quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Síndrome

Imagem: Leonid Afremov



Eu tenho dois filhos.
Eu sinto tanta saudade dos meus filhos.
Sempre senti saudade deles. Desde que nasceram.
Senti saudade quando eram pequeninos e os deixei para trabalhar.
Senti saudade quando eles passavam mais tempo na escola do que em casa.
Quando eles deixaram de ser filhos para se tornar adolescentes que não querem ter mãe, eu tive uma imensa saudade deles.
Quando eles voltaram a ser filhos senti ainda mais saudade. Tornam-se tão independentes e distantes.
Eu tenho dois filhos. E uma saudade muito grande.
Sinto enorme saudade de minha filha. Ela está perto demais. A proximidade impede de nos enxergarmos.
E sinto muita saudade do meu filho. Está tão longe que também não posso vê-lo.
Eu sempre vou sentir saudades dos meus filhos.
Eu tenho dois filhos.
E um ninho meio vazio.




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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Fissuras


(Imagem: Salvador Dalí)

A cidade era de pouca chuva, mas quando isso acontecia vinham as trovoados, os relâmpagos e os raios.
Eram muitos raios que teciam teias de aranhas douradas no céu escuro.

Os raios caíam mais de uma vez no mesmo lugar: sobre minha casa e minha cabeça.
Foram tantas as ocorrências que, certa vez, olhando-me no espelho, percebi que a minha alma apresentava discretas fissuras.
Com o passar dos anos, as fissuras evoluíram e aos poucos se transformaram em fendas profundas. Profundas. Cada vez mais profundas.
Ocorreu-me não dar importância ao episódio e por muitos anos recusei-me a conferir o estado da minha alma.

Numa noite de São João em que fui atingida por inúmeros desses raios, não pude mais ignorar o meu destino.
Diante do espelho, ainda pude ver os cacos da minha alma no exato instante em que desmoronava num grito lancinante e repousava inerte sobre o assoalho. 
Sem saber como recompô-la, desde então eu sou apenas um corpo onde os sonhos não perduram.
Que não envelhece e não mais sente dor.

Inês Mota

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domingo, 13 de dezembro de 2009

Revelação



Imagem: desconheço autoria

Meu nome é Oscar. Eu sempre fui um gato arredio e irreverente. Não capitulo ante as necessidades doentias do amor.
Quando Dona Nonó chega ao galpão abandonado com a comida e a água todos correm até ela fazendo festa em alvoroço. Eu permaneço deitado e só saio para comer e beber quando os companheiros saciados se retiram.
Foi assim durante 27 anos de minha vida.
Certa manhã Dona Nonó não apareceu. Os outros gatos sairam para caçar ratos. Eu não gosto de caçar.  
Por fim, Seu Jaime, o viúvo, apareceu para continuar o trabalho de Dona Nonó.
Nesse dia, ele me chamou de homem. Desde então eu parei de miar e não preciso mais comer ração. Tampouco rato. Também não sou mais alvo de censura por meu retraimento.
Ainda sou Oscar. Agora, um bicho submisso, obediente, reverente cheio de amor e medo.
Ajudo o Seu Jaime na tarefa de alimentar os gatos e descobrir homens em meio a bichos abandonados.

Inês Mota
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