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Tudo parecia perfeito, não fosse o passarinho que cantava tristemente numa gaiola ao lado da sua janela.
Um dia, abriu a portinhola e fez vários movimentos a fim de que ele percebesse a abertura e escapasse para a liberdade.
O pintassilgo, porém, dava voltas no exíguo espaço, chegava até à porta e recuava. Repetia os movimentos e a olhava, confuso.
Estariam seus olhos acostumados ao desenho das grades da clausura ao ponto de renegar o azul do céu? As suas asas estariam pesadas, dormentes e inaptas ao vôo? Teria perdido a capacidade de buscar alimento e sobrevivência junto aos seus iguais?
E se, ao contrário do que ela supunha, ele estivesse feliz e sereno ainda que condicionado pela total falta de expectativa que lhe fora imposta ?
Nunca saberia.
Dois dias depois, os vizinhos choraram ao sepultar o pequenino corpo na lata de lixo.
Ela sorriu. Sentia-se tão livre quanto o Pintassilgo.
* Imagem: Pintura de Magritte
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3 comentários:
Inês,
De fato, é uma tremenda coincidência que os nossos textos falem de pássaros aprisionados. Gostei também do seu relato, sintético, bem escrito e com um final imprevisível. Aproveito para agradecer sua amável visita ao Luzes da Cidade e, principalmente, por saber que ele é acompanhado por você. Um beijo.
Oi Inês.
Para quem vê de fora, é triste quando o prisioneiro se acostuma à sua cela a ponto de não querer ultrapassar o espaço delimitado pelas grades. Porém, supeito que, depois de algum tempo, o prisioneiro viva bem com esta condição, principalmente se for humano. Afinal, o homem é um animal que se acostuma a tudo.
Um beijo.
Concordo com você, jens.
Quem sabe este pássaro seja só uma metáfora...um outro animal, o homem.
Beijos.
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