quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Borges e eu - Borges.

(Imagem: desconheço autoria)

Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, na contemplação do arco de um saguão e da cancela; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agra­dam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o sabor do café e a prosa de Stevenson; o outro comunga dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atribu­tos de um actor. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não seja de alguém, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamen­te, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco vou-lhe cedendo tudo, ainda que me conste o seu perverso hábito de falsificar e magnificar. Espinosa entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro.

Não sei qual dos dois escreve esta página.



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5 comentários:

Theo G. Alves disse...

borges é sempre fabuloso, fabular. sua literatura é certamente o que de mais bonito li nessa vida. a dele e a do outro.

abraço!

Jens disse...

Oi Inês.
Redescobrindo Borges, suponho. Só posso te desejar boa viagem.

beijo.

Ines Motta disse...

Verdade, Jens!
Pouco tempo e pouca inspiração pra escrever. Viajo a viagem do outro.
Beijos!
Obrigada aos dois pela visita.

wallace disse...

Olá Inês! Não conhecia esse texto do borges. Coisa boa de se ler... bjs!

Virgílio Brandão disse...

Inês... que bom encontrar quem, parece, gostar de Borges como eu!

Estive de férias, e aproveitei para colocar alguma leitura em dia, e reler outras coisas; entre estas estavam a beleza e o fantástico: JL Borges e Adolfo de Bioy Casares.

Como gosta de Borges, vou enviar-lhe este poema que publicou, «Borges y Yo», em formato mp3 e na voz do poeta de Buenos Aires Genebra.

Dia bom