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sábado, 29 de fevereiro de 2020

Fissuras


(Imagem: Salvador Dalí)

A cidade era de pouca chuva, mas quando isso acontecia vinham as trovoados, os relâmpagos e os raios.
Eram muitos raios que teciam teias de aranhas douradas no céu escuro.

Os raios caíam mais de uma vez no mesmo lugar: sobre minha casa e minha cabeça.
Foram tantas as ocorrências que, certa vez, olhando-me no espelho, percebi que a minha alma apresentava discretas fissuras.
Com o passar dos anos, as fissuras evoluíram e aos poucos se transformaram em fendas profundas. Profundas. Cada vez mais profundas.
Ocorreu-me não dar importância ao episódio e por muitos anos recusei-me a conferir o estado da minha alma.

Numa noite de São João em que fui atingida por inúmeros desses raios, não pude mais ignorar o meu destino.
Diante do espelho, ainda pude ver os cacos da minha alma no exato instante em que desmoronava num grito lancinante e repousava inerte sobre o assoalho. 
Sem saber como recompô-la, desde então eu sou apenas um corpo onde os sonhos não perduram.
Que não envelhece e não mais sente dor.

Inês Mota

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segunda-feira, 13 de abril de 2009

"Só gorjeando a sua dor exalam"

Não que ela estivesse infeliz na nova morada.
Tudo parecia perfeito, não fosse o passarinho que cantava tristemente numa gaiola ao lado da sua janela.
Um dia, abriu a portinhola e fez vários movimentos a fim de que ele percebesse a abertura e escapasse para a liberdade.
O pintassilgo, porém, dava voltas no exíguo espaço, chegava até à porta e recuava. Repetia os movimentos e a olhava, confuso.
Estariam seus olhos acostumados ao desenho das grades da clausura ao ponto de renegar o azul do céu? As suas asas estariam pesadas, dormentes e inaptas ao vôo? Teria perdido a capacidade de buscar alimento e sobrevivência junto aos seus iguais?
E se, ao contrário do que ela supunha, ele estivesse feliz e sereno ainda que condicionado pela total falta de expectativa que lhe fora imposta ?
Nunca saberia.
Dois dias depois, os vizinhos choraram ao sepultar o pequenino corpo na lata de lixo.
Ela sorriu. Sentia-se tão livre quanto o Pintassilgo.

* Imagem: Pintura de Magritte
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