sábado, 31 de outubro de 2009

Nem todo céu é de Brigadeiro

(imagem:Net-Kurosawa- Kagemusha)

Tudo passa lento e morno e a noite vai tingindo o dia como Kurosawa pinta seus filmes.
Sentada no banco do parque, conto os tijolos vermelhos da calçada e acompanho o movimento nervoso das formigas que carregam ovos de dinossauros na cabeça.
Um vento travesso rouba o chapéu do seu Zé e o deposita no galho seco do ficus.
Ficus!
-Benjamim, chame seu pai pra dentro!
-"Papaiii"..!
Uma folha fugida do outono passa rodopiando e se acomoda no vão dos meus dedos cochichando que não tem medo do verão porque sabe de Caicó.
O pardal belisca o pão do mendigo que costura os seus sonhos numa mochila de lona verde tecida no tear que pai comprou em São Paulo e queimado por descuido de Dimas.
Seu Nozinho contorna a calçada pela quarta vez, montando sua velha bicicleta preta e assobiando "Hey Jude" porque é impossível atravessar esse Saara sem Beatles.
Um cão espanta as moscas da pata ferida e me olha pedindo licença para se deitar e ser triste. Ele se deita e eu fico triste.
Ao longe uma tv brilha na voz de algodão doce do menino Bonner que lembra saudade, inverno e bolinho. De chuva.
Um relâmpago mostra um agora céu cinza.
Bem que mãe disse que ia chover!

Ines Mota


domingo, 25 de outubro de 2009

El otro yo - Mario Benedetti

(Imagem:desconheço autoria)

Se trataba de un muchacho corriente: en los pantalones se le formaban rodilleras, leía historietas, hacía ruido cuando comía, se metía los dedos a la nariz, roncaba en la siesta, se llamaba Armando. Corriente en todo menos en una cosa: tenía Otro Yo. El Otro Yo usaba cierta poesía en la mirada, se enamoraba de las actrices, mentía cautelosamente, se emocionaba en los atardeceres. Al muchacho le preocupaba mucho su Otro Yo y le hacía sentirse incómodo frente a sus amigos. Por otra parte el Otro Yo era melancólico, y debido a ello, Armando no podía ser tan vulgar como era su deseo.
Una tarde Armando llegó cansado del trabajo, se quitó los zapatos, movió lentamente los dedos de los pies y encendió la radio. En la radio estaba Mozart, pero el muchacho se durmió. Cuando despertó el Otro Yo lloraba con desconsuelo. En el primer momento, el muchacho no supo que hacer, pero después se rehízo e insultó concienzudamente al Otro Yo. Este no dijo nada, pero a la mañana siguiente se había suicidado.
Al principio la muerte del Otro Yo fue un rudo golpe para el pobre Armando, pero enseguida pensó que ahora sí podría ser enteramente vulgar. Ese pensamiento le reconfortó.
Sólo llevaba cinco días de luto cuando salió la calle con el propósito de lucir su nueva y completa vulgaridad. Desde lejos vio que se acercaban sus amigos. Eso le llenó de felicidad e inmediatamente estalló en risotadas. Sin embargo, cuando pasaron junto a él, ellos no notaron su presencia. Para peor de males, el muchacho alcanzó a escuchar que comentaban: «Pobre Armando, y pensar que parecía tan fuerte y saludable».
El muchacho no tuvo más remedio que dejar de reír y, al mismo tiempo, sintió a la altura del esternón un ahogo que se parecía bastante a la nostalgia. Pero no pudo sentir auténtica melancolía, porque toda la melancolía se la había llevado el Otro Yo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Morreu como um passarinho

(Imagem: Desconheço autoria)

Reconheço que fui negligente.
Porém, sempre pus à sua disposição os alimentos mais saudáveis.
Oferecia pedaços suculentos de manga, fatias de banana e melancia, rodelas de abacaxi, cubinhos de melão e mamão e saborosas uvas.
Tentei seduzi-lo com mingau de aveia, pão integral de 12 grãos, granola light com canela e mel, tofu e farelos de soja. Ele rechaçava tudo com o maior desprezo.
Então, deixei-o à vontade.
Irrompia como uma flecha pela minha janela e só tinha olhos mesmo para o gorduroso queijo de manteiga, a pamonha quentinha, o pudim de leite condensado e o arroz refogado que audaciosamente beliscava enquanto ainda estava cozinhando. Não dispensava a macarronada, a pizza e tampouco o guaraná, tudo furtado com a maior destreza.
Confesso que detestava quando ele comia o bolo de chocolate deixando a mesa repleta de farelos negros. Mas gostava dele.
Morreu como um passarinho. E gordo.
Quem mandou ser um pardal moderno?

Inês Mota

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Outros Crimes Exemplares - Cada um tem a Pasárgada que merece.

(Imagem:desconheço autoria)

Tô pensando em ir embora.
Dia e noite era essa cantilena, queixando-se que sentia saudades da sua terra, uma pequena cidade praieira nos cafundós do Ceará.
Amiúde tinha uns banzos medonhos relembrando dos amigos, das aventuras, dos banhos de rio e de mar e das pescarias, dos sons da cidade. De andar de bicicleta, dos dias ensolarados, das serestas em lua cheia. De montar um burro brabo, da festa do Bom Jesus, da comida caseira e das histórias de sua mãe.
Era um homem jovem e saudável e teria vivido muito não fosse a estupidez de incluir no rol dos saudosismos, a primeira namorada e as memoráveis farras com as meretrizes da cidade.
Agora, escuta o som do silêncio e os carpidos de sua mãe.
Justa que sou, permiti que fosse enterrado onde queria viver.
Cada um tem a pasárgada que merece.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Eu quero meu donnut!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Dessa água não beberei

(Imagem: Nordesterural.com.br/)

A viagem a casa de um amigo do meu pai, num sítio próximo a Jardim do Seridó, não correspondera extamente ao que eu ansiava daquelas férias escolares de julho do ano de 1968.
O primeiro epsódio que prenunciara uma estada desconfortável deu-se quando senti sede. Havia alguns potes de barro espalhados pela cozinha e optei por um pequeno próximo ao fogão. Ao encher a caneca animei-me com o líquido escuro, pensando tratar-se de suco de tamarindo. Adoro suco de tamarindo. Logo me daria conta que não se tratava do meu suco preferido, mas da água de beber. Desatenta, nem vira o pano que cobria o pote, onde se lia a frase "Água Bôa" em letras belamente desenhadas.
Relutante, bebi, suspeitando que o resultado seria o mesmo em qualquer opção entre os demais depóstios. Além disso, estava na casa alheia e não queria ser indiscreta.
Senti-me enjoada. Imaginava o bolo que se formaria no meu estômago e as mais variadas formas de objetos de argila que se iam moldadando dentro de mim.
No dia seguinte, ainda nauseada, saí curiosa para conhecer a fonte daquela água e aventurei-me no dorso de um jumento, que além de mim, - que por ser visita, dispunha do privilégio inusitado do transporte,-carregava dois enormes barris de madeira e arrastava-se com dificuldade por causa da velhice e por conta de uma ferida enorme na perna direita que sangrava e atraía uma legião de moscas e mosquitos.
O pobre animal adentrara até a borda da cacimba cavada no leito do rio e todos começaram a encher os barris com a água marrom coberta por uma grossa capa de ferrugem que brilhava aos raios do sol. Aquilo me pareceu repugnante, mas nada comparado ao que se seguia, já que o jumento decidira urinar ali mesmo.
Ninguém deu muita importância ao fato. Depois de uma rápida abanada; umas duas ou três cabaças de água jogadas fora, o trabalho fora concluido e regressamos a casa.
Depois disso, tudo que ingeri de líquido ali fora o leite de cabra, o qual eu destestava pelo seu forte cheiro mas era melhor do que xixi de jumento.
Dois dias depois, implorei ao meu surpreso pai, - que viera fazer uma contoria no Alto do Berra Bode,- que me levasse de volta para Caicó.
Não me lembro de outra ocasião na vida em que a minha humilde casa fora tão acolhedora e confortável.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Outros Crimes Exemplares - Remorso

(Imagem: Dalí)

Morreu precocemente aos 28 anos. E o que é pior: jamais saberia o que é colorau.
Eu não devia ter pedido para que ele fizesse aquele arroz refogado.
Mas não sou dessas que toleram perguntas imbecis e senti-me obrigada a servir-lhe uma salada de vegetais estragada.
Confesso que não foi uma boa ideia. O botulismo é terrível e o seu fim foi lento e doloroso. E disso eu sinto remorsos.
Afinal, ele merecia uma morte abreviada.

Inês Mota

Sem inspiração


Fui ali e volto já. Por favor não levem minha bicicleta.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Monologion Retro - Virgilio Brandão


(Imagem: Albert Watson)
Tenho fome do futuro,
ou será vontade de comer a planura?
Oh, dá-me, dá-me bruma à mesa,
areia cevada de rosas, tinto de oiro…
e salve a puta, salve a puta-alma das sevícias dos anjos!
— e, quando tudo for são e puro como eles
não te esqueças de embrutecer-me.

— Madre! — grita o pobre que não pode ser doutor.
— Ai que doce! — geme o rico brincando de ti.

Esqueci-me de alguma coisa, Deus?



domingo, 6 de setembro de 2009

Le Notti di Cabiria - TRAILER ORIGINAL

Obra prima de Frederico Fellini, estrelado por sua musa Giulietta Masina, eterna companheira. Na vida e no cinema.




Johnny Depp - Eu sou fã dele. O que é que tem?

(Carvão em papel canson por Ines Mota)
Enquanto Alice In Wonderland não vem!...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Outros Crimes Exemplares - O Símio


Comia bananas como um símio.
Pior que isso. Começava fazendo cinturas na fruta com mordidinhas de baixo pra cima, de cima para baixo. Parava um pouco e fitava-me franzindo o cenho e mostrando os dentes amarelos e corcomidos.
Enquanto roía a casca, soltava sons guturais como estertores de um moribundo.
Que ser humano pode suportar tamanho despautério?
O trabalho foi cansativo porque a penca era muito grande.
Porém, foram as últimas bananas da terra que ele saboreou.

Inês Mota

domingo, 30 de agosto de 2009

Exorcizando demônios

(Carvão em papel cason por Ines Mota)
Rabisco tosco de um sonho confuso.


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Outros Crimes Exemplares - A desleixada.

(Imagem: Dan May)

Não fiz de proprósito. Sou um cabeleireiro de prestígio e muito habilidoso.
Todos estão sujeitos a manias e eu, que não sou exceção, também tenho as minhas: Detesto caspa.
Comecei a cortar o cabelo dela e as caspas molhadas pareciam farelos de aveia.
A princípio, fui indulgente e com toda a paciência retirava-as com o pente fino. Mas tolerância, convenhamos, também tem limites.
Aquilo foi me irritando. Juro que jamais acontecera antes.
A frase indiganada "caspa, eu?", foi a gota d'água, digo, a pá de terra.
Comecei com uma pequena cutilada na nuca e, resoluto, fui até o fim. Qualquer pessoa no meu lugar faria o mesmo.
Foi mais forte do que eu.


Ines Mota

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Outros Crimes Exemplares - O libidinoso

(Imagem: desconheço autoria)

Havia chegado do sepultamento do pai, triste e abalada.
Tudo que necessitava naquele momento era apoio e conforto.
Ele, de fato a confortou, abraçando-a no leito enquanto repousavam. E isso era louvável.
Mas ao fazê-lo, ficou excitado e ela pode sentir o ousado e atrevido volume que lhe tocava as coxas.
Era necessário um pouco mais de respeito num momento de tão grande dor e sofrimento.

Foi sem pensar.
E quando se deu conta, já arremessara contra ele o primeiro objeto ao alcance da mão.
Não teve culpa se o ferro de passar era tão pesado.

Ines Mota

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Outros Crimes Exemplares - O Glutão

(Imagem: Desconheço autoria)

Durante o jantar, quando atirou no rosto dele o conteúdo da jarra, recebeu de volta um olhar estupefacto e o som de um baque surdo.
Não morreu afogado, decerto, mas do susto. Sofria do coração.
Muito justo.
Por que diabos comer de forma tão glutona e estúpida?

Enchia o prato como se estivesse jejuando há dias e por trás da montanha alimentar ela só vislumbrava dois gulosos olhos, que por sua vez, não entreviam nada além do anseio de abarrotar a pança.
Como se não bastasse, ficava arrumando e arrebanhando com os talheres, o arroz, o feijão, a salada e a carne, tal qual se comporta um cão pastor com as ovelhas. Parecia temer que a comida fugisse.
Não satisfeito arfava e gemia de deleite.
E isso ela não suportou. Transpusera todos os seus limites de tolerância.

Inês Mota