terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Fissuras


(Imagem: Salvador Dalí)

A cidade era de pouca chuva, mas quando isso acontecia vinham as trovoados, os relâmpagos e os raios.
Eram muitos raios que teciam teias de aranhas douradas no céu escuro.

Os raios caíam mais de uma vez no mesmo lugar: sobre minha casa e minha cabeça.
Foram tantas as ocorrências que, certa vez, olhando-me no espelho, percebi que a minha alma apresentava discretas fissuras.
Com o passar dos anos, as fissuras evoluíram e aos poucos se transformaram em fendas profundas. Profundas. Cada vez mais profundas.
Ocorreu-me não dar importância ao episódio e por muitos anos recusei-me a conferir o estado da minha alma.

Numa noite de São João em que fui atingida por inúmeros desses raios, não pude mais ignorar o meu destino.
Diante do espelho, ainda pude ver os cacos da minha alma no exato instante em que desmoronava num grito lancinante e repousava inerte sobre o assoalho. 
Sem saber como recompô-la, desde então eu sou apenas um corpo onde os sonhos não perduram.
Que não envelhece e não mais sente dor.

Inês Mota

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5 comentários:

Moacy Cirne disse...

Ótimo, Menina, ótimo!

Um beijo.

Dilberto L. Rosa disse...

A moça está se especializando na Poesia por dentro do realismo fantástico?! Ótimo! Acho até que poderias esticar a estória para braços maiores, o tema é farto... Mas este ritmo célere seu casou-se perfeitamente com o mini-conto, parabéns! Abração!

Rossana disse...

Então explicado está o fato para sua eterna juventude...rs

Jens disse...

PQP!, muito, muito bom. Como disse o Moacy: ótimo!

Beijo.

Moacy Cirne disse...

Minha cara,

você está no Balaio de hoje.

Um beijo.