terça-feira, 7 de setembro de 2010

Outros Crimes Exemplares - Cada um tem a Pasárgada que merece.



Estou pensando em ir emboraquero voltar para o meu torrão.
Dia e noite era essa cantilena, queixando-se que sentia saudades da sua terra, uma pequena cidade praieira nos cafundós do Ceará.
Amiúde, tinha uns banzos medonhos relembrando dos amigos, das aventuras, dos banhos de rio e de mar e das pescarias, dos sons da cidade.
Sentia saudades de andar de bicicleta, dos dias ensolarados, das serestas em lua cheia.
De montar um burro brabo, da festa do Bom Jesus dos Navegantes, da comida caseira e das histórias que a sua mãe contava. 
Era um homem jovem e saudável  e teria vivido muito não fosse a estupidez de incluir no rol dos saudosismos, a primeira namorada e as memoráveis farras com as meretrizes da cidade. 
O vinho, que preparei potencializou o efeito do veneno e tudo não rendeu 5 minutos.
Agora, ele escuta o som do silêncio e os carpidos de sua mãe, Dona Bia de Cazuzinha.
Justa que sou, permiti que fosse enterrado onde queria estar vivo.
Cada um tem a pasárgada que merece.


Inês Mota


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3 comentários:

Jens disse...

Má, você é má, Inês. Ou não. Se o indigitado partiu como eu imagino, morreu feliz.
Mais um mini-conto delicioso.

Um beijo.

Dilberto L. Rosa disse...

Genial, minha cara, parabéns: uma dose de lirismo sarcástico e sardônico sobre a vida e a morte! Melhor que isso só o "grito" do Hommer pelo 'donnut'! Abração, sumida!

sam rock disse...

Morir joven no creo que sea nada romántico. Lo digo con conocimiento de causa. Cuantos sueños truncados.

Un abrazo