segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Outros Crimes Exemplares - Remorso

Imagem: Salvador Dali - Remorso


Morreu precocemente aos 28 anos.
Eu não teria pedido para que ele preparasse um arroz refogado, se imaginasse que o infeliz não sabia o  que era colorau.
Mas não sou dessas que toleram perguntas imbecis e por isso decidi servir-lhe aquela salada de vegetais estragada.
Confesso que não foi uma boa ideia. O botulismo é terrível e o seu fim foi lento e doloroso. E disso eu sinto remorsos.
Afinal, ele era um bom  homem e merecia uma morte abreviada.

Inês Mota



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Outros Crimes Exemplares - A desleixada.

Imagem: Dan May

Não, não fiz de propósito!
Sou um cabeleireiro de prestígio e muito habilidoso, mas qualquer um está sujeito a manias e eu, que não sou exceção, também tenho as minhas: detesto caspa.
Comecei a cortar o cabelo dela e as caspas molhadas pareciam farelos de aveia.
A princípio, fui indulgente e com toda a paciência retirava-as com o pente fino. Mas tolerância, convenhamos, também tem limites.
A frase indignada caspa, eu?, foi a gota d'água, digo, a pá de terra.
Comecei com uma pequena cutilada na nuca e, resoluto, fui até o fim.

Foi mais forte do que eu
Qualquer pessoa no meu lugar faria o mesmo.

Inês Mota



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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Outros Crimes Exemplares - O Símio



Comia bananas como um símio esfomeado.
Começava fazendo cinturas na fruta com mordidinhas de baixo pra cima  e de cima para baixo.
Depois, fazia pequenas pausas e fitava-me franzindo o cenho e mostrando os dentes amarelos e carcomidos.
Enquanto roía a casca, soltava sons guturais como estertores de um moribundo.
Não satisfeito, sorria como se zombasse da minha extrema capacidade de tolerância.
Que ser humano pode suportar tamanho despautério?
O trabalho, confesso, foi cansativo porque a penca era muito grande. Porém, foram as últimas bananas da terra que ele saboreou.

Inês Mota


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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Outros Crimes Exemplares - Cada um tem a Pasárgada que merece.



Estou pensando em ir emboraquero voltar para o meu torrão.
Dia e noite era essa cantilena, queixando-se que sentia saudades da sua terra, uma pequena cidade praieira nos cafundós do Ceará.
Amiúde, tinha uns banzos medonhos relembrando dos amigos, das aventuras, dos banhos de rio e de mar e das pescarias, dos sons da cidade.
Sentia saudades de andar de bicicleta, dos dias ensolarados, das serestas em lua cheia.
De montar um burro brabo, da festa do Bom Jesus dos Navegantes, da comida caseira e das histórias que a sua mãe contava. 
Era um homem jovem e saudável  e teria vivido muito não fosse a estupidez de incluir no rol dos saudosismos, a primeira namorada e as memoráveis farras com as meretrizes da cidade. 
O vinho, que preparei potencializou o efeito do veneno e tudo não rendeu 5 minutos.
Agora, ele escuta o som do silêncio e os carpidos de sua mãe, Dona Bia de Cazuzinha.
Justa que sou, permiti que fosse enterrado onde queria estar vivo.
Cada um tem a pasárgada que merece.


Inês Mota


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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobre um luar de agosto

Imagem: Internet

Na manhã de domingo, sob o ar impregnado de um odor enjoativo, despertou com o sol batendo no rosto e com o mugido melancólico dos bois. Sentia-se abatida e  movimentava-se com dificuldade já que o corpo todo lhe doía.
Na noite anterior havia feito uma breve visita  ao amigo Antônio na fazenda vizinha. Conversaram na varanda enquanto tomavam vinho e regressara a casa por volta da meia noite.
Agora, tudo que  precisava era sair o mais rápido possível da atmosfera modorrenta do curral e apagar quaisquer vestígios do recorrente pesadelo.
Entrou em casa e subiu até o quarto. Como de costume, tomou um banho demorado, colocou as lentes de contato verdes para encobrir o residual vermelho na cor dos olhos, cortou a enorme garra - desta vez no dedo indicador direito -, aplicou cicratizante nos arranhões, depilou um tufo de longos pelos ásperos que se destacava no ombro esquerdo e desceu até o canil. Recolheu o corpo destroçado do seu cão labrador e o enterrou no jardim. Limpou as marcas de sangue do chão e em seguida, ligou insistentemente para o amigo Antônio a fim de  confirmar o passeio de barco.  Compreendeu então que  ele não poderia atender.
E tudo se consumava mais uma vez.


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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Morreu como um passarinho

Imagem: Desconheço autoria

Reconheço que fui negligente.
Porém, sempre pus à sua disposição os alimentos mais saudáveis.
Oferecia pedaços suculentos de manga, fatias de banana e melancia, de abacaxi, cubinhos de melão e mamão e saborosas uvas.
Tentei seduzi-lo com mingau de aveia, pão integral de 12 grãos, granola light com canela e mel, tofu e farelos de soja. Ele rechaçava tudo com o maior desprezo.
Então o deixei à vontade.
Assim, irrompia como uma flecha pela minha janela e só tinha olhos mesmo para o gorduroso queijo de manteiga, a pamonha quentinha, o pudim de leite condensado e o arroz refogado que audaciosamente beliscava enquanto ainda estava cozinhando.
Não dispensava a macarronada, a pizza e tampouco o guaraná, tudo furtado com a maior destreza.
Confesso que detestava quando ele comia o bolo de chocolate deixando a mesa repleta de farelos negros. Mas gostava dele.
Morreu como um passarinho obeso.
Quem mandou ser um pardal moderno?



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Natimorto

Imagem: Frida Kahlo

Fi-lo,
não nego 
renego
 o tardio parto.
 rebento indigente,
de vestes tão ralas
de tão tosco pano.
que fio ordinário
urdiu obtusos versos?


Inês mota

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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Laura

(Imagem da Internet: Desconheço autoria)

No dia em que nasceu do ventre de Maria Antônia, se chamava Laura.
Não tardaria a se chamar Laura de Maria Antônia de Zé Camelo.
Ao casar-se, virou Laura do coronel Murilo Gondim.
Insana, tornou a ser Laura.
Sem sobrenome e sem dono.
Louca e livre.

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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Abdução

Imagem: Papel de parede Magnathorax - O Segredo do Triângulo das Bermudas

Quando Joãozinho galgou o pé de feijão transgênico deparou-se com Gigante, o anão, conversando com Ave, a centopeia de trilhões de pares de pernas. Os dois brincavam em torno de uma casa decorada com deliciosas iguarias que iam saboreando enquanto conversavam.

Ave exibia uma meia diferente em cada pé e se divertia com um chocalho repleto de objeto coloridos, enquanto Gigante enchia de bugigangas a enorme carroceria do seu caminhão.

Foi assim que Joãozinho entendeu o intrigante mistério das coisas que sumiam misteriosamente de sua casa: além das guloseimas, como potes de Nutella, sorvete de flocos, chocolates, castanhas, brigadeiros, trufas e fatias bolo de aniversário, encontrara tigelas sem tampa, tampas de tigelas, tarraxas de brincos e brincos solitários. Dezenas de agulhas de coser, carretéis de linha, rabicós, tampas de canetas e canetas sem tampas. Havia pilhas de papeizinhos com números de telefones importantes, além de pentes e escovas, grosas e mais grosas de grampos de cabelo, inúmeros pés de meias descasados e grande quantidade de carregadores de celular.

Urgia voltar pra casa e cerrar portas e janelas. 

Em poucos minutos um curioso quadrante se abriria novamente e mais uma leva de coisas iria para o espaço.

Inês Mota

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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Lamento ou sobre a loucura que não consegui organizar ou como não escrever um poema ou...ou...ou...ou

imagem:Jean-Michel Basquiat



Achei por aí uns versos meus que não ousei escrever. O soberbo poema repousa em coxim com o epíteto: exercício poético. Ele não me viu.

Mãe desnaturada sou eu. Não o pari, tampouco o adotei. Nem quis saber quem o engendrou e o firmou.

Da minha coletânea tão vasta - tenuíssima poeira dispersa - raros verbos se saturam e se precipitam. Depois, sucumbem ante meu lápis e maculam meu papel de pão.

Mas só quando chove ou faz lua cheia.

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domingo, 15 de agosto de 2010

Mea Culpa

Foto: Inês Mota

Paulo, meu neto, tem quase 5 anos. Ontem, depois de uma incursão com um grupo de amigos pelo Bloco 10, voltou com um galo feio na testa.
A despeito das chacotas que fazemos de que ele é o chorão da praia, não costuma ser mofino diante dos pequenos infortúnios próprios da tenra idade. Tanto que toma vacinas e injeções avisando logo que não vai chorar, pois trata-se apenas de uma picada de formiga e no máximo vai emitir um discreto ai.
O pranto, via-se, não era espontâneo, mas fomentado pela gravidade que os próprios amigos pareciam imprimir ao fato, e ele provavelmente sentiu algo distinto da reação que costumava captar diante das menos graves desditas anteriores. Tanto é que vez ou outra cessava o choro e olhava confuso para cada um dos companheiros, buscando subsídios a veredicto menos preocupante.
Desvende o resto do texto aqui:
http://objetobscuro.blogspot.com/2010/08/mea-culpa-ines-mota.html


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Memória olfativa

Imagem da internet- Desconhe


Enquanto ouço o barulhinho monótono da lavadora, me veio à memória o penoso trabalho que era lavar as roupas da nossa casa na época em que eu era  uma criança com 9 ou 10 anos de idade.
Éramos já uma família numerosa e essa tarefa era minha responsabilidade
Antes de o sol sair, eu e um dos meus irmãos mais novos, meu auxiliar, nos dirigíamos a uma lavanderia pública. Quando possível, escolhíamos a pedra mais próxima da caixa d’água para facilitar a tarefa. Com os equipamentos a postos, uma bacia, uma lata grande de zinco e um banquinho, iniciávamos o serviço.
Desvende o resto do texto aqui:
http://objetobscuro.blogspot.com/2009/06/memoria-olfativa.html

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sábado, 14 de agosto de 2010

Fórceps

Añañuca amarela, flor do deserto. Por Leon Calquin

O poema na escrvaninha é mudo
a ideia é surda
a mão é inútil
suspira
inerte

O poema na escrivaninha é surdo
a mão é muda
a ideia é inútil
suspira
 inerte



O poema na escrivaninha é inútil
a ideia é muda
a mão é surda
suspira
inerte

A escrivaninha
a mente árida
a mão submissa



 o poema 

 inerte
 inútil

 surdo
mudo

germinará?



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sábado, 7 de agosto de 2010

Fantástico Realismo

(Todas as imagens: Rob Gonsalves)

Os dias nublados que são especialmente mágicos aos olhos de Agnes são também aqueles em que parece haver algo de tenebroso na atmosfera que inquieta sua alma. Urge escalar o galho mais alto da cajaraneira e espreitar pelo caleidoscópio:
Vó Chiquinha chama porcos e galinhas com um cuxe, cuxe, um tico, tico, tico. Vaidosas, elas não querem molhar a plumagem e logo se empoleiram, ao ouvir do Vô Joca que o pai da coalhada anuncia um pé d´água. O porco Joaquim, coitado, que ficou surdo com o barulho da bigorna do Janúncio, nesse dia não voltou ao chiqueiro. Nem nesse dia nem nunca mais. Dizem que anda de bicicleta na Granja do seu Ramiro, entregando cartas para os que sentem saudade.


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terça-feira, 27 de julho de 2010

Cinzel

(Imagem colhida do site do artesão)


No lugar ermo da Caatinga que lembra o fim do mundo, o barro é arrancada a golpes de picareta pela mestre Bissinha.

Sob o olhar atento da discípula, aos poucos as preciosas entranhas da terra vão se avolumando em dois recipientes.
O maior, uma lata de querosene 'Jacaré'.
A, outra, uma embalagem de manteiga do programa americano 'Aliança para o Progresso'. A estampa retrata o aperto de mão imperialista recebido de bom grado pelo miserável do terceiro mundo.

No caminho de volta, o sol cozinha a pele e as bordas das latas lanham as mãos. As rodilhas de molambo inutilmente tentam cumprir a tarefa de minimizar a pressão da carga sobre as cabeças.

O quão insignificante é a fadiga diante da iminente recriação do mundo a partir do barro.

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domingo, 25 de julho de 2010

Ontem

Imagem da Net

Os pés descalços no leito seco do  rio Piranhas. As mãos miúdas cavam em busca da granulação mais fina da areia que irá polir as panelas da mãe. 


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Detalhe

Imagem da Net

Pela fresta do assento do ônibus vislumbram-se costuras de traços trôpegos e cores distintas na etiqueta que o homenzinho insite em manter na velha calça jeans.


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sábado, 19 de junho de 2010

Deserto - Victor Barone

(Foto: Erick Reis)


Deserto
em minha boca
seca a palavra
cala o poema.

Meada
rompida em minha mente
se desfaz em fiapos.

Deserto
em minha alma
seca o poema
cala a palavra.

De certo
a palavra seca
germinará
calma.


'Deserto' está no livro "Outros Sentidos"- Victor Barone (07/2008)

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