quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

El sueño

Imagen: El sueño, Salvador Dalí

Aquella mañana de domingo me desperté oyendo los mugidos insistentes de las vacas. Estaba un poco oscuro todavía y de pronto me di cuenta que no me encontraba en la cama. Había en el aire un fuerte olor que me provocaba una sensación desagradable en la cabeza y en el estomago. Me levanté y un rayo de sol se adentró por el techo, iluminando un poco el lugar. Sin duda yo había dormido en el establo. Cómo eso era posible? 

Empecé a caminar apoyándome en las paredes, pues todo el cuerpo me dolía. Miré alrededor y supe que algo muy extraño había ocurrido allí. La puerta del establo estaba rota y la comida de los animales desparramada sobre el suelo. En medio a una mancha de sangre oscuro yacían dos vacas y el perro labrador.

Salí corriendo hacia la casa de mi novia, entré por la puerta principal que estaba abierta y tenía los vidrios rotos, subí la escalera y entré en la habitación. La cama estaba deshecha y Ana no estaba. Fue entonces que la vi en la bañera, cuya agua estaba teñida a sangre. Sus ojos estaban abiertos y tenían una expresión de espanto. Me acerqué a ella y vi los profundos arañones en su rostro. Su cuerpo estaba destrozado como si hubiera sido atacado por un feroz animal. A su lado, igualmente muerto, estaba su perro Tarzan.

Desesperado, llamé a la policía. Expliqué que mi novia había sido asesinada y le di la dirección de la casa. Mientras intentaba calmarme, vi mi silueta en el espejo del baño. Me miré más de cerca y vi sangre en mi cara. Había más sangre en mi cuello, en mis brazos, en mi ropa, además de varios puñados de pelo negro y grueso por todo mi cuerpo. Las uñas, que antes las tenía cortas, eran ahora garras largas y puntiagudas. Nervioso, sonreí. Aquellos dientes no eran humanos. Yo no era humano...

Cuando me dispuse a bajar la escalera y huir lejos, sonó la campanilla. Por supuesto era la policía. El pavor me hizo tropezar y me caí en el salón. En este momento, me desperté. Delante de mí estaba mi madre que me preguntó si yo no había oído el timbre del despertador y si yo estaba bien. Me dijo que yo debería ducharme y enseguida tomar un buen desayuno, pues era necesario recomponerme. Ella había recibido una llamada que le informaba de la trágica muerte de Ana, mi novia.

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sábado, 26 de novembro de 2011

OuLiPo e a pesquisa sobre literatura potencial


 Oulipo e a pesquisa sobre literatura potencial
Ana alencar e Ana Lúcia Moraes*
  
Raymond Queneau já era um escritor consagrado quando decidiu escrever os Cent mille milliards de poèmes. Na época, encontrou um amigo matemático, François Le Lionnais, com quem comentou, segundo conta o próprio Queneau, que estava um pouco assustado com o imenso desafio que os poemas representavam – para se ter uma idéia, tratava-se de um sistema que explorava as possibilidades de combinação de dez sonetos cortados em quatorze pedaços cuja completa realização somente se tornou possível com o desenvolvimento posterior da informática. Desse encontro entre Queneau, escritor interessado em pesquisas matemáticas, e Le Lionnais, matemático interessado em literatura, surgiu a proposta de fundar o OULIPO.

Durante a realização de um encontro em Cerisy, em torno da obra de Queneau, sete escritores com preocupações semelhantes reuniram-se, programando a formação desse grupo dentro do já existente Collège de Pataphysique. Em 1960, ocorre a primeira reunião do Oulipo - Ouvroir de Littérature Potentielle (Oficina de Literatura Potencial).

Durante vários anos o grupo permaneceu desconhecido do grande público, mas continuou agregando vários colaboradores. Contamos entre seus membros vivos ou mortos, franceses ou estrangeiros: Jean Queval, Raymond Queneau, Jean Lescure, Hervé Le Tellier, François Le Lionnais, Jacques Duchateau, Claude Berge, Jacques Bens, Albert-Marie Schmidt, Noël Arnaud, Latis, André Blavier, Marcel Bénabou, Jacques Jouet, Georges Perec, Jacques Roubaud, Paul Founel, Italo Calvino, Harry Mathews, Paul Braffort, Luc Etienne, Ross Chambers, Stanley Chapman e Michèle Métail.

A partir de 1965, uma série de livros e artigos dos autores oulipianos foi publicada, tornando a iniciativa do grupo extremamente famosa na França, onde tem muitos seguidores até hoje.

Tipos de textos oulipianos

Todo discurso implica, necessariamente, em restrições que ordenam sua legibilidade dentro de universos já existentes (a gramática, o vocabulário, a sociedade, a cultura....). Essas contraintes discursivas, que participam de uma necessidade conversacional, praticamente se opõem às contraintes scripturales, restrições que são fruto de uma escolha voluntária que um autor se impõe deliberadamente na produção de seus textos.

OULIPO, desfazendo a idéia de que a literatura é a arte do único e do inimitável, explora o potencial teórico, ao mesmo tempo em que obviamente poético ou criativo, de uma lógica da repetição e da imitação. Escrever é imitar, repetir, traduzir. Os autores oulipianos produzem quatro tipos de textos: textos que utilizam estruturas já existentes, textos produzidos a partir da aplicação de restrições (contraintes) inventadas por eles, exercícios de estilo (pastiches) e textos de literatura combinatória.

Os oulipianos recuperam algumas estruturas, regras ou restrições como o lipograma, o anagrama, o palíndromo ou o tautograma. Essa prática da escrita sob restrição (écriture à contraintes) que remonta à Antigüidade é reutilizada, por Georges Perec, por exemplo, para escrever um lipograma, intitulado “La Disparition”, no qual não se encontra a letra e.

Mas o exemplo mais famoso de texto escrito sob restrição produzido por um autor oulipiano é, sem dúvida, o romance La vie mode d’emploi, do mesmo Georges Perec, editado pela Hachette em 1978 (já traduzido em português e editado no Brasil pela Companhia das Letras). Perec usa uma série de restrições matemáticas e outras regras extremamente complexas para elaborar o romance que conta a vida dos habitantes de um edifício. O texto pode ser lido, sem que por isso seu sentido seja afetado, por qualquer leitor mesmo que este desconheça as regras que presidiram sua escrita.

O fato de Perec ter misturado algumas regras já existentes, pelo menos como regras matemáticas, com outras que ele inventou, só vem confirmar que muito embora os oulipianos prestem homenagem aos que eles chamam de seus “plagiadores por antecipação”, querem principalmente definir e inventar novas formas de utilização de estruturas e restrições.

Exercícios de Estilo, além de ser o título de um dos livros de Raymond Queneau, é igualmente o nome de uma prática textual oulipiana que questiona a máxima “o estilo é o homem”. A proposta é imitar estilos que se proliferam quase ao infinito, criando textos através de variações em torno de um tema simples.

A expressão “literatura combinatória” aparece em 1961, usada por François Le Lionnais, no seu posfácio ao Cent mille milliards de poèmes. Queneau, provavelmente o autor oulipiano que mais explorou esse tipo de exercício, produziu, além de poemas, algumas narrativas combinatórias. Seu texto Un conte à votre façon tornou-se o primeiro texto assistido por computador, garantindo a Queneau o lugar de precursor da literatura informatizada.

A maior parte das pesquisas do Oulipo têm sido, atualmente, continuadas por oulipianos que se dedicam à informática. Marcel Bénabou, Jacques Roubaud e Pierre Lusson definiram procedimentos algorítmicos para a criação de textos segundo certas “restrições” que foram em seguida informatizadas. Em 1981, Jacques Roubaud e Paul Braffort propuseram a criação de um novo grupo que viria a se consagrar unicamente à literatura e à informática, o ALAMO – Atelier de Littérature Assistée par la Mathématique et les Ordinateurs (Oficina de Literatura Assistida pela Matemática e pelos Computadores) que reuniu escritores, professores, lingüistas, pesquisadores de inteligência artificial e pedagogos. Tanto os resultados das pesquisas do Oulipo, quanto os das pesquisas do Alamo podem ser facilmente encontrados na Internet.

Embora não se tenha uma vasta bibliografia em português sobre os trabalhos do Oulipo, existem alguns livros de Georges Perec e Raymond Queneau editados no Brasil: QUENEAU, Raymond, Exercícios de Estilo, Imago, 1995 e Zazie no Metrô, Rocco, 1995; PEREC, Georges, A Vida Modo de Usar, Cia das Letras e W, ou a Memória da Infância, Cia das Letras. Também se encontram vários livros de Ítalo Calvino em português.

Para os que lêem em francês, os fascículos da Bibliothèque Oulipienne foram editados em 3 volumes pela editora Seghers em1990.


* ANA ALENCAR é professora de Teoria Literária na UFRJ e tradutora. ANA LÚCIA MORAES é pesquisadora e doutora em Literatura pela Université Stendhal – Grenoble III. Em dezembro editarão um número da Revista Terceira Margem, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ, dedicado às oficinas de escrita criadas a partir das propostas do Oulipo.


 Extraído da Revista  Confraria - Arte e Literatura


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sábado, 19 de novembro de 2011

Outros Crimes Exemplares (I.M.)



(Imagem da Internet. Desconheço autoria)
Então.
Essa é uma história antiga. Quer dizer, é mais ou menos antiga. Tem uns quarenta anos, por aí. Começa com Seu  Benedito Romão.
O Seu Benedito era um comerciante dono de uma bodega muito sortida na Rua Antônio Garcia, que morava com sua mãe numa casa em frente ao campo de futebol “José Avelino da Silva”, no bairro Paraíba, em Caicó. Era um senhor rechonchudo e simpático que costumava assobiar em meio ao seu ofício de vendedor. Gostava de uma roupa cáqui, as calças altas presas por um cinturão de couro marrom e um chapéu de feltro cinza. Tinha um jeito todo especial de embalar as coisas que vendia no seu estabelecimento. Por exemplo, ao embrulhar as bolachas secas,  pegava uma folha de papel pardo, rasgava com uma régua de madeira, colocava-a sobre os pratos dourados da balança e, com uma caneca de zinco de ponta triangular, ia trazendo a massa aos pouquinhos, para que não ultrapassasse uma quarta – a clientela não comprava de meio ou de um quilo –, juntava o embrulho e ia torcendo o papel para produzir o fechamento, que ficava parecendo uma trança de cabelo como a que  mãe fazia em mim.
Será que é necessário explicar a vocês o que é uma quarta de bolacha ou algo sobre a tal caneca de zinco? Melhor não. É preferível continuar com a história, porque essas digressões podem esticar demais  as coisas e  comprometer o relato, não é mesmo?
Antes eu preciso esclarecer que, pelo que sei, Seu Benedito, além da labuta semanal na bodega, aos sábados e aos domingos trabalhava vendendo seus produtos num ponto no Mercado Público, justo ao lado de onde ficava o sebo de livros do Erivaldo Martins. Num desses dias de pouco movimento, ele, que nem era muito chegado a livro, decidiu sair e comprar um exemplar que lhe pareceu interessante. No fim da tarde, já em casa, sentou-se na sua espreguiçadeira e começou a leitura, enquanto sua esposa lhe trazia uma taça de vinho tinto e uma porção  de queijo.
Tratava-se de um livro de contos intitulado Outros Crimes Exemplares. A primeira história se chamava “Cada um tem a Pasárgada que merece”. Eu até poderia relatar sumariamente a intriga, tal como me passaram, mas como tenho um volume da obra em casa, vou expor a coisa tim tim por tim tim:

“Estou pensando em ir embora, quero voltar para o meu torrão...”
Dia e noite era essa cantilena do meu marido Cazuzinha queixando-se que sentia saudades da sua terra, uma cidade praieira na grande Recife. Amiúde, tinha uns banzos medonhos relembrando dos amigos, das aventuras e bebedeiras, dos banhos de rio e de mar e das pescarias, dos sons da cidade, dos maracatus e dos frevos.
Sentia saudades de andar de bicicleta, dos dias ensolarados, das serestas na lua cheia, de montar em burro brabo, da festa do Bom Jesus dos Navegantes, da comida caseira e das histórias que a sua mãe contava. 
Era um homem jovem e saudável e teria vivido muito, não fosse a estupidez de incluir no rol dos saudosismos a primeira e inesquecível namorada e as memoráveis farras com as meretrizes da cidade. Isso eu não suportei. Cheguei aos limites da tolerância. Qualquer uma no meu lugar faria o mesmo.
O vinho que preparei para ele naquele domingo de Páscoa potencializou o efeito do veneno e tudo não rendeu cinco minutos. Agora, ele escuta o som do silêncio e os carpidos de sua mãe, Dona Bia de Seu Cazuza. Justa que sou, permiti que fosse enterrado onde queria estar vivo. Cada um tem a pasárgada que merece.

É verdade que Seu Benedito ficou um pouco chocado com tal desfecho e com a patente frieza da personagem, mas talvez esse fato o tenha motivado ainda mais a retomar empolgado a leitura do segundo conto, “O triste fim de Inácio Moura”, que diz o seguinte:

Durante o velório do meu marido, encarei como uma estranha coincidência o reencontro com o Inácio Moura, um velho conhecido que havia se graduado em Natal e retornara à terrinha para ministrar aulas na universidade local. O acaso nos aproximou e, diante da indignação de minha ex-sogra e praticamente da cidade inteira, casei-me com ele três meses depois, numa cerimônia simples no Fórum Municipal, estabelecendo-me de vez  no estado pernambucano. 
Inácio era um escritor renomado e dentre suas obras figura a famosa tese de mestrado denominada A Última Versão do Seridó, dedicada a mim e aos dois filhos que tive com o meu primeiro marido. Entretanto, o mais importante trabalho literário produzido por ele foi um livro que traz o título Outros Crimes Exemplares, motivo de orgulho para ele – e  para mim, já que lhe dei a ideia de produzir contos cujos enredos girassem em torno de assassinatos cometidos por motivos fúteis. A obra foi lançada  com  sucesso em  várias cidades país afora, em meio a muitas críticas positivas nas rodas de conversas  literárias.
Ele produziu mais algumas obras importantes, inclusive a sua tese de doutorado, Cabedais Rústicos: Patrimônio Familiar no Sertão Potiguar, de cujo lançamento, celebrado na Casa da Cultura de Caicó, a contragosto, participei. O livro agora trazia uma dedicatória pomposa, não mais a mim, mas a sua orientadora de nome afrancesado, Sophie Cavagnac. E eu pergunto: é justo isso? Que ser humano poderia suportar tamanho despautério? Nós brindamos ao seu sucesso, mas aquele foi o último champagne que ele saboreou na vida. Reconheço, entretanto, a minha falha quanto à dosagem de veneno, o que lhe provocou um fim lento e doloroso. E disso eu sinto remorso. Afinal, ele era um bom homem e merecia uma morte  abreviada.
Sua última obra, um livro de poesias chamado Átomo Primordial: Poesias de I.M., foi publicada postumamente, em meio a grande clamor, dali a dois meses.

Nesse momento, Seu Benedito, indignado, não sabia se continuava a ler os demais contos ou se parava por ali mesmo. Olhou de relance para a esposa, que na cozinha preparava uns docinhos de festa e  pensou que não custava nada ver até onde ia a ousadia do autor, qual absurdo viria pela frente e assim passou ao terceiro conto, intitulado  “Festim Maldito” :

Apesar dos reveses pelos quais por vezes temos que passar, a vida continua e a solidão, dizem, não é algo para ser cultivado. Depois de alguns meses sozinha após a morte do meu marido, recentemente, durante a Festa de Sant'Ana, conheci um comerciante e nos apaixonamos. Mudei-me definitivamente para Caicó, casamo-nos e agora tenho uma vida feliz e harmoniosa, não fossem alguns hábitos irritantes que ele insiste em cultivar, como usar um chapéu démodé de feltro cinza, trabalhar sem descanso nos fins de semana e fazer visitas ao “Abrigo dos Velhos” toda sexta-feira, impreterivelmente...

Sonolento, Seu Benedito fechou o livro sem terminar a leitura. Sua mulher já o chamava para que se recolhessem. Era tarde e ambos tinham muitos afazeres impontantes no dia seguinte.
E é como eu estava dizendo, esses fatos são antigos mesmo e acho que me foram contados por minha mãe, que esmiuçou a vida toda de Seu Benedito. Não esqueceu sequer de mencionar que o queijo que acompanhava o vinho chileno naquela remota tarde de domingo era de manteiga e derretido. Um detalhe até prescindível, porque em Caicó praticamente só se come esse queijo e sempre dessa forma.
Falou das circunstâncias em que ocorreu a morte do Seu Benedito, um rapaz velho que, como eu já citei antes, tinha uma bodega na tal rua, que se vestia assim, assim, que vivia com a velha mãe, Dona Isabel, até que conheceu uma mulher das bandas do Pernambuco, com dois filhos barbados a tiracolo, se enrabichou por ela e se casou, a despeito dos conselhos da família. 
Ah, sobre a morte, consta que ele, durante um brinde na festa de suas Bodas de Papel, sofreu um ataque cardíaco fulminante e caiu mortinho. Nesse tempo se morria e pronto, estava acabado. Ninguém nem investigava o motivo real. A viúva, que não era mais viúva quando eu conheci esta história, tomou conta da bodega e nem chegou a aprender a embrulhar bolacha do jeito do Seu Benedito, por causa do advento da sacola plástica disseminada mundo afora. 
Foi o que mãe me contou. Como ela conhecia tantos detalhes? Ora, e eu lá vou saber? Nunca perguntei. O que eu sei é que ela sabia. Sabia e tá acabado.
Mas vejam só,  às vezes as coisas se embaralham um pouco na minha cabeça. Eu posso até admitir equívocos quanto à procedência dessa história. Teria eu escutado mesmo da minha mãe? Sei lá, talvez eu até tenha sonhado, porque eu também sonho. Ou, quem sabe, sejam resquícios guardados de umas conversas com minha amiga Agnes, que costuma ler Max Aub, Cortázar, Clarice, Borges e mais um montão de gente que tem o costume de escrever coisas assim,  esquisitas.
E é só. Acabo aqui, porque  já estou ficando muito enjoada dessa história.

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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Matrix. Realidade, ilusão, ciência – Reloaded



Meu nome é Morpheus. Alguns insistem em fazer analogias associando meu nome à figura do pregador João Batista, mas isso não tem o menor fundamento, acreditem. A nave na qual viajo se chama Nabucodonosor, porque certa vez sonhei com a destruição de Jerusalém, embora até hoje não saiba o que isso quer dizer. O onirismo às vezes nos prega dessas peças.
Venho em missão secreta, do centro quente da terra de Sião, a última cidade dos seres livres. Sou o visionário que lutará para libertar a humanidade do domínio das máquinas. Embora plasmado em imagem masculina, advirto que sou mulher mesmo e só usei a indumentária na película porque estava vindo de uma dessas modernas e ridículas festas temáticas para adultos.
Metaforicamente sou o componente yang da psique… putz, yin, deixa de novela e segura a droga desse microfone!… Continuando, sinto informar que não surtiu o efeito esperado tapar o sol com a peneira. Vocês esqueceram a velha máxima? Por que os algozes usariam a energia solar se podiam recorrer à fonte dos próprios humanos, mais abundante e barata?
Repudio a ideia de ver vossas mentes conectadas em Realidade Virtual e abomino esses campos de cultivo, em que casulos aprisionam vossos corpos para alimentar as insaciáveis máquinas. Gostaria que soubessem o quão lamento vê-los manipulados, customizados no brechó da esquina e deslumbrados com as reprises das novelas globais “O Clone”e “Ti Ti Ti”.
Agora, as máquinas evoluídas pela AI reinam absolutas sob o comando do Agente Smith, especialmente programado para manter a ordem dentro do sistema e pronto para fazer uma faxina e exterminar humanos e programas instáveis na realidade simulada. Elas querem vossas energias, vossos votos para reeleger Dilma daqui a quatro anos, vossos incondicionais apoios à CPMFs (1), vossas certidões de idade, vossos cartões de crédito, vossas mãos em casamento e muito mais. Por isso, insisto, está na hora de fugir da caverna do senso comum e superar a ignorância rumo à filosofia. As dúvidas de como vencer essa árdua jornada poderão ser encaminhas ao site do Platão, aberto 24 horas por dias, inclusive nos fins de semana.
Insito, nem tudo está perdido, pois vislumbro um ser dentre vós, o Escolhido, capaz de controlar e derrotar os mecanismos antivírus da poderosa Matrix. Seria Anderson, o filho de André, o Hacker filho do homem, o ego psicologicamente representado, o neo Neo com excelentes e comprovados reflexos para apanhar sabonete no banheiro e messianicamente ressuscitado na sala 303 após beijo caloroso de Trinity?
Para verificar a identidade do Escolhido é preciso consultar o Oráculo – uma senhora casada com um carpinteiro de nome José – que sabiamente assertou “A nossa escolha é a repetição das nossas escolhas”. Por vezes ela aparece disfarçada de vendedora de hambúrguer(2) no McDonald’s e pode-se identificá-la facilmente pela canção “I’m Beginning to See the Light” (‘Estou Começando a Ver a Luz’), de Duke Ellington, que ela costuma entoar ouvindo o seu radinho de pilha ABC. Mas todo Oráculo que se preza tem a proteção do seu Cérbero de guarda ou espírito superior e assim Neo será testado e enfrentado por Seraph antes de este o conduzir até ela.  E não se enganem. Pode ser um contrassenso, mas Neo estaria perdido sem esse amparo, ainda que o Oráculo não forneça respostas, só escolhas. Eu mesmo, Morpheus, quando Neo decidir  ingerir a pílula vermelha que o deixará na maior lombra à la “Lucy in the Sky with Diamonds”, o alertarei: “ Esse home precisa entender que estou tentando libertar sua mente. Mas eu só posso mostrar a porta. E esse home é que tem que decidir se quer atravessá-la ou não.” Basta ver que o Kafka já sabia sobre o poder das escolhas, do livre-arbítrio, tanto que a porta da justiça permaneceu fechada diante do homem que não ousou enfrentar as adversidades que o adentrar reservava. E sabe-se que a passagem estava ali exclusivamente para ele.
E tem mais. Toda cautela é pouca com Cypher. Ainda que seu nome lembre Lúcifer – ele está mais pra Judas do que para anjo caído. É a encarnação do mal, a traição, o retrocesso total do eu e defende a ilusão como mais interessante do que a realidade ou “olhos que não veem, coração que não sente”. Costuma recorrer a citações do Mecanismo de Defesa do Ego (MDE), sem os devidos créditos e sem pagar pelos direitos autorais.
Por outro lado, Trinity, o aspecto yin da psique, pode ajudar muito. A não ser que yang, por sua personalidade possessiva e ciumenta, não o permita. Trinity é o apoio físico e espiritual ao Escolhido, a trindade que se resume em 4: pai, filho, espírito santo e assim seja. Recomendo tratá-la com o maior recato e prudência. Chamá-la inadvertidamente de Madalena seria um erro crasso que a deixaria puta para o resto da vida.



Assim, o Escolhido deverá seguir os coelhos brancos mutantes que aterrorizam rancheiros do Arizona, além de dominar o conhecimento sobre o alfabeto japonês ao contrário, a fim de desvendar os seguintes enigmas:
Por que aqueles Cavaleiros continuam dizendo “Niilismo”?
Por que Lula deixou de usar o famigerado “Companheiros”?
Por que a Capitania Hereditária do Maranhão não foi extinta junto com os dinossauros?
Por que herbívoros como a cabra, o cavalo, a vaca e o elefante, com dietas similares, apresentam excremento sólidos de formato e volume tão distintos?


A seguir, serão fornecidas algumas pistas elucidativas, pelo reconhecimento aos esforços de centenas e centenas de pessoas que visitarão este blog na tentativa de decifrar o enigmático enigma, e cujos comentários não serão verbalizados aqui devido a problemas técnicos verificados na transmissão de dados da nave-mãe à nave-filha, que se encontrará deslumbrada com as babaquices do Big Brother. Assim, as informações poderão ser repassadas ao Enviado, por mensagens através do Twitter, do Facebook, do Orkut, do Badoo, do MySpace, do Hi5, Windows Live, Netlog e outras tantas redes sociais:
Os Cavaleiros do Monty Python permanecerão dizendo Ni e pedindo um shrubbery na Amazônia. Pode parecer absurdamente nonsense esmolar um shrubbery numa floresta tão majestosa, mas da maneira como anda o desmatamento, nem o carrinho que anuncia “vendo arbustos” vai salvar a trupe dos míticos cavaleiros. E, ainda que este planeta se vá pelas mãos do homem ou pelas motoserras nas mãos do homem – os satélites e as ondas magnéticas das TVs a cabo ou não já providenciaram a disseminação eterna dos Nis pelo Cosmos. Os legendários Cavaleiros querendo ou não.
Quanto aos excrementos dos herbívoros ruminantes, é tudo muito óbvio e o quesito figurou aqui apenas para avançar com o discurso e atender às exigências tirânicas do 1º titular deste blog, que não permite posts sucintos. Ora, a aparência e o volume do produto final não estão diretamente atrelados ao tipo de matéria-prima que entra e sim aos meandros internos de circulação e às dimensões do espaço por onde sai. Assim sendo, está clara a razão pela qual um pobre cabrito não poderia defecar qual um cavalo. Por sua vez, o elefante, por motivos idênticos e dado o seu porte magnífico, se evacuasse tal qual um cabrito, seria ridicularizado na selva, e o leão do imposto de renda, um felídeo bastante feroz, impiedoso, e oportunista, o emboscaria e o comeria rapidinho, bem antes de a pequena empresa completar o seu primeiro ano de atividade, embora o rei barbudo da selva esteja pouco se lixando para isso. Certa vez, ao ser indagado por agentes de terno preto e óculos escuros sobre esta intrigante questão do formato dos sólidos escatológicos dos bichos herbívoros, ele, espantado, não deu explicações convincentes. Aí o bicho pegou. Os nativos correram pra cima dele com paus e pedras, tablets, ipods, ipeds  e smartphones. Como é que o rei da selva não sabia nada de absolutamente bosta nenhuma?
Mas águas passadas não movem moinhos, já diz o adágio. Portanto, não esqueçam de agir sem trapalhada, porque apelos ao estilo Tooter Turtle, “Mr. Wizard, me tire daqui”, não mais serão atendidos, porque já não haverá varinha de condão, o lagarto não possui mais poderes de teletransporte e nem poderá devolver o velho eu para quem por ventura se arrependa e queira ser feliz com o que era.
E nada de egoísmo. O que vale é a negação do indivíduo e a segurança da massa. Pelo fim da gripe suína que ninguém mais se lembra, pela melhoria do transporte público e pelo fim dos buracos nas ruas de Natal. Abaixo a prostituição infantil recém-descoberta pelo Fantástico, nas esquinas "Wells Lake" de Ponta Negra. Abaixo o modismo, o axé music e o forró de Fortaleza, o apego meterial, as ilusões e os vícios da vida. Abaixo o verde, viva o azul. Pelo fim do domínio das máquinas, pela sobrevivência da espécie humana!

NOTAS
1. CPMF – A morta-viva. Seu fantasma ainda atormenta os cidadãos, ricos e pobres, desse Brasil brasileiro. Sua ressurreição pode ser iminente.
2. Hambúrguer – Um alimento para suínos e canídeos, composto por 43.569 ingredientes, dentre eles as partes asquerosas – estômago e afins – de animais domésticos.



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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

OuLiPo - Brincando com as palavras ou meus primeiros exercícios de Oficina de Linguagem

(Imagem da Internet. Desconheço autor)


OFICINA DE LINGUAGEM, UFRN. Professora Ana Lúcia Moraes, 2011.

Neste exercício, devo criar textos. A restrição é quanto ao uso apenas das palavras destacadas.

Tentei criar uma história, sob a prescrição de incluir apenas umas certas 10 palavras. Imaginei um personagem e o chamei de Júlio. Em seguida o qualifiquei como um rico traficante de drogas carioca que há dois meses havia escapado de uma PRISÃO de segurança máxima, ao FLUTUAR preso a cabos que pendiam de um helicóptero em meio a saraivadas de tiros e espessa FUMAÇA. Numa manhã de domingo, ao passear pelo calçadão de Copacabana disfarçado de TRAVESTI, o nosso herói deparou-se com um ESCANDINAVO que levava seu cão, SATURNO, a passear. Como preciso sumarizar essa história, pois só disponho de dez linhas para contá-la, relato aos leitores que os dois personagens se apaixonaram e vivem muito felizes numa luxuosa CASA (leia-se mansão) em Niterói. Eu, da minha parte, encontro-me ESTATELADO numa poltrona, tentando encaixar no enredo a palavra que falta: CORRER. O jeito é correr e apelar mais uma vez ao BICO da pena e reescrever tudo de novo.

Sou um famoso TRAVESTI ESCANDINAVO. Encontro-me em minha CASA polindo distraidamente um par de botas pretas que usarei no desfile da Guarda Real nas festas de final de ano. Neste momento, pela janela vislumbro um objeto não identificado a FLUTUAR, adentrar em meio à FUMAÇA pela minha chaminé e cair ESTATELADO no chão da cozinha. 
Minha primeira reação foi CORRER para averiguar do que se tratava. A segunda, foi tentar entender as circunstâncias da aterrissagem. O que soube acerca do humanoide (era um humanoide) antes que este desse seu último suspiro foi quase nada: “Eu, após desvencilhar-me das armadilhas dos malditos anéis, escapei milagrosamente de uma PRISÃO no meu planeta SATURNO. Vaguei no espaço por mil anos-luz e...” . Sobre o delito que o levou ao cárcere, só pude captar uma vaga menção ao BICO do peito de uma bela marciana.

Eu sou João. Aquela é Maria, minha irmã gêmea. Somos filhos de um rei ESCANDINAVO chamado Cronos, ou SATURNO. Ficamos órfãos de mãe ao nascermos e temos doze anos. Maria cansou dos assédios do nosso pai e fugimos para o bosque. A FUMAÇA de uma chaminé nos chamou a atenção e começamos a CORRER até uma pequena CASA que parecia FLUTUAR em meio à floresta.
Eu sou Gregorius. Meu pai morreu de remorso por haver engravidado sua irmã. Eu fui criado por um TRAVESTI havaiano, que me encontrou boiando num barril. Fiz muito BICO para sobreviver e aos 17 anos fugi daquela PRISÃO. Perambulei em busca de minha mãe e desisti ao encontrar o reino de uma bela e madura mulher. Nos casamos e tivemos duas lindas filhas. Hoje, ESTATELADO na minha cadeira de papa, acabei com a maldição incestuosa. Recebo à distância as bençãos de minha velha mãe Maria e abençoo minhas duas filhas como se fossem minhas sobrinhas.


Esse exercício, consiste em formar um Tautograma e um Anagrama com as palavras  JABUTICABAL  e ESTRANGULAMENTO.


Meu exercício de Tautograma utilizando apenas as letras (com repetições sonoras) da palavra, JABUTICABAL:


A jabuti babaca catuca a bila, a bala, a tuba. 'Bica' a titica, a jaca, a jia, a bacia, a tia Bia.
A Lucila atua, ataca. Taca a tábua, a lata. Acaba a luta: jaula, já!


Exercício de Anagrama com a palavra ESTRANGULAMENTO.
Um terremoto em Roma no mês de maio matou o genro de Artur Garmett. Ele morreu sem glamour e sem ar, num 'trono' no Resort 'Lara'. Restou somente numa mão uma ostra sem sal e um gorro, um regalo, na outra.
Nesse momento, Artur nem gelou nem amarelou. Sem realmente amar o traste, até gostou! o gasto em 'ouro' era menor agora, arre !


Acrósticos (gosto e desgosto)


Movo as páginas deste velho livro
Ante meus olhos surge ela, a feiticeira
Capitu, dissimulada ressaca
Há muito e por tantos condenada
Ante vários tribunais absolvida
Dúvidas, para que te quero?
O Bentinho que se vire!


Poupem-me por favor desse sujeito
A ler um livro seu eu me recuso
Ulula o obvio:
Lá no bolso traseiro ele conduz
O pé do animalzinho branco


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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Transição


Foto: Inês Mota
Uma menina. Uma manhã de domingo.
Na casa do Padrinho Amor, onde tudo é livre e permitido, derrama os esmaltes de Rita, mexe o enorme tacho de sabão de potassa, solta as cabras do curral, cata os ovos da galinha e quebra as panelas do Tio Chico.
Embrenha-se nos mufumbos encantada com as cores dos pavões, apanha as frutas verdes e oleosas da oiticica e faz músicas com os chocalhinhos do gergelim. 
Espanta os porcos com uma vara de marmeleiro, colhe os trapiás e os melões-caetanos que pendem como brincos de ouro das latadas na cerca entre os pereiros.
Trepa-se no pilão da cozinha para ver os ovos no ninho de rouxinóis. Penteia os cabelos de Júlia, a boneca de pano, dá banho no gato amarelo do Janúncio e come tripa de carneiro assada na brasa.
Embriaga-se fumando o cachimbo da tia Maria e cheira o barro molhado da parede  para curar-se. Embriagada, adormece na grama macia às margens do riacho do Vô Joca.
E sonha. Aos sete anos,  ainda sonha.
Desperta e já é adulta.


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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Memórias de quando fui neta

(Imagem: Salvador Dalí)

Aos 7 anos, eu não compreendia porque o avô de uma colega tinha apenas uma esposa e achava o fato  estranhíssimo. O que? só uma? Pois o meu avô tem duas! Também achava estranho se todos os avôs não soubessem fazer tudo o que o meu sabia. Como? Ele não sabe confeccionar selas e gibão de couro, construir casas, cercas e currais, plantar uma roça de milho e feijão, escavar poços, fazer vaca parir, arrancar tatu do buraco, curar bicheiras dos cavalos, matar cobra venenosa, abater bois e carneiros e preparar a carne para  vender na feira?
O meu avó materno era João que como todos Joãos virou Joca, um senhor franzino e calvo, de jeito tranquilo, de fala mansa que nos encarava sempre de frente, cabeça erguida, olhos semicerrados como se estivesse escaneando nossa alma e imprimindo nosso pensamento. Se precisasse era brabo que nem siri em lata.
Quando chegávamos de férias à sua casa era festa e liberdade total! A casa era de fato pequena, mas me parecia enorme, com suas paredes sem reboco cheias de frestas de onde eu retirava os "barbeiros" para brincar de fazenda. O piso vermelho de tijolos lisos e gastos, era frio e nos servia de cama depois do almoço.
Éramos recebidos por suas duas esposas. Uma de direito, as duas de fato. Nenhuma era minha avó de sangue, já que sua primeira mulher havia morrido de parto quando minha mãe tinha pouco mais de um ano. As duas compartilhavam o mesmo teto de forma harmoniosa e a divisão de tarefas parecia ser de acordo com o nível cultural. Uma era instruída, falante, sabia ler, escrever e contar. Era vaidosa e gostava de viajar "ao Recife". Era minha madrinha e só eu tinha o privilégio de compratilhar os segredos e mistérios infindáveis de sua mala de madeira, grande e bonita que me embriagava com o cheiro de pó de arroz, perfumes, esmaltes e sabonetes.  A cada vez que era aberta, me fascinava, além de tudo, colada no interior da tampa, a figura de uma miss Brasil de maiô, faixa, cetro e coroa,  que vim a saber que era Ieda Maria vargas, miss Brasil e miss Mundo 1963, formando parelha com  outra de um senhor elegante que depois, soube tratar-se do Juscelino Kubitschek.
Ela organizava a casa, dava ordens e preparava os doces e compotas que eram aramazenados em recipientes de barro com pinturas vermelhas e guardadas num jirau, espécie de trançado de madeira que pendia do teto preso com cordas nas extremidades. A outra, não sabia nada das letras e não primava pelo asseio nem pela vaidade pessoais. Era calada e se limitava a preparar a comida do dia -a- dia, a pisar no pilão,  a moer milho,  efetuar a limpeza da casa e das roupas e cuidar dos bichos pequenos no quintal.
Sinestésica desde sempre, eu associava à primeira a lençol branco, ao cheiro bom do melão, ao mar do Recife que nunca vi, à liberdade, à vaidade e ao glamour. A segunda, sempre me lembrou uma enorme panela de feijoada com pé de porco fervendo no fogão de lenha, um pilão de arroz descascado, o acridoce da coalhada com cuscuz e rapadura e o odor de penas de galinha molhada.
Nas minhas incursões pelos reduzidos limites da propriedade eu explorava tudo, desde a casinha parede- meia - onde havia ferramentas, rações para o gado, arreios, cuias, montes de batatas e silos de zinco cheios de grãos (vedados com uma mistura de cera de abelhas e pó de tijolos,) as cacimbas, os currais e os bichos copulando, dando cria e leite. O riacho, pelo qual eu tinha certeza que se seguisse o leito  chegaria ao mar. Esse mar que de fato nunca explorei. Não por medo da viagem ou dúvida quanto à sua existência. O  que de fato me importava era peservar o mistério, pois o mar devia ser bonito demais e melhor do que vê-lo era imaginá-lo na sua imensidão azul.  Além disso, o riacho, perene, estaria sempre ali e era a via de acesso para a realização do sonho quando assim eu o desejase.
Aos 13 anos, já há algum tempo na cidade, tudo me parecia diferente. Os interesses eram outros e já não via tanta graça no sitio do meu avó. Aos poucos as coisas se esvaiam, mudando de cor e dimensão. O verde não era mais o verde que eu vira,  as chuvas com trovões reareavam, a água se acabava, aos poucos o riacho minguava, os bichos sumiam, os silos sempre pela metade, o cachorro sarnento e magro caducava num canto da casa, as pessoas, enfadonhas e taciturnas pareciam cansadas da vida. 
Um dia meu avô se foi e vi minha mãe com a sua dor calada, vestir preto fechado por um ano. Eu e minha irmã, usamos por seis meses -batendo e vestindo- duas mudas de roupa composta por uma saia preta e uma blusa preta de bolinhas brancas, que usei para encontrar meu primeiro namorado na sala do cine São Francisco em Caicó. Os meninos maiores, assim como o meu pai, usavam um "fumo" no bolso da camisa.
Depois disso, voltei poucas vezes ao sítio. As duas viúvas, eu já sabia, não conviviam tão bem assim e cada uma buscou seu rumo. A casa e tudo ao redor virou cinza, desolação e abandono. Só mais uma paisagem seca no sertão da Paraíba.
Apesar do gradativo distanciamento entre nós, senti muitas saudades do meu avó e por algum tempo o meu espírito infantil lembrava dele com um misto de tristeza, melancolia e rancor: Como ele podia ser tão ingrato , ter morrido assim sem mais nem menos e sem se despedir de mim?
Dele, herdei  o gosto  pela organização, pelas coisas simples e bem feitas, a teimosia e a resistência às adversidades e a capacidade de ser o que ele próprio se entitulava " pau pra toda obra", além do hábito de apreciar o sabor de uma pimenta malagueta braba, que vez ou outra me assanha a gastrite crônica e causa a insônia que me  convida a registrar essas memórias.

Ieda Maria Vargas
(Imagem do site http://jhomundomiss.blogspot.com/2010/09/miss-brasil-1963-so-para-lembrar.html)

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domingo, 24 de julho de 2011

Ítaca - Konstatínos Kaváfis

 (Imagem: Ulisses preso ao mastro, escuta o canto das sereias- Cerâmica grega)
Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem os Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não o levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti. 
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quando houver, de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos. 
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha, velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te. 
      Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. 
      Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, 
      e agora sabes o que significam Ítacas.



    Constantínos Kaváfis (1863-1933) 
    in: O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz. 
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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Poema de Cinza - À memória de Fernando Pessoa - Por Antonio Botto *

Imagem: Inês Mota

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrêlas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que êstes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença,
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns Senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,

As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma côr, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver 
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...

Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dêle,
Do camarada raro que lembramos, 
Fiquemos uns momentos a cantar! 


* Poema extraído do livro  "Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e Antonio Botto".
Em Novembro de 1935, quando Pessoa morreu, o trabalho não estava concluído.  Foi Botto quem o terminou, selecionando poemas de José Régio, Augusto Pinto, Francisco Bugalho, João de Barros, Alfredo Guisado, Vitorino Nemésio, Carlos Queiroz, Miguel Torga, um poema ortônimo de Fernando pessoa e dos heterônimos  Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Incluiu, por fim,  o  "Poema de Cinza" , em homenagem ao amigo.
Esta edição foi  composta e impressa para a Editora Nobel na Casa Minerva, Coimbra, em fevereiro de 1944. Eu a encontrei num sebo. É numerada e traz a rubrica de Antonio Botto.

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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Celacanto

(Imagem do site http://catalisando.com)


aondainvadiuapraia
aondaanvadiuapraia
aondaaovadiuapraia
aondaaonadiuapraia
aondaaonddiuapraia
aondaaondaiuapraia
aondaaondaauapraia
aondaaondaaoapraia
aondaaondaaonpraia
aondaaondaaondraia
aondaaondaaondaaia
aondaaondaaondaaia
aondaaondaaondaaoa
aondaaondaaondaaonda
aondaaondaaondaaonda
aondaaondaaondaaonda
aondaaondaaondaaonda


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domingo, 3 de julho de 2011

A Hercule Poirot

(Imagem da internet. Desconheço autoria)
cai

     o
       
        pa
        
              no
     
                    no no no!




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terça-feira, 21 de junho de 2011

Soneto branco ou Sinestesia desmetrificada


Sara é uma formiga amarela  e calipígia,
Catarina, a vagem seca de tamarindo,
Geraldo, uma garganta vermelha irritada
E Glória, um vidro de compota de goiaba.

Arroz deveria chamar-se  catapulta, 
Almôndega, o  banco de madeira da pracinha
Sorvete,  um livro com cheiro de azul royal,
Porque moela é  uma caixa guarda - jóias.

Camelo  é uma linha no azul do horizonte,
Tilacino, a máquina que derruba castanheiras,
Suricato, a  sovela rombuda do sapateiro
E urubu, um sapinho que foi para o céu.

Porque  estética é  um elástico que perdeu a força
E soneto,  um travesseiro de penas de Petrarca.


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domingo, 15 de maio de 2011

Liberdade

sick transit - José Paulo Paes
Celebridade
Eu sou o poeta mais importante da minha rua.
(Mesmo porque a minha rua é curta.)
José Paulo Paes

É domingo, mas não um domingo qualquer. É um desses raros dias em que me permito acordar tarde e fazer o desjejum às dez, protelar ou abolir o almoço, mudando a ordem normal das coisas.
Ontem, pelo interfone, me avisaram  que chegou um volume.
É um livro, eu sei.
Fico ansiosa, mas me contenho. Tudo tem sua hora. Indescritível é o prazer de postergar o encontro marcado com o  desejado.
Assim, saio da gaiola e vou até o parque do condomínio. Olho em volta e enxergo  o comum e o invísivel do cotidiano: a liberdade, o mato verde, o banco roído, as  gentes costumeiramente vistas com as retinas embaçadas pela  indiferença.
Ah, o livro...pego o embrulho e no hiato entre rasgar o pacote e vislumbar a obra,  me dou conta de  que já não serei a mesma depois desse ato.
Reluto. Chove. Era o que faltava.
E agora como velhinhos no parque, ponho meu agasalho, os óculos e assisto à chuva e ao meu êxtase quase infantil que o porteiro não compreende.
E eis que surge o poeta José Paulo Paes.
Muito prazer, poeta! Sinto só vir a conhecê-lo melhor agora.
É o volume Poesia completa da editora Companhia Das Letras. Agradou-me não ter a aparência de pão doce dos livros brilhosos, cheios de não me toque e nove-horas, cujo incômodo eu não sabia como expressar até ouvir a curiosa adjetivação de um dos meus professores.
Agora me despeço. Vou numa viagem. Sem volta.

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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Tres cuentos una película: La Lengua de las Mariposas *



(Imagen: de Internet)
(Relatório apresentando na disciplina "Leitura e Produção de Texto em Língua Espanhola I- UFRN).

La lengua de las mariposas, es una película del director español José Luis Cuerda y del guionista Rafael Azcona, adaptada a partir de tres cuentos del libro ¿Qué me quieres, amor? de Manuel Rivas: La lengua de las mariposas, Un saxo en la niebla y Carmiña. El cuento La lengua de las mariposas, que sirve de columna vertebral a la película, narra la relación de amistad que se desarrolla entre Moncho, un niño de seis años que ingresa a la escuela y su maestro, don Gregorio. El niño tiene mucho miedo de la escuela pues le han dicho que los profesores pegan. El primer día de clase es una desgracia para Moncho, que después de se orinar en los pantalones, huye al monte y sólo es encontrado ya alta noche, por el recogedor de basura.
Los hechos se desarrollan en un pueblo rural el año 1936, en la España inmediatamente anterior a la Guerra Civil, poco antes del golpe militar del general Franco que derrocaría la II República. El padre de Moncho es un sastre republicano, seguidor del presidente Azaña, pero la madre, es muy religiosa y no demuestra tanto interés por los asuntos políticos. A Moncho le gusta mucho el profesor y por él siente una gran admiración. El maestro es republicano, liberal y contrario a la interferencia de la iglesia en asuntos del Estado. A partir del según día de clases, cuando Moncho es muy bien recibido por su maestro y alumnos, empieza su iniciación a la vida, su aprendizaje, su conocimiento de las cosas de la naturaleza y de algunos valores a los cuales desconocía.
Don Gregorio es un hombre tranquilo que garantiza su credibilidad delante de sus alumnos a partir del conocimiento que posee, por la forma como él despierta el interés de sus alumnos por las ciencias naturales, y por cómo alimenta en ellos la curiosidad por la vida y por los descubrimientos científicos. Además, don Gregorio no pega, está case siempre sonriendo y trata muy bien a los niños.
Pero, la Guerra Civil estalla y los republicanos del pueblo son detenidos. La madre de Moncho, consciente del peligro que corre su familia, obliga a su marido a quemar todo lo que lo asocie a la República y sus ideales políticos. Cuando los prisioneros salen del Ayuntamiento y empiezan a entrar en el camión que los llevará al fusilamiento, la multitud grita insultos contra ellos, y la madre de Moncho pide a su marido que haga lo mismo. Entre los prisioneros se encuentra don Gregorio, y Moncho ve a su padre gritarles a los detenidos “¡Traidores, criminales, rojos!”. Cuando el camión arranca, Moncho corre detrás y tira piedras, mientras intenta mirar la cara del maestro y llamarlo de traidor y criminal, pero el convoy se va y él, de puños cerrados, sólo consigue murmurar algunas de las palabras que aprendió con el maestro: ¡ sapo! Tilonorrinco! ¡Iris!
El cuento Un saxo en la niebla narra la historia de un muchacho de quince años que empieza a tocar saxo en la Orquesta Azul, aunque no tenga mucha experiencia. Los hechos se dan en el año de 1949 . El protagonista tiene un maestro que le enseña a tocar y le aconseja que cuando toque el saxofón lo tome firme, pero con cariño, como si el instrumento fuera una chica.
Un día, la orquesta es invitada a presentarse en la ciudad de Santa Marta de Lombas, y allá, el chaval es recibido por Boal, el encargado de la organización de la fiesta. El hombre lo recibe en su casa, y allí el saxofonista conoce a una chica muda y muy joven que tiene los ojos rasgados tal cual la china que él acostumbraba mirar en la Enciclopedia escolar. Boal la trata muy mal, como a una criada y le pide que les traiga café. El saxofonista se queda enamorado de ella y mientras comen, Boal le narra la historia que cuando ella era muy niña fue llevada por un lobo que se la dejó cicatrices en la espalda, y que desde ese día la chica nunca más volvió a hablar.
El protagonista piensa que Boal es el padre de la chinita, pero de pronto descubre que el hombre es el esposo de la muchacha y se pone muy triste. Por la noche, durante el concierto de la Orquesta Azul, el protagonista ve entre el público a la chinita y empieza tocar el saxo como si fuera exclusivamente para ella, y su desempeño es tan bueno que los miembros de la orquesta lo felicitan. Mientras tanto Boal percibe la atracción que envuelve a su mujer y el músico, la toma por el brazo y la lleva a casa.

En el cuento Carmiña, vamos a conocer a Carmiña, una chica que que vive en un lugar llamado Seradón, con una tía misteriosa y enferma de la cual nada se sabe y nunca nadie se la ha visto por el pueblo.Carmiña tiene un amante, O'lis de Sésano, y un perro, Tarzan, al cual le gusta mucho y siempre empieza a ladrar y gruñir rabiosamente toda la vez ella va a su cabaña a tener relaciones con O'lis. O'lis se pone muy enojado con la situación, principalmente cuando se da cuenta de que la interferencia del perro deja aún más excitada a Carmiña, porque si el animal se aleja de ellos, ella se vuelve fría, distante, sin ningún interés sexual. A partir de ahí, O'lis, lleno de celos y rabia, planea la muerte del perro y en una noche, saca de una vara y se dirige a casa de su amante y mata a Tarzan.
El lenguaje literario, sin embargo, es distinto del lenguaje cinematográfico, aunque trate de la misma idea. Es que en las adaptaciones fílmicas, la literatura cambia de naturaleza, pues la palabra se convierte en otra cosa, la imagen, que en el caso de esta película, no confunde ni deforma, sino amplia el relato original de forma muy interesante y fiel a la obra de Manuel Rivas.
El director de la película, Jose Luis Cuerda, probablemente eligió los cuentos porque en estas narraciones son tratados temas comunes a los tres relatos, como el amor, y la libertad, principalmente en la Lengua de las mariposas, que es la columna vertebral de la película. Así, los otros dos fueron elegidos porque las dos historias tienen una simbología que intensifica el tema principal del filme, como la pérdida de las libertades individuales, la represión artística y al conocimiento científico, la intolerancia política y la llegada de la dictadura.
En el cuento la Lengua de las Mariposas, el tema principal gira alrededor de la amistad de un niño y su maestro y, así como ocurre en los demás cuentos, la política y sus implicaciones aparecen como plano secundario. Un Saxo en la niebla, trata de la música y del amor adolescente y entre otros temas secundarios, habla de la libertad- o de la ausencia de esta-, retratada en la chinita, que vive con un hombre mayor, y cuyas circunstancias del envolvimiento, nos remite a otros asuntos como la esclavitud y la pedofilia. En el relato de Carmiña, se percibe el tratamiento de un tema un poco distinto de los otros dos, el amor adulto y el sexo pervertido, un triangulo amoroso entre un hombre una chica y su perro.
En la película, me parece que hay una alteración en el tratamiento de los temas y la política pasa a ser el tema principal, aunque los demás tengan una gran importancia en el desarrollo del enredo. En la obra de Manuel Rivas, cada uno de los tres cuentos posee un narrador. La lengua de las Mariposas,  tiene como narrador, Moncho, quien, ya adulto, recuerda cómo fue su ingreso a la escuela, su amistada con don Gregorio y la tragedia que destrozó esa amistad. En Un saxo en la niebla el narrador y el protagonista, el saxofonista, son la misma persona. Ya en Carmiña el narrador del cuento es el tabernero, pero hay un otro narrador, O’Lis, que relata a aquél lo aconteció con Carmiña y con el perro de la chica, Tarzán.
Los hechos se desarrollan en la primera mitad de año 1936. La primera parte de la película se refiere a los meses de invierno (enero, febrero y marzo) terminando con la fiesta de carnaval. La segunda parte, en la primavera y el verano de 1936 (mayo, junio, julio, hasta el golpe militar, en 14 de julio).
Tanto en los cuentos como en la película la acción transcurre en un espacio rural, un pueblo gallego y sus alrededores: la casa de Moncho, la taberna, las calles, la escuela, el río, el monte, el bosque, las plazas y el pueblo. En un Saxo en la niebla, aparece otro escenario distinto, la ciudad de santa Marta de Lombas. La película, por lo tanto, refleja muy fielmente el escenario del mundo literario de Rivas.

Mientras en los cuentos hay cuatros narradores, en la película Moncho, que es el personaje que hace alcanzar la unidad narrativa ya que establece un hilo con todas las otras historias, se convierte en el protagonista principal y testigo de los otros dos otros relatos, de forma que la historia parece tratarse de una narrativa única y lineal, pues no se percibe estratos por los cuales fue tejida. Para insertar la historia del según cuento a La lengua de las Mariposas, en la película, el saxofonista de Un saxo en la niebla (que en el filme se llama Andrés), viene a ser el hermano mayor de Moncho. La inserción en este caso, ocurre en la primera escena, cuando Moncho, inquieto y insomne, a causa de su ida a la escuela al día siguiente, empieza a llamar a su hermano: Andrés, Andrés, para saber se el maestro pega y Andrés se despierta para intentar acalmar al niño. En el caso de la historia de Carmiña, la inserción se da cuando Moncho y su amigo Ramón van a la taberna y oyen un diálogo entre el tabernero y O'lis de Sésano, después siguen a este hacia la casa de Carmiña, dónde miran la pareja haciendo el amor.


Para leer más  haz click en el enlace abajo:
http://objetobscuro.blogspot.com/2011/07/tres-cuentos-una-pelicula-la-lengua-de.htm


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