segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Solilóquio : O retorno para casa após um mês de férias ou 10 regrinhas básicas para não perder o bom humor

Imagem: Inês Mota

1- Em hipótese alguma perca o bom humor;
2 - Ao entrar em casa, não olhe à direita em direção à varanda e muito menos à esquerda em direção à mesa, isso vale para a direção teto/piso e para todas as demais áreas circum-vizinhas (a grafia ficou feia, mas a nova regra ortográfica manda escrever assim);
3- Nem pense em entrar no escritório. Caso decida contrariar essa regra é imprescindível usar capacete e óculos de proteção;
4- Ao se dirigir aos quartos, certifique-se de que a porta do banheiro social esteja devidamente fechada e se for em direção à cozinha peça ajuda para que fechem a porta do banheiro da área de serviço; 
5- Resista com todas a suas forças, se você, compulsivamente, tende a não desviar o olhar do fogão ao tentar descolar a grelha da bandeja;
6- Pela manhã, não abra a geladeira, melhor não, ainda que isso implique em limitar o seu café da manhã a cereais com mel;
7 -Resista à tentação de abrir qualquer gaveta em qualquer cômodo da casa, eu disse, qualquer gaveta de qualquer cômodo!!;
8- Não toque em nada, absolutamente nada nos armários da cozinha, antes de se certificar que aquele pó amarelo que transborda da seção de cereais se trata de feijão macassar e arroz da terra em adiantadíssimo estado de decomposição;
9- Ignore a mancha de infiltração perto do aparelho de ar condicionado do quarto, que se espalha por em raio de aproximadamente 60 cm de diâmetro;
10- Se, dadas as circunstâncias, você conclui que é impossível mudar essa situação, mude de apartamento;
11- Em hipótese alguma perca o bom humor, lembrando sempre que os três mosqueteiros eram quatro.

Inês Mota



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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

El sueño

Imagen: El sueño, Salvador Dalí


EL SUEÑO

*Cuento presentado como la tercera evaluación de da asignatura "Leitura e produção de texto em Espanhol II

Aquella mañana de domingo me desperté oyendo los mugidos insistentes de las vacas. Estaba un poco oscuro todavía y de pronto me di cuenta que no me encontraba en la cama. Había en el aire un fuerte olor que me provocaba una sensación desagradable en la cabeza y en el estomago. Me levanté y un rayo de sol se adentró por el techo, iluminando un poco el lugar. Sin duda yo había dormido en el establo. Cómo era posible eso

Empecé a caminar apoyándome en las paredes, pues todo el cuerpo me dolía. Miré alrededor y supe que algo muy extraño había ocurrido allí. La puerta del establo estaba rota y la comida de los animales desparramada sobre el suelo. En medio a una mancha de sangre oscura yacían dos vacas y el perro labrador.

 Salí corriendo hacia la casa de mi novia, entré por la puerta principal que estaba abierta y tenía los vidrios rotos, subí la escalera y entré en la habitación. La cama estaba deshecha y Ana no estaba. Fue entonces que la vi en la bañera, cuya agua estaba teñida a sangre. Sus ojos estaban abiertos y tenían una expresión de espanto. Me acerqué a ella y vi los profundos arañones en su rostro. Su cuerpo estaba destrozado como si hubiera sido atacado por un feroz animal. A su lado, igualmente muerto, estaba su perro Tarzan.

Desesperado, llamé a la policía. Expliqué que mi novia había sido asesinada y le di la dirección de la casa. Mientras intentaba calmarme, vi mi silueta en el espejo del baño. Me miré más de cerca y vi sangre en mi cara. Había más sangre en mi cuello, en mis brazos, en mi ropa, además de varios puñados de pelo negro y grueso por todo mi cuerpo. Las uñas, que antes las tenía cortas, eran ahora garras largas y puntiagudas. Nervioso, sonreí. Aquellos dientes no eran humanos. Yo no era humano...

Cuando me dispuse a bajar la escalera y huir lejos, sonó la campanilla. Por supuesto era la policía. El pavor me hizo tropezar y me caí en el salón. En este momento, me desperté. Delante de mí estaba mi madre que me preguntó si yo no había oído el timbre del despertador y si yo estaba bien. Me dijo que yo debería ducharme y enseguida tomar un buen desayuno, pues era necesario recomponerme. Ella había recibido una llamada que le informaba de la trágica muerte de Ana, mi novia.

Inês Mota

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sábado, 26 de novembro de 2011

OuLiPo e a pesquisa sobre literatura potencial


 Oulipo e a pesquisa sobre literatura potencial
Ana alencar e Ana Lúcia Moraes*
  
Raymond Queneau já era um escritor consagrado quando decidiu escrever os Cent mille milliards de poèmes. Na época, encontrou um amigo matemático, François Le Lionnais, com quem comentou, segundo conta o próprio Queneau, que estava um pouco assustado com o imenso desafio que os poemas representavam – para se ter uma idéia, tratava-se de um sistema que explorava as possibilidades de combinação de dez sonetos cortados em quatorze pedaços cuja completa realização somente se tornou possível com o desenvolvimento posterior da informática. Desse encontro entre Queneau, escritor interessado em pesquisas matemáticas, e Le Lionnais, matemático interessado em literatura, surgiu a proposta de fundar o OULIPO.

Durante a realização de um encontro em Cerisy, em torno da obra de Queneau, sete escritores com preocupações semelhantes reuniram-se, programando a formação desse grupo dentro do já existente Collège de Pataphysique. Em 1960, ocorre a primeira reunião do Oulipo - Ouvroir de Littérature Potentielle (Oficina de Literatura Potencial).

Durante vários anos o grupo permaneceu desconhecido do grande público, mas continuou agregando vários colaboradores. Contamos entre seus membros vivos ou mortos, franceses ou estrangeiros: Jean Queval, Raymond Queneau, Jean Lescure, Hervé Le Tellier, François Le Lionnais, Jacques Duchateau, Claude Berge, Jacques Bens, Albert-Marie Schmidt, Noël Arnaud, Latis, André Blavier, Marcel Bénabou, Jacques Jouet, Georges Perec, Jacques Roubaud, Paul Founel, Italo Calvino, Harry Mathews, Paul Braffort, Luc Etienne, Ross Chambers, Stanley Chapman e Michèle Métail.

A partir de 1965, uma série de livros e artigos dos autores oulipianos foi publicada, tornando a iniciativa do grupo extremamente famosa na França, onde tem muitos seguidores até hoje.

Tipos de textos oulipianos

Todo discurso implica, necessariamente, em restrições que ordenam sua legibilidade dentro de universos já existentes (a gramática, o vocabulário, a sociedade, a cultura....). Essas contraintes discursivas, que participam de uma necessidade conversacional, praticamente se opõem às contraintes scripturales, restrições que são fruto de uma escolha voluntária que um autor se impõe deliberadamente na produção de seus textos.

OULIPO, desfazendo a idéia de que a literatura é a arte do único e do inimitável, explora o potencial teórico, ao mesmo tempo em que obviamente poético ou criativo, de uma lógica da repetição e da imitação. Escrever é imitar, repetir, traduzir. Os autores oulipianos produzem quatro tipos de textos: textos que utilizam estruturas já existentes, textos produzidos a partir da aplicação de restrições (contraintes) inventadas por eles, exercícios de estilo (pastiches) e textos de literatura combinatória.

Os oulipianos recuperam algumas estruturas, regras ou restrições como o lipograma, o anagrama, o palíndromo ou o tautograma. Essa prática da escrita sob restrição (écriture à contraintes) que remonta à Antigüidade é reutilizada, por Georges Perec, por exemplo, para escrever um lipograma, intitulado “La Disparition”, no qual não se encontra a letra e.

Mas o exemplo mais famoso de texto escrito sob restrição produzido por um autor oulipiano é, sem dúvida, o romance La vie mode d’emploi, do mesmo Georges Perec, editado pela Hachette em 1978 (já traduzido em português e editado no Brasil pela Companhia das Letras). Perec usa uma série de restrições matemáticas e outras regras extremamente complexas para elaborar o romance que conta a vida dos habitantes de um edifício. O texto pode ser lido, sem que por isso seu sentido seja afetado, por qualquer leitor mesmo que este desconheça as regras que presidiram sua escrita.

O fato de Perec ter misturado algumas regras já existentes, pelo menos como regras matemáticas, com outras que ele inventou, só vem confirmar que muito embora os oulipianos prestem homenagem aos que eles chamam de seus “plagiadores por antecipação”, querem principalmente definir e inventar novas formas de utilização de estruturas e restrições.

Exercícios de Estilo, além de ser o título de um dos livros de Raymond Queneau, é igualmente o nome de uma prática textual oulipiana que questiona a máxima “o estilo é o homem”. A proposta é imitar estilos que se proliferam quase ao infinito, criando textos através de variações em torno de um tema simples.

A expressão “literatura combinatória” aparece em 1961, usada por François Le Lionnais, no seu posfácio ao Cent mille milliards de poèmes. Queneau, provavelmente o autor oulipiano que mais explorou esse tipo de exercício, produziu, além de poemas, algumas narrativas combinatórias. Seu texto Un conte à votre façon tornou-se o primeiro texto assistido por computador, garantindo a Queneau o lugar de precursor da literatura informatizada.

A maior parte das pesquisas do Oulipo têm sido, atualmente, continuadas por oulipianos que se dedicam à informática. Marcel Bénabou, Jacques Roubaud e Pierre Lusson definiram procedimentos algorítmicos para a criação de textos segundo certas “restrições” que foram em seguida informatizadas. Em 1981, Jacques Roubaud e Paul Braffort propuseram a criação de um novo grupo que viria a se consagrar unicamente à literatura e à informática, o ALAMO – Atelier de Littérature Assistée par la Mathématique et les Ordinateurs (Oficina de Literatura Assistida pela Matemática e pelos Computadores) que reuniu escritores, professores, lingüistas, pesquisadores de inteligência artificial e pedagogos. Tanto os resultados das pesquisas do Oulipo, quanto os das pesquisas do Alamo podem ser facilmente encontrados na Internet.

Embora não se tenha uma vasta bibliografia em português sobre os trabalhos do Oulipo, existem alguns livros de Georges Perec e Raymond Queneau editados no Brasil: QUENEAU, Raymond, Exercícios de Estilo, Imago, 1995 e Zazie no Metrô, Rocco, 1995; PEREC, Georges, A Vida Modo de Usar, Cia das Letras e W, ou a Memória da Infância, Cia das Letras. Também se encontram vários livros de Ítalo Calvino em português.

Para os que lêem em francês, os fascículos da Bibliothèque Oulipienne foram editados em 3 volumes pela editora Seghers em1990.


* ANA ALENCAR é professora de Teoria Literária na UFRJ e tradutora. ANA LÚCIA MORAES é pesquisadora e doutora em Literatura pela Université Stendhal – Grenoble III. Em dezembro editarão um número da Revista Terceira Margem, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ, dedicado às oficinas de escrita criadas a partir das propostas do Oulipo.


 Extraído da Revista  Confraria - Arte e Literatura


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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

OuLiPo - Brincando com as palavras ou meus primeiros exercícios de Oficina de Linguagem

(Imagem da Internet. Desconheço autor)


OFICINA DE LINGUAGEM, UFRN. Professora Ana Lúcia Moraes, 2011.

Neste exercício, devo criar textos distintos usando as palavras destacadas.(A ordem é aleatória)

Tentei criar uma história, sob a prescrição de incluir apenas umas certas 10 palavras. Imaginei um personagem e o chamei de Júlio. Em seguida o qualifiquei como um rico traficante de drogas carioca que há dois meses havia escapado de uma PRISÃO de segurança máxima, ao FLUTUAR preso a cabos que pendiam de um helicóptero em meio a saraivadas de tiros e espessa FUMAÇA. Numa manhã de domingo, ao passear pelo calçadão de Copacabana disfarçado de TRAVESTI, o nosso herói deparou-se com um ESCANDINAVO que levava seu cão, SATURNO, a passear. Como preciso sumarizar essa história, pois só disponho de dez linhas para contá-la, relato aos leitores que os dois personagens se apaixonaram e vivem muito felizes numa luxuosa CASA (leia-se mansão) em Niterói. Eu, da minha parte, encontro-me ESTATELADO numa poltrona, tentando encaixar no enredo a palavra que falta: CORRER. O jeito é correr e apelar mais uma vez ao BICO da pena e reescrever tudo de novo.

Sou um famoso TRAVESTI ESCANDINAVO. Encontro-me em minha CASA polindo distraidamente um par de botas pretas que usarei no desfile da Guarda Real nas festas de final de ano. Neste momento, pela janela vislumbro um objeto não identificado a FLUTUAR, adentrar em meio à FUMAÇA pela minha chaminé e cair ESTATELADO no chão da cozinha. 
Minha primeira reação foi CORRER para averiguar do que se tratava. A segunda, foi tentar entender as circunstâncias da aterrissagem. O que soube acerca do humanoide (era um humanoide) antes que este desse seu último suspiro foi quase nada: “Eu, após desvencilhar-me das armadilhas dos malditos anéis, escapei milagrosamente de uma PRISÃO no meu planeta SATURNO. Vaguei no espaço por mil anos-luz e...” . Sobre o delito que o levou ao cárcere, só pude captar uma vaga menção ao BICO do peito de uma bela marciana.

Eu sou João. Aquela é Maria, minha irmã gêmea. Somos filhos de um rei ESCANDINAVO chamado Cronos, ou SATURNO. Ficamos órfãos de mãe ao nascermos e temos doze anos. Maria cansou dos assédios do nosso pai e fugimos para o bosque. A FUMAÇA de uma chaminé nos chamou a atenção e começamos a CORRER até uma pequena CASA que parecia FLUTUAR em meio à floresta.
Eu sou Gregorius. Meu pai morreu de remorso por haver engravidado sua irmã. Eu fui criado por um TRAVESTI havaiano, que me encontrou boiando num barril. Fiz muito BICO para sobreviver e aos 17 anos fugi daquela PRISÃO. Perambulei em busca de minha mãe e desisti ao encontrar o reino de uma bela e madura mulher. Nos casamos e tivemos duas lindas filhas. Hoje, ESTATELADO na minha cadeira de papa, acabei com a maldição incestuosa. Recebo à distância as bençãos de minha velha mãe Maria e abençoo minhas duas filhas como se fossem minhas sobrinhas.


O próximo exercício consiste em formar um Tautograma e um Anagrama com as palavras  JABUTICABAL  e ESTRANGULAMENTO.


Meu exercício de Tautograma (criando texto utilizando apenas as letras,com repetições sonoras, da palavra, JABUTICABAL:


A jabuti babaca catuca a bila, a bala, a tuba. 'Bica' a titica, a jaca, a jia, a bacia, a tia Bia.
A Lucila atua, ataca. Taca a tábua, a lata. Acaba a luta: jaula, já!


Exercício de Anagrama (formar texto com apenas as letras constantes da palavra) ESTRANGULAMENTO:
Um terremoto em Roma no mês de maio matou o genro de Artur Garmett. Ele morreu sem glamour e sem ar, num 'trono' no Resort 'Lara'. Restou somente numa mão uma ostra sem sal e um gorro, um regalo, na outra.
Nesse momento, Artur nem gelou nem amarelou. Sem realmente amar o traste, até gostou! o gasto em 'ouro' era menor agora, arre !


Acrósticos (gosto e desgosto)


Movo as páginas deste velho livro
Ante meus olhos surge ela, a feiticeira
Capitu, dissimulada ressaca
Há muito e por tantos condenada
Ante vários tribunais absolvida
Dúvidas, para que te quero?
O Bentinho que se vire!


Poupem-me por favor desse sujeito
A ler um livro seu eu me recuso
Ulula o obvio:
Lá no bolso traseiro ele conduz
O pé do animalzinho branco


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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

MEMÓRIAS DE QUANDO FUI NETA II (Numa manhã de domingo, num tempo remoto).


Foto: Inês Mota
Na casa do Padrinho Amor- o tio-avô-, onde a menina reina ao lado do mano Dinarte, impera a liberdade e tudo é normal, natural e permitidíssimo. 

Ela pode derramar os esmaltes de unhas, usar o óleo de canela de boi nos cabelos e quebrar a perna da boneca de Rita. Mexer o enorme tacho de sabão de potassa que vomita bolhas fedidas a fato de bode. Soltar as cabras do curral, que correm em direção ao cocho para matar a sede. Catar os ovos nos ninhos das galinhas e, assessorada pelo irmão, quebrar todas as panelas de barro do incauto vizinho tio Chico de Joca, coitado, que ao mudar-se deixou-as sobre uma roda de carro de bois.

Embrenhar-se pelos mufumbos e juremas, a perseguir encantada, as cores dos pavões sem conseguir alcançar. Apanhar as frutas verdes e oleosas das oiticica que não prestam pra comer e fazer músicas com os chocalhinhos das vagens de gergelim. 

Espantar os porcos, guinés, perus, ovelhas e galinhas com um galho cheiroso de marmeleiro. Colher trapiás e os melões-caetanos que pendem como brincos de ouro das cercas de varas entre os pereiros.
Trepar-se no pilão da cozinha para alcançar as cabaças e admirar os filhotes no ninho de rouxinóis. 

"Tecer" pano de rede xadrez subindo e descendo os degraus do roído tear de madeira. Dar banho no pobre do gato amarelo que, com o rabo entre as pernas e um olhar rancoroso, corre agoniado direto para a rede do primo Janúncio. Comer com farinha, tripa e bofe de carneiro assados na brasa.

Embriagar-se fumando o cachimbo da tia Maria que, caçoando, adverte: " avie, menina, joga logo uma caneca d'água na parede, que o cheiro do barro acaba essa morrinha!".
Embriagada de tanto amor e carinho, caminhar pelas veredas do sítio e adormecer no mato macio, ouvindo a música do riacho do Vô Joca, que parece dizer:" sonha, menina, sonha enquanto é tempo, que sonhar faz um bem!".
Inês Mota;
Natal, 11 de agosto de 2010.
*Imagem (Penso que é de minha autoria): Casa onde nasci, no sítio Logradouro, município de São Bento (PB


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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Memórias de quando fui neta

(Imagem: Salvador Dalí)

Aos 7 anos, eu não compreendia porque o avô de uma colega tinha apenas uma esposa e achava o fato  estranhíssimo. O que? só uma? Pois o meu avô tem duas! Também achava estranho se todos os avôs não soubessem fazer tudo o que o meu sabia. Como? Ele não sabe confeccionar selas e gibão de couro, construir casas, cercas e currais, plantar uma roça de milho e feijão, escavar poços, fazer vaca parir, arrancar tatu do buraco, curar bicheiras dos cavalos, matar cobra venenosa, abater bois e carneiros e preparar a carne para  vender na feira?

O meu avó materno era João que como todos Joões virou Joca, um senhor franzino e calvo, de jeito tranquilo, de fala mansa que nos encarava sempre de frente, cabeça erguida, olhos semicerrados como se estivesse escaneando nossa alma e imprimindo nosso pensamento. Se precisasse era brabo que nem siri em lata.

Quando chegávamos de férias à sua casa era festa e liberdade total! A casa era de fato pequena, mas me parecia enorme, com suas paredes sem reboco cheias de frestas de onde eu retirava os "barbeiros" para brincar de fazenda. O piso vermelho de tijolos lisos e gastos, era frio e nos servia de cama depois do almoço.
Na sua casa, éramos recebidos por suas duas esposas. Uma de direito, as duas de fato. Nenhuma era minha avó de sangue (a  minha avó, havia morrido de parto quando minha mãe tinha pouco mais de um ano). As duas compartilhavam o mesmo teto de forma  supostamente harmoniosa e a divisão de tarefas parecia ser de acordo com o nível cultural de cada uma. Uma era instruída, falante, sabia ler, escrever e contar. Era vaidosa e gostava de viajar "ao Recife". Era minha madrinha e só eu tinha o privilégio de compartilhar os segredos e mistérios infindáveis de sua mala de madeira, grande e bonita que me embriagava com o cheiro de pó de arroz, perfumes, esmaltes e sabonetes.  A cada vez que era aberta, me fascinava, além de tudo, colada no interior da tampa, a figura de uma miss Brasil de maiô, faixa, cetro e coroa,  que vim a saber que era Ieda Maria vargas, miss Brasil e miss Mundo 1963, formando parelha com  outra de um senhor elegante que depois, soube tratar-se do Juscelino Kubitschek.

Ela organizava a casa, dava ordens e preparava os doces e compotas que eram armazenados em recipientes de barro com pinturas vermelhas e guardadas num jirau, espécie de trançado de madeira que pendia do teto preso com cordas nas extremidades. A outra, não sabia nada das letras e não primava pelo cuidados com a aparência nem pela vaidade pessoal. Era calada e arredia, possuía um vocabulário singular e se limitava a preparar a comida do dia -a- dia, a pisar no pilão,  a moer milho,  efetuar a limpeza da casa e das roupas e cuidar dos bichos pequenos no quintal.

Sinestésica desde sempre, eu associava à primeira a lençol branco, ao cheiro bom do melão, ao mar do Recife que nunca vi, à liberdade, à vaidade e ao glamour. A segunda, sempre me lembrou uma enorme panela de feijoada com pé de porco fervendo no fogão de lenha, um pilão de arroz descascado, o acridoce da coalhada com cuscuz e rapadura e o odor de penas de galinha molhadas.

Nas minhas incursões pelos reduzidos limites da propriedade eu explorava tudo, desde a casinha parede- meia - onde havia ferramentas, rações para o gado, arreios, cuias, montes de batatas e silos de zinco cheios de grãos (vedados com uma mistura de cera de abelhas e pó de tijolos,) as cacimbas, os currais e os bichos copulando, dando cria e leite. O riacho, pelo qual eu tinha certeza que se seguisse o leito  chegaria ao mar. Esse mar que de fato nunca explorei. Não por medo da viagem ou dúvida quanto à sua existência. O  que de fato me importava era preservar o mistério, pois o mar devia ser bonito demais e melhor do que vê-lo era imaginá-lo na sua imensidão azul.  Além disso, o riacho, perene, estaria sempre ali e era a via de acesso para a realização do sonho quando assim eu o desejasse.

Aos 10 anos, já há algum tempo na cidade, tudo me parecia diferente. Os interesses eram outros e já não via tanta graça no sitio do meu avó. Aos poucos as coisas se esvaiam, mudando de cor e dimensão. O verde não era mais o verde que eu vira,  as chuvas com trovões rareavam  a água se acabava, aos poucos o riacho minguava, os bichos sumiam, os silos sempre pela metade, o cachorro sarnento e magro caducava num canto da casa, as pessoas, enfadonhas e taciturnas pareciam cansadas da vida. 

Um dia meu avô se foi e vi minha mãe carpir sua dor calada, vestir preto fechado por um ano. Eu e minha irmã, usamos por seis meses -batendo e vestindo- duas mudas de roupa composta por uma saia preta e uma blusa preta de bolinhas brancas. Os meninos maiores, assim como o meu pai, usavam um "fumo" no bolso da camisa.

Depois disso, voltei poucas vezes ao sítio. As duas viúvas, como eu pude constatar, não conviviam tão bem assim e cada uma buscou seu rumo. A casa e tudo ao redor virou cinza, desolação e abandono. Só mais uma paisagem seca no sertão da Paraíba.
Apesar do gradativo distanciamento entre nós, senti muitas saudades do meu avó e por algum tempo o meu espírito infantil lembrava dele com um misto de tristeza, melancolia e rancor: como ele podia ser tão ingrato, ter morrido assim sem mais nem menos e sem se despedir de mim?

Dele, herdei  o gosto  pela organização, pelas coisas simples e bem feitas, a teimosia e a resistência às adversidades e a capacidade de ser o que ele próprio se intitulava " pau pra toda obra", além do hábito de apreciar o sabor de uma pimenta malagueta braba, que vez ou outra me assanha a gastrite crônica e causa a insônia que me  convida a registrar essas memórias.
Inês Mota

Ieda Maria Vargas Miss Brasil e Miss Universo 1963
(Imagem do site http://jhomundomiss.blogspot.com/2010/09/miss-brasil-1963-so-para-lembrar.html)

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domingo, 24 de julho de 2011

Ítaca - Konstatínos Kaváfis

 
(Imagem: Ulisses preso ao mastro, escuta o canto das sereias- Cerâmica grega)


Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem os Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não o levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.


Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quando houver, de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.


Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha, velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.


Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.

Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Constantínos Kaváfis (1863-1933)
in: O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz.

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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Celacanto

(Imagem do site http://catalisando.com)


aondainvadiuapraia
aondaanvadiuapraia
aondaaovadiuapraia
aondaaonadiuapraia
aondaaonddiuapraia
aondaaondaiuapraia
aondaaondaauapraia
aondaaondaaoapraia
aondaaondaaonpraia
aondaaondaaondraia
aondaaondaaondaaia
aondaaondaaondaaia
aondaaondaaondaaoa
aondaaondaaondaaonda
aondaaondaaondaaonda
aondaaondaaondaaonda
aondaaondaaondaaonda


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domingo, 3 de julho de 2011

A Hercule Poirot

(Imagem da internet. Desconheço autoria)
cai

     o
       
        pa
        
              no.
     
                    no, no, no!

Inês Mota


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terça-feira, 21 de junho de 2011

Soneto branco ou Sinestesia desmetrificada


Sara é uma formiga amarela  e calipígia,
Catarina, a vagem seca de tamarindo,
Geraldo, uma garganta vermelha irritada
E Glória, um vidro de compota de goiaba.

Arroz deveria chamar-se  catapulta, 
Almôndega, o  banco de madeira da pracinha
Sorvete, um livro com cheiro de azul royal,
Porque moela é  uma caixa guarda - jóias.

Camelo  é uma linha no azul do horizonte,
Tilacino, a máquina que derruba castanheiras,
Suricato, a  sovela rombuda do sapateiro
E urubu, um sapinho que foi para o céu.

Porque  estética é  um elástico que perdeu a força
E soneto,  um travesseiro de penas de Petrarca.
 Inês Mota

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domingo, 15 de maio de 2011

Liberdade

sick transit - José Paulo Paes
Celebridade
Eu sou o poeta mais importante da minha rua.
(Mesmo porque a minha rua é curta.)
José Paulo Paes

É domingo, mas não um domingo qualquer. É um desses raros dias em que me permito acordar tarde e fazer o desjejum às dez, protelar ou abolir o almoço, mudando a ordem normal das coisas.
Ontem, pelo interfone, me avisaram  que chegou um volume.
É um livro, eu sei.
Fico ansiosa, mas me contenho. Tudo tem sua hora. Indescritível é o prazer de postergar o encontro marcado com o  desejado.
Assim, saio da gaiola e vou até o parque do condomínio. Olho em volta e enxergo  o comum e o invísivel do cotidiano: a liberdade, o mato verde, o banco roído, as  gentes costumeiramente vistas com as retinas embaçadas pela  indiferença.
Ah, o livro...pego o embrulho e no hiato entre rasgar o pacote e vislumbar a obra,  me dou conta de  que já não serei a mesma depois desse ato.
Reluto. Chove. Era o que faltava.
E agora como velhinhos no parque, ponho meu agasalho, os óculos e assisto à chuva e ao meu êxtase quase infantil que o porteiro não compreende.
E eis que surge o poeta José Paulo Paes.
Muito prazer, poeta! Sinto só vir a conhecê-lo melhor agora.
É o volume Poesia completa da editora Companhia Das Letras. Agradou-me não ter a aparência de pão doce dos livros brilhosos, cheios de não me toque e nove-horas, cujo incômodo eu não sabia como expressar até ouvir a curiosa adjetivação de um dos meus professores.
Agora me despeço. Vou numa viagem. Sem volta.

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quinta-feira, 3 de março de 2011

A lenda de Gregorius - O Eleito


Imagem da Net. Desconheço autoria

Num reino distante, o rei e a rainha não tinham filhos e há muito lutavam para conceber o tão esperado herdeiro. Finalmente, após anos de tentativas com inseminação artificial, a rainha dá à luz um casal de gêmeos e morre logo depois do parto. Os Gêmeos, que se chamavam João e Maria são criados pelo pai no Castelo Ra-tim-bum.

Aos doze anos, Maria, que não mais tolerava os assédios do pai, convida o irmão para fugirem de casa. E assim, numa noite de lua juntam seus pertences e abandonam o castelo. Vagam noite adentro pelas clareiras outrora ocupadas pela densa floresta Amazônica e ao amanhecer encontram uma casinha numa área remanescente da mata. Cansados e famintos, ligam pro Disk Pizza e pedem uma quatro queijos e uma portuguesa e devoram tudo juntamente com as tortas, doces e chocolates, regados a refrigerante que jorrava das paredes.

Certo dia João diz: Maria, nós nascemos da morte. E usa essas palavras como argumento para seduzi-la. Com o tempo, os dois não resistem mais ao desejo que nutrem um pelo outro e passam a viver juntos descobrindo os prazeres mundanos e  Maria concebe  um menino a quem chamaram de Gregorius.


Entretanto,o remorso toma conta de sua alma e o inquieta. Que merda que eu fiz. Que grande FDP que eu sou, pensou João. Com o intuito de redimir sua culpa sai pelo mundo e poucos dias depois, confundido com um perigoso traficante, é morto por policiais na favela Dona Marta.

A criança então é colocada pela mãe dentro de um pipo - o mesmo que Poe usara no seu célebre conto - junto com ricas peças de ouro e com um quadrinho emoldurado com os seus dados: Nome dos pais, local de nascimento, teste do pezinho, exame de DNA e em seguida é atirada ao mar. Foi encontrada por uma freira sadomasoquista numa remota ilha do caribe, que o criou como se fosse o seu filho que anos antes havia colocado num barril e jogado ao mar.

Maria, desesperada, segue o fio do novelo de Teseu  decidida a retornar ao castelo. Lá, chega a tempo de assistir a cremação do corpo do seu pai (que já ia tarde) e é então coroada rainha e ovacionada pelos seus súditos.
Anos más tarde, lá no Caribe, Gregórius, então com 17 anos, descobre sua real origem e decide viajar com a missão de encontrar seus pais para oferecer-lhes o perdão e encontrar a paz que tanto buscava. Desiste da empreitada quando se depara com um reino sitiado. Ali, se detém e luta até libertá-lo. Em seguida, desposa a bela  rainha  Maria I e vai viver  uma vida semelhante à de certos parlamentares, sem dar um prego numa barra de sabão, comendo, bebendo e vestindo do melhor à custa dos súditos.

Tiveram duas filhas maravilhosas e foram felizes para sempre. Até o dia em que Maria descobriu os pertences que Gregorius guardava a sete chaves. Não havia mais dúvidas: Ele era seu filho. Puta que pariu. Essa merda de Novo?, pensou Maria. E foi ter com Gregorius. Este, desalentado, vagou pelo mundo para redimir-se dos seus pecados, mas como não era otário feito seu pai, evitou seguir viagem para o Rio de Janeiro.


Foi viver em Brasília. Lá, enviou seu currículo para o chefe do Gabinete do Sarney e uma semana depois já estava empregado fazendo absolutamente nada. Entretanto, quando vieram à tona o escândalo dos Atos Secretos (lembram?), Gregorius perdeu a mamata e ficou a ver navios, prosseguindo assim sua romaria mundo afora.

A história de sua peregrinação é muito comprida e eu não estou mais com saco para relatar. O fato é que no final, após expiar sua culpa, livre de todo o pecado, Gregorius, acreditem, se torna Papa. E o grande Papa Gregorius, finalmente reencontra sua mãe Maria e suas duas filhas - às quais  abençoa como tio.

Passaram a morar próximos e a cultivar ótimas relações familiares. Estava finalmente estabelecida a paz. Gregorius ora e agradece por ter finalmente rompido o maldito círculo do incesto, afinal de contas, tudo tem limites e o mundo é finito.

E, seguindo a orientação divina de jamais, em hipótese alguma, andar atrás de Rubinho Barrichello, todos foram felizes para sempre. Até aquele fatídico dia  que, contrariando as ordens superiores, foi atingido violentamente por uma mola voadora em forma de tartaruga, pesando 800g e já não se lembrava mais quem era.

 Inês Mota

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

MEMÓRIAS DE QUANDO FUI NETA (Sobre maracujás e ninhos)

imagem: site BAIXAKI


Não saberia precisar quando e, quiçá, isso não seja relevante para quem se dispor a desperdiçar um bocadinho de tempo com escritos de quem pensa que pode sair por aí divagando sobre situações tão banais e insossas de sua infância.
Mas já que cheguei até aqui com esse delongamento introdutório, que nem de longe se arvora a triscar as tendências do Gongorismo ou Quevedismo, apenas brincar de fazer uso de muita ou pouca forma disforme para dizer pouco ou nada do que nada sei e não passa de pequena crônica despretensiosa.
O que posso afirmar é que foi num tempo em que, juro, eu não conhecia a história do Labirinto de Creta e tampouco ouvira falar do novelo de Teseu. Entretanto quando saia nas minhas insólitas viagens pela Caatinga, costumava levar uns grãos de milho que espalhava pelo caminho, os quais, sabia, me guiariam de volta para casa.
Eu buscava desbravar o mato cerrado, o desconhecido, a "grandiosidade" do sítio do meu avô, as árvores, os bichos, os riachos e córregos. Eu procurava especialmente as latadas de maracujá do mato, ao seu ver, erroneamente chamado de brabo, já que nunca presenciara qualquer atitude tempestuosa que lhe valesse tal alcunha. Deleitava-me com o divino o sabor das frutas, deitada na relva vendo manadas de bichos-nuvens fugazes, passeando com pressa e se desintegrando no azul do céu, quem sabe medrosas, temendo manadas ferozes no seu encalce.
Depois, já em casa, como era bom observar sorrateiramente a vaidade melancólica da minha mãe, tão atarefada, que à beira do fogão de lenha, se dava o direito de ficava bonita ornando os cabelos com as majestosas flores de maracujá matizadas de vermelho, azul e roxo, que eu trazia pra ela.
No dia em que me deslumbrei com a visão do primeira comida esquisita que me pareceu fios de tecer redes, cismei que aquilo dava em árvores e daí em diante, nas aventuras subsequentes. os passeios se tornaram mais longos, as caçadas mais meticulosas. Os maracujás já não eram objetos exclusivos de busca,
Jamais encontrei os tão cobiçados pés do que me disseram chamar-se macarrão e passei a desconfiar que eles davam mesmo era embaixo da terra, escondidos feito batata doce ou macaxeira. Ou, quem sabe, brotavam dos ninho enroladinho dos rouxinóis que eu vira pendurado junto ao silo de feijão do Vô Joca.
Naquele tempo, não tinha certeza de nada. Hoje, tampouco.
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Abissal

Foto: Inês Mota


O caleidoscópio de rochas vivas generosamente acolhia-me e, ainda assim, o meu mundo era sombrio e tenebroso.

Eu sentia tanto medo. E o medo retraía-me ao posto de atalaia que me garantia relativa segurança em meio aos ferozes habitantes.

Para não me afogar, vencia a fadiga e protelava o sono, dia e noite. Noite e dia, empenhada em enxugar o mar d' água em torno de mim.

Oh, Sísifo! Como eu sabia dos seus desenganos.

Um dia, o misericordioso Merlin Azul segredou-me que esse mundo se chamava mar.
Segredou-me que meu nome é peixe.

Ciente da minha nova condição, descartei panos, dores e o escuro do mundo abissal.

Agora cuido de voar e contemplar estrelas

Inês Mota

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

NEM TODO CÉU É DE BRIGADEIRO

Imagem da Net- Kurosawa- Kagemusha

Tudo passa lento e morno e a noite vai tingindo o dia como Kurosawa pinta seus filmes.
Sentada no banco do parque, conto os tijolos vermelhos da calçada e acompanho o movimento nervoso das formigas que em fila indiana carregam ovos de dinossauros na cabeça.

Um vento travesso rouba o chapéu do seu Zé e o deposita no galho seco do fícus...fícus benjamina...fícus benjamim...Benjamim...

-Benjamim, chame seu pai pra dentro!
-"Papaiii"..!

Uma folha fugida do outono que não temos, passa rodopiando e se acomoda no vão dos meus dedos enquanto o pardal belisca o pão do mendigo que costura os seus sonhos numa mochila de lona verde tecida no tear que pai comprou em São Paulo e queimado por descuido de Dimas. 

Seu Nozinho contorna a calçada pela quarta vez, montando sua velha bicicleta preta e assobiando Hey Jude porque segundo ele é impossível atravessar esse Saara sem Beatles. 

Um cão sarnento passa cambaleante espantando as moscas da pata ferida e me olha pedindo licença para se deitar e ficar triste. Ele se deita e nós ficamos tristes.

Ao longe, o radio toca um prelúdio para ninar gente grande e pequena. É a voz de algodão doce de  Luiz Vieira que lembra saudade, inverno, trovão e bolinho de chuva.
Um relâmpago risca o  céu, que agora cinza ameça desabar sobre nós.

Bem que mãe disse que ia chover!

Inês Mota



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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Kafka e sua obra: pessimismo?

(Imagem by me )


No entendimento do filósofo e escritor brasileiro Leandro Konder, não.

No seu livro Kafka- Vida e Obras, Konder argumenta que enquanto filósofo, Kafka foi levado a adotar ideias pessimistas. Certa vez em conversa com um amigo, Kafka afirmou de forma negativa e radical: "Somos pensamentos niilistas aparecidos no cérebro de Deus. Somos um de seus maus humores, um dia ruim d'Ele". E quando o amigo indaga, se então havia esperança, ele retruca: "Para Deus, sim. Mas não para nós".

 É necessário, entretanto, separar as ideias de cunho pessoal do escritor quando se restringia a pensamentos filosóficos das ideias que ele traz implícitas na sua obra. E felizmente, para nós, Kafka foi um artista e não um filósofo. "Essa criação artística vem corrigir a deformação pessimista e conservadora de algumas de suas ideias filosóficas", diz Konder, que argumenta:

"Em suas obras de ficção, Kafka não foi pessimista. A moral do pessimista é mais ou menos a seguinte: Não adianta fazer nada, porque o mundo é uma porcaria e há de ser sempre assim como está'. A moral das estórias de Kafka é muito diferente. Se podemos resumir a lição que Kafka nos dá, devemos dizer que seus livros são gritos de alarme, são denúncias, avisos de perigo, e não aconselham ninguém a se resignar com a situação a que o mundo chegou."

Um dos exemplos que mais ilustrariam o humanismo ativo presente na obra kafkiana, nos é apresentada no seu livro O Processo. Em determinado trecho da obra, no capítulo Diante da Lei, nos ensina que para se conseguir justiça é preciso enfrentar com rigor e obstinação os males da passividade, nesta parte da obra, O capelão da penitenciária narra uma lenda a Joseph k, personagem central da trama :

Manuscrito original de O processo consrvado em Marbach, Alemanha

"Conta ela que um cidadão foi detido por uma sentinela diante de uma porta, que era a porta da Lei. O cidadão quer entrar porém o guarda não o permite. O cidadão pergunta se poderá entrar mais tarde e o guarda lhe responde:"Talvez. Mas não agora". Ao perceber que o cidadão está procurando olhar através da porta, o guarda previne: 'Se te sentes assim tão atraído, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, advirto que sou forte. E embora forte, sou o mais ínfimo dos guardas. De sala para sala as portas serão guardadas por sentinelas cada vez mais fortes...'
...O cidadão se instala diante da porta e passa toda sua vida na expectativa de um dia poder obter permissão para entrar. Já velho e a morrer, indaga da sentinela: 'por que, durante todos estes anos, não apareceu aqui outra pessoa que não fosse eu, querendo entrar por esta porta?'. O guarda responde: 'Porque esta porta não existia senão para ti, só tu tinhas o direito de entrar por ela e agora , a morreres, vou fechá-la'. E fecha...
Joseph K, o personagem, revolta-se contra a atitude do guarda e acredita que ele agiu de má fé. Entretanto, o padre que havia feito a narração o critica e o adverte de que a lenda é deveras complexa e encerra inúmeras interpretações. O intuito do capelão, por sua vez é obscurecer o entendimento da narração envolver o espírito do acusado em grande desordem.
Mas a lenda era bem clara: O cidadão cometeu o pecado da obediência. Ele não ousou discordar da absurda autoridade nem questionar sua legitimidade".
Konder acrescenta: "O próprio Joseph K, ao longo do seu monstruoso processo luta para sobreviver, mas morre porque nunca leva a sua luta contra a desumana organização judicial às últimas consequências. O guarda da porta da Lei era um empulhador. O capelão, tentando obscurecer com interpretações contraditórias o sentido da lenda era outro empulhador. Por não terem sabido definir claramente a empulhação e por não terem tomado uma posição radical de luta prática contra ela, os personagens de Kafka se viram triturados pela engrenagem dos empulhadores..."

Várias outras de suas obras vêm corroborar essa ideia do inconformismo diante dos percalços da vida. Esse pensamento é recorrente em diversas outras obras de Kafka, além de O Processo, aqui citado. Assim também ocorre em A Toca - Uma advertência contra a inércia causada pelo medo. Esse pensamento também permeia outra de sua obra Um Velho Manuscrito, que sugere a busca em nós mesmos a coragem imprescindível para fugir dos opressores.“As ideias implícitas nas estórias citadas são mais lúcidas do que as idéias filosóficas que expunha para si próprio e para os amigos, fora da criação literária. Estas últimas , um pensamento filosófico discutível; as outras, o artista de gênio, a visão correta de uma vigorosa imaginação criadora."


Fonte: Leandro Konder em Kafka- Vida e Obras


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