embaralham um pouco na minha cabeça. Eu posso até admitir equívocos quanto à procedência dessa história. Teria eu escutado mesmo da minha mãe? Sei lá, talvez eu até tenha sonhado, porque eu também sonho. Ou, quem sabe, sejam resquícios guardados de umas conversas com minha amiga Agnes, que costuma ler Max Aub, Cortázar, Clarice, Borges e mais um montão de gente que tem o costume de escrever coisas assim...  esquisitas.
E é só. Acabo aqui, porque  já estou ficando muito enjoada dessa história.

Inês Mota

* Conto válido como 3ª avaliação da disciplina Teoria da Literatura II - UFRN- 2011.

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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Ave!

Salve Jorge, o mais novo folhetim da Rede Globo, estreou recentemente. Segundo a direção, a única ligação da trama com o santo é que este é o padroeiro da Corporação fictícia da novela. A estreia se deu sob protestos veementes de alguns evangélicos.

Um dos conteúdos do manifesto dessa torcida contra o folhetim circula nas redes sociais. Segundo um dos sites, Exército Universal"[...] Ao ressoar no recinto as palavras 'Salve Jorge', muitos estarão saudando conscientemente o 'espírito': 'Ó São Jorge (ogum) receba minha respeitosa saudação. As portas de minha casa estão abertas para ti'. 'Ogum' entra e o Espírito de Deus sai […] o Espírito de Deus não divide o espaço com ninguém, com a chegada de um outro espírito, Ele certamente se ausentará "[sic].

Para boicotar Salve Jorge o contra-ataque veio mais que depressa por parte da Rede Record, que aproveitou para divulgar Rei Davi, a reprise que será exibida a partir desta semana. Uma luta de gigantes? Ainda segundo o site,"Ressalta-se que a novela da Globo fará apologia à prática do lesbianismo. […] A novela também terá a participação de uma policial lésbica, que será interpretada por Thammy Gretchen, assumidamente lésbica na vida real" [sic]. Outra discriminação sobre a qual não convém discorrer no momento.


Porém, longe de entrar no mérito da questão dos evangélicos ou fazer apologia às novelas globais, não pude deixar de escrever estas linhas, ao me deparar com uma imagem na página do Facebook “Jesus é o caminho”. Quanto ao texto da publicação, cabe salientar que a expressão “salve” não tem suas origens no Candomblé, como apregoa a página. Os imperadores romanos já eram saudados por seus súditos com a expressão “Ave Caesar”, uma saudação de boas-vindas ou reverência, que traduzido corresponde a “Salve César”. “Ave Caesar morituri te salutant”, literalmente, “Salve César, saúdam-te aqueles que morrerão”, é uma tradicional frase latina que os gladiadores dirigiam ao imperador antes do começo de um combate na arena. A Igreja Católica, por sua vez, também fez uso da expressão para saudar a virgem Maria, mãe de Jesus Cristo, cuja oração a ela dedicada mantém a saudação latina “Ave Maria Gratia plena” (“Ave Maria, cheia de graça”).

O conteúdo, aparentemente banal e inofensivo, da mensagem veicula uma visão preconceituosa do Candomblé e reflete muito mais que uma simples polêmica entre evangélicos em torno do nome de um folhetim. Reflete a perseguição, a intolerância e a discriminação que sofrem as religiões afrobrasileiras, no meio da nossa sociedade. É estarrecedor ver como cada vez mais as minorias neste país, sejam quanto às identidades sexuais, à identidade racial, e inclusive no que diz respeito à religiosidade, são discriminadas e perseguidas tanto pelos ânimos exacerbados dos católicos quanto pelos evangélicos fundamentalistas, alguns dos quais fazem parte de bancadas parlamentares no Congresso Nacional e tentam a todo custo aprovar leis retrógradas que defendem os interesses de suas igrejas em detrimento dos direitos da maioria da população.

Somos seres livres e cada um faz a sua saudação como bem lhe aprouver, de acordo com sua prática religiosa, conforme lhe parecer conveniente. Ogum é um orixá do Candomblé, religião de matriz africana, cultuada no Brasil, que no sincretismo religioso corresponde a São Jorge da Igreja Católica, o santo guerreiro que teria nascido na Capadócia, localizada na atual Turquia.

Aos intolerantes a essas religiões afro-brasileiras, ainda tão presentes na atualidade, não custa lembrar que liberdade ao culto religioso consta da Constituição Brasileira.

Portanto, “Salve Jorge!” para quem está “vestido com as roupas e as armas de Jorge”, como disse Jorge Ben Jor. “Salve Jesus Cristo”, “Salve Maria”, para quem é cristão/católico. E salve a liberdade de escolha, de expressão, de ir e vir. Salve todas as liberdades para que não nos tornemos intolerantes e não trilhemos pelos mesmos caminhos por onde trilham aqueles que creem que pensar diferente da maioria é crime.





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domingo, 8 de janeiro de 2012

Poema de Cinza - À memória de Fernando Pessoa - Por António Botto *


Imagem: Inês Mota


Esta edição da "Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e António Botto" foi composta e impressa para a Editora Nobel na Casa Minerva, Coimbra, em fevereiro de 1944, é numerada e traz a rubrica de António Botto. Fiquei maravilhada quando, por acaso, em 2006 a encontrei num sebo. O estado do exemplar, com manchas, páginas amassadas não me incomoda, ao contrário me agrada saber que as marcas podem ter sido deixadas pelas mãos que o leram. Gosto de livro que trazem "rastros" de leituras.

Em Novembro de 1935, quando Pessoa morreu, o trabalho não estava concluído. Foi Botto quem o terminou, selecionando poemas de José Régio, Augusto Pinto, Francisco Bugalho, João de Barros, Alfredo Guisado, Vitorino Nemésio, Carlos Queiroz, Miguel Torga, um poema ortônimo de Fernando pessoa e dos heterônimos  Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. 

Abaixo transcrevo o "Poema de Cinza" extraído do livro, composto em homenagem ao amigo: 

"Poema de Cinza"

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrêlas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que êstes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença,
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns Senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,

As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma côr, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver 
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...

Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dêle,
Do camarada raro que lembramos, 
Fiquemos uns momentos a cantar! 

___________________________________________________

Vida e Morte de António Botto

Um reconhecimento que tarda

A vasta obra poética de Botto, em parte ainda dispersa ou não-recoligida, apesar de e também pelo muito que ele publicou, republicou, reorganizou em volumes dispersos ou suprimia de volumes anteriores, etc., poderá repartir-se em quatro fases: a juvenil, em que continua o tom da quadra dita popular, conjugando-o com aspectos da dicção simbolista que poetas como Correia de Oliveira, Augusto Gil, e sobretudo Lopes Vieira haviam introduzido nela; a simbolistico-esteticista, em que a juvenilidade tradicionalizante se literaliza dos requebros esteticísticos que marcaram, nos anos 20, muita poesia simultâneamente da tradição saudosista e modernista (é a das primeiras edições das Canções e breves plaquetes seguintes, em que todavia a personalidade do poeta já figura inteira em diversos poemas); a fase pessoal e original, nos anos 30, desde as edições de 1930-32 das Canções (em que ele ia incorporando selecções de colectâneas anteriores) até a Vida Que Te Dei e Os Sonetos (fase que é também a dos seus excepcionais contos infantis que tiveram realmente as edições estrangeiras que se julgava ser uma das mentiras megalomaníacas do poeta, da «novela dramática» António, e da peça Alfama); e a última fase, nos anos 40 e 50, até à morte que é a de uma longa e triste decadência, com poemas desvairadamente oportunistas, revisões desastrosas afectando nas reedições alguns dos melhores poemas anteriores [...]" em Líricas Portuguesas, de Jorge de Sena.

Sobre a poesia de António Botto escreveu Fernando Pessoa no prefácio do seu livro Motivos de Beleza, publicado em 1923: 

"A elegância espontânea do seu pensamento, a dolência latente de sua emoção asseguram-lhe facilmente, conjugando-se, a mestria nesta espécie de lirismo [...] Distingue-se pela simplicidade perversa e pela preocupação estética destituída de preocupações. Foge da complicação com o mesmo ardor com que se esconde da intenção directa. É em verdade singular que se seja simples para dizer exactamente outra coisa, e se vá buscar as palavras mais naturais para por meio delas ter entendimentos secretos.
Certo é que o que António Botto escreve, em verso ou em prosa, há que ser lido sempre com a intenção posta em o que não está lá escrito."

Os primeiros anos

António Botto nasceu em Concavada, freguesia do concelho de Abrantes, Portugal, [..], filho de Maria Pires Agudo e de Francisco Thomaz Botto. O seu pai trabalhava como "marítimo" no rio Tejo. Em 1908 a sua família mudou-se para o bairro de Alfama em Lisboa, onde cresceu no ambiente popular e típico desse bairro, que muito influenciou a sua obra. Recebeu pouca educação formal e trabalhou em livrarias, onde travou conhecimento com muitas das personalidades literárias da época, e foi funcionário público. Em 1924 - 25 trabalhou em Santo António do Zaire e Luanda, na então colónia de Angola.

Personalidade

António Botto tinha uma forte personalidade. Descrevem-no como magro, de estatura média, um dandy, de rosto oval, a boca muito pequena de lábios finos, os olhos amendoados, estranhos, inquisitivos e irónicos (de onde por vezes irrompia uma expressão perturbadoramente maliciosa) frequentemente ocultados sob um chapéu de abas largas.
Tinha um sentido de humor sardónico, incisivo, uma mente e língua perversos e irreverentes, e era um conversador brilhante e inteligente. Era amigo do seu amigo, mas ferozmente ruim se sentia que alguém antipatizava com ele ou não o tratava com a admiração incondicional que ele julgava merecer. Este seu feitio criou-lhe um grande número de inimigos. Alguns dos seus contemporâneos consideravam-no frívolo, mercurial, mundano, inculto, vingativo, mitómano, maldizente e, sobretudo, terrivelmente narcisista a ponto de ser megalómano.

Era visitante regular dos bairros boémios de Lisboa e das docas marítimas onde desfrutava a companhia dos marinheiros, tantas vezes tema da sua poesia. Apesar de ser sobretudo homossexual, António Botto foi casado até ao final da sua vida com Carminda Silva Rodrigues ("O casamento convém a todo homem belo e decadente", como escreveu ).

Despedido

Em 9 de Novembro de 1942 António Botto foi demitido do seu emprego na função pública (escriturário de primeira-classe do Arquivo Geral de Identificação) por:

"a) ter desacatado uma ordem verbal de transferência dada pelo primeiro oficial investido ao tempo em funções de director, por impedimento do efectivo;
b) não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social;
c) fazer versos e recitá-los durante as horas regulamentares do funcionamento da repartição, prejudicando assim não só o rendimento dos serviços mas a sua própria disciplina interna."
Ao ler o anúncio publicado no Diário do Governo, Botto ficou profundamente desmoralizado e comentou com ironia: "Sou o único homossexual reconhecido no País..."

Para se sustentar passou a escrever artigos, colunas e crítica literária em jornais, entre os quais a revista Contemporânea (1915-1926) e a Revista municipal(1939-1973), e publicou vários livros, entre os quais "Os Contos de António Botto" e "O Livro das Crianças", uma colecção de sucesso de contos para crianças (que seria oficialmente aprovada como leitura escolar na Irlanda, sob o título The Children’s Book, traduzido por Alice Lawrence Oram).

Mas tudo isto se revelou insuficiente. A sua saúde deteriorou-se devido a sífilis terciária que ele recusava tratar e o brilho da sua poesia começou a desvanecer-se. Era alvo de troça quando entrava nos cafés, livrarias e teatros. Por fim, cansou-se de viver em Portugal e em 1947 decidiu emigrar para o Brasil. Para juntar dinheiro para a viagem organizou, em maio desse ano, recitais de poesia em Lisboa e no Porto, que resultaram em grandes sucessos, com elogios por parte de vários intelectuais e artistas, entre os quais Amália Rodrigues, João Villaret e o escritor Aquilino Ribeiro. A 17 de Agosto partiu finalmente para o Brasil com a sua mulher.

Últimos anos

No Brasil residiu em São Paulo até 1951 quando se mudou para a cidade do Rio de Janeiro. Sobreviveu escrevendo artigos e colunas em jornais Portugueses e Brasileiros, participando em programas de rádio e organizando récitas de poesia em teatros, associações, clubes e, por fim, botequins.

A sua vida foi-se degradando de dia para dia e acabou por viver na mais profunda miséria. A sua megalomania agravada pela sifílis era gritante e não parava de contar histórias delirantes das visitas que André Gide lhe teria feito em Lisboa ("Se não foi o Gide, então foi o Marcel Proust..."), de ser o maior poeta vivo e de ser o dono de São Paulo. Em 1954 pediu para ser repatriado, mas desistiu por falta de dinheiro para a viagem. Em 1956 ficou gravemente doente e foi hospitalizado por algum tempo.

Em 4 de Março de 1959, ao atravessar a Avenida Copacabana, no Rio de Janeiro, foi atropelado por um automóvel do governo. Cerca das 17h00 de 16 de Março de 1959, no Hospital da Beneficência Portuguesa, Botto, mal barbeado e pobremente vestido, expira, abraçado pela sua inconsolável mulher, que o chora perdidamente.

Em 1966 os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa e, desde 11 de Novembro do mesmo ano, estão depositados no Cemitério do Alto de São João.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Botto

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domingo, 1 de janeiro de 2012

Matrix. Realidade, ilusão, ciência – Reloaded



Meu nome é Morpheus. Alguns insistem em fazer analogias associando meu nome à figura do pregador João Batista, mas isso não tem o menor fundamento, acreditem. A nave na qual viajo se chama Nabucodonosor, porque certa vez sonhei com a destruição de Jerusalém, embora até hoje não saiba o que isso quer dizer. O onirismo às vezes nos prega dessas peças.

Venho em missão secreta, do centro quente da terra de Sião, a última cidade dos seres livres. Sou o visionário que lutará para libertar a humanidade do domínio das máquinas. Embora plasmado em imagem masculina, advirto que sou mulher mesmo e só usei a indumentária na película porque estava vindo de uma dessas modernas e ridículas festas temáticas para adultos.
Metaforicamente sou o componente yang da psique… putz, yin, deixa de novela e segura a droga desse microfone!… Continuando, sinto informar que não surtiu o efeito esperado tapar o sol com a peneira, Vocês esqueceram esta velha máxima? Por que os algozes usariam a energia solar se podiam recorrer à fonte dos próprios humanos, mais abundante e barata?
Repudio a ideia de ver vossas mentes conectadas em Realidade Virtual e abomino esses campos de cultivo, em que casulos aprisionam vossos corpos para alimentar as insaciáveis máquinas. Gostaria que soubessem o quão lamento vê-los manipulados, customizados no brechó da esquina e deslumbrados com as reprises das novelas globais.

Agora, as máquinas evoluídas pela AI reinam absolutas sob o comando do Agente Smith, especialmente programado para manter a ordem dentro do sistema e pronto para fazer uma faxina e exterminar humanos e programas instáveis na realidade simulada. Elas querem vossas energias, vossos votos para reeleger Dilma daqui a quatro anos, vossos incondicionais apoios à CPMFs (1), vossas certidões de idade, vossos cartões de crédito, vossas mãos em casamento e muito mais. Por isso, insisto, está na hora de fugir da caverna do senso comum e superar a ignorância rumo à filosofia. As dúvidas de como vencer essa árdua jornada poderão ser encaminhas ao site do Platão, aberto 24 horas por dias, inclusive nos fins de semana.

Insito, nem tudo está perdido, pois vislumbro um ser dentre vós, o Escolhido, capaz de controlar e derrotar os mecanismos antivírus da poderosa Matrix. Seria Anderson, o filho de André, o Hacker filho do homem, o ego psicologicamente representado, o neo Neo com excelentes e comprovados reflexos para apanhar sabonete no banheiro e messianicamente ressuscitado na sala 303 após beijo caloroso de Trinity?
Para verificar a identidade do Escolhido é preciso consultar o Oráculo – uma senhora casada com um carpinteiro de nome José – que sabiamente assertou “A nossa escolha é a repetição das nossas escolhas”. Por vezes ela aparece disfarçada de vendedora de hambúrguer(2) no McDonald’s e pode-se identificá-la facilmente pela canção “I’m Beginning to See the Light” (‘Estou Começando a Ver a Luz’), de Duke Ellington, que ela costuma entoar ouvindo o seu radinho de pilha ABC. Mas todo Oráculo que se preza tem a proteção do seu Cérbero de guarda ou espírito superior e assim Neo será testado e enfrentado por Seraph antes de este o conduzir até ela.
E não se enganem. Pode ser um contrassenso, mas Neo estaria perdido sem esse amparo, ainda que o Oráculo não forneça respostas, só escolhas. Eu mesmo, Morpheus, quando Neo decidir  ingerir a pílula vermelha que o deixará na maior lombra à la “Lucy in the Sky with Diamonds”, o alertarei: “ Esse home precisa entender que estou tentando libertar sua mente. Mas eu só posso mostrar a porta. E esse home é que tem que decidir se quer atravessá-la ou não.” Basta ver que o Kafka já sabia sobre o poder das escolhas, do livre-arbítrio, tanto que a porta da justiça permaneceu fechada diante do homem que não ousou enfrentar as adversidades que o adentrar reservava. E sabe-se que a passagem estava ali exclusivamente para ele.

E tem mais. Toda cautela é pouca com Cypher. Ainda que seu nome lembre Lúcifer – ele está mais pra Judas do que para anjo caído. É a encarnação do mal, a traição, o retrocesso total do eu e defende a ilusão como mais interessante do que a realidade ou “olhos que não veem, coração que não sente”. Costuma recorrer a citações do Mecanismo de Defesa do Ego (MDE), sem os devidos créditos e sem pagar pelos direitos autorais.
Por outro lado, Trinity, o aspecto yin da psique, pode ajudar muito. A não ser que yang, por sua personalidade possessiva e ciumenta, não o permita. Trinity é o apoio físico e espiritual ao Escolhido, a trindade que se resume em 4: pai, filho, espírito santo e assim seja. Recomendo tratá-la com o maior recato e prudência. Chamá-la inadvertidamente de Madalena seria um erro crasso que a deixaria puta para o resto da vida.




Assim, o Escolhido deverá seguir os coelhos brancos mutantes que aterrorizam rancheiros do Arizona, além de dominar o conhecimento sobre o alfabeto japonês ao contrário, a fim de desvendar os seguintes enigmas:
Por que aqueles Cavaleiros continuam dizendo “Niilismo”?
Por que Lula deixou de usar o famigerado “Companheiros”?
Por que a Capitania Hereditária do Maranhão não foi extinta junto com os dinossauros?
Por que herbívoros como a cabra, o cavalo, a vaca e o elefante, com dietas similares, apresentam excremento sólidos de formato e volume tão distintos?



A seguir, serão fornecidas algumas pistas elucidativas, pelo reconhecimento aos esforços de centenas e centenas de pessoas que visitarão este blog na tentativa de decifrar o enigma, cujos comentários não serão divulgados aqui devido a problemas técnicos verificados na transmissão de dados da nave-mãe à nave-filha, que se encontradeslumbrada com as babaquices do Big Brother. Assim, as informações poderão ser repassadas ao Enviado, por mensagens através do Twitter, do Facebook, do Orkut, do Badoo, do MySpace, do Hi5, Windows Live, Netlog e outras tantas redes sociais:
Os Cavaleiros do Monty Python permanecerão dizendo Ni e pedindo um shrubbery na Amazônia. Pode parecer absurdamente nonsense esmolar um shrubbery numa floresta tão majestosa, mas da maneira como anda o desmatamento, nem o carrinho que anuncia “vendo arbustos” vai salvar a trupe dos míticos cavaleiros. E, ainda que este planeta se vá pelas mãos do homem ou pelas motoserras nas mãos do homem – os satélites e as ondas magnéticas das TVs a cabo ou não já providenciaram a disseminação eterna dos Nis pelo Cosmos. Os legendários Cavaleiros querendo ou não.

Quanto aos excrementos dos herbívoros ruminantes, é tudo muito óbvio e o quesito figurou aqui apenas para avançar com o discurso e atender às exigências da titular deste blog, que não permite posts sucintos: Ora, a aparência e o volume do produto final não estão diretamente atrelados ao tipo de matéria-prima que entra e sim aos meandros internos de circulação e às dimensões do espaço por onde sai. Assim sendo, está clara a razão pela qual um pobre cabrito não poderia defecar qual um cavalo. Por sua vez, o elefante, por motivos idênticos e dado o seu porte magnífico, se evacuasse tal qual um cabrito, seria ridicularizado na selva, e o leão do imposto de renda, um felídeo bastante feroz, impiedoso, e oportunista, o emboscaria e o comeria rapidinho, bem antes de a pequena empresa completar o seu primeiro ano de atividade, embora o rei barbudo da selva esteja pouco se lixando para isso. Certa vez, ao ser indagado por agentes de terno preto e óculos escuros sobre esta intrigante questão do formato dos sólidos escatológicos dos bichos herbívoros, ele, espantado, não deu explicações convincentes. Aí o bicho pegou. Os nativos correram pra cima dele com paus e pedras, tablets, ipods, ipeds  e smartphones. Como é que o rei da selva não sabia nada de absolutamente bosta nenhuma?
Mas águas passadas não movem moinhos, já diz o adágio. Portanto, não esqueçam de agir sem trapalhada, porque apelos ao estilo Tooter Turtle, “Mr. Wizard, me tire daqui”, não mais serão atendidos, porque já não haverá varinha de condão, o lagarto não possui mais poderes de teletransporte e nem poderá devolver o velho eu para quem por ventura se arrependa e queira ser feliz com o que era.

E nada de egoísmo. O que vale é a negação do indivíduo e a segurança da massa. Pelo fim da gripe suína que ninguém mais se lembra, pela melhoria do transporte  no Barsil todo e pelo fim da corrupção e da roubalheira dos nossos políticos. Abaixo a prostituição infantil descoberta pelo Fantástico, nas esquinas "Wells Lake" de Ponta Negra. Pelo fim do nitrito na água de Natal.
Abaixo o azu, viva o vermelho, pelo fim do domínio das máquinas, pela sobrevivência da espécie humana!

NOTAS
1. CPMF – A morta-viva. Seu fantasma ainda atormenta os cidadãos, ricos e pobres, desse Brasil brasileiro. Sua ressurreição pode ser iminente.
2. Hambúrguer – Um alimento para suínos e canídeos, composto por 43.569 ingredientes, dentre eles as partes asquerosas – estômago e afins – de animais domésticos.

Inês Mota



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