segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Kafka e sua obra: pessimismo?

(Imagem by me )


No entendimento do filósofo e escritor brasileiro Leandro Konder, não.

No seu livro Kafka- Vida e Obras, Konder argumenta que enquanto filósofo, Kafka foi levado a adotar ideias pessimistas. Certa vez em conversa com um amigo, Kafka afirmou de forma negativa e radical: "Somos pensamentos niilistas aparecidos no cérebro de Deus. Somos um de seus maus humores, um dia ruim d'Ele". E quando o amigo indaga, se então havia esperança, ele retruca: "Para Deus, sim. Mas não para nós".

 É necessário, entretanto, separar as ideias de cunho pessoal do escritor quando se restringia a pensamentos filosóficos das ideias que ele traz implícitas na sua obra. E felizmente, para nós, Kafka foi um artista e não um filósofo. "Essa criação artística vem corrigir a deformação pessimista e conservadora de algumas de suas ideias filosóficas", diz Konder, que argumenta:

"Em suas obras de ficção, Kafka não foi pessimista. A moral do pessimista é mais ou menos a seguinte: Não adianta fazer nada, porque o mundo é uma porcaria e há de ser sempre assim como está'. A moral das estórias de Kafka é muito diferente. Se podemos resumir a lição que Kafka nos dá, devemos dizer que seus livros são gritos de alarme, são denúncias, avisos de perigo, e não aconselham ninguém a se resignar com a situação a que o mundo chegou."

Um dos exemplos que mais ilustrariam o humanismo ativo presente na obra kafkiana, nos é apresentada no seu livro O Processo. Em determinado trecho da obra, no capítulo Diante da Lei, nos ensina que para se conseguir justiça é preciso enfrentar com rigor e obstinação os males da passividade, nesta parte da obra, O capelão da penitenciária narra uma lenda a Joseph k, personagem central da trama :

Manuscrito original de O processo consrvado em Marbach, Alemanha

"Conta ela que um cidadão foi detido por uma sentinela diante de uma porta, que era a porta da Lei. O cidadão quer entrar porém o guarda não o permite. O cidadão pergunta se poderá entrar mais tarde e o guarda lhe responde:"Talvez. Mas não agora". Ao perceber que o cidadão está procurando olhar através da porta, o guarda previne: 'Se te sentes assim tão atraído, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, advirto que sou forte. E embora forte, sou o mais ínfimo dos guardas. De sala para sala as portas serão guardadas por sentinelas cada vez mais fortes...'
...O cidadão se instala diante da porta e passa toda sua vida na expectativa de um dia poder obter permissão para entrar. Já velho e a morrer, indaga da sentinela: 'por que, durante todos estes anos, não apareceu aqui outra pessoa que não fosse eu, querendo entrar por esta porta?'. O guarda responde: 'Porque esta porta não existia senão para ti, só tu tinhas o direito de entrar por ela e agora , a morreres, vou fechá-la'. E fecha...
Joseph K, o personagem, revolta-se contra a atitude do guarda e acredita que ele agiu de má fé. Entretanto, o padre que havia feito a narração o critica e o adverte de que a lenda é deveras complexa e encerra inúmeras interpretações. O intuito do capelão, por sua vez é obscurecer o entendimento da narração envolver o espírito do acusado em grande desordem.
Mas a lenda era bem clara: O cidadão cometeu o pecado da obediência. Ele não ousou discordar da absurda autoridade nem questionar sua legitimidade".
Konder acrescenta: "O próprio Joseph K, ao longo do seu monstruoso processo luta para sobreviver, mas morre porque nunca leva a sua luta contra a desumana organização judicial às últimas consequências. O guarda da porta da Lei era um empulhador. O capelão, tentando obscurecer com interpretações contraditórias o sentido da lenda era outro empulhador. Por não terem sabido definir claramente a empulhação e por não terem tomado uma posição radical de luta prática contra ela, os personagens de Kafka se viram triturados pela engrenagem dos empulhadores..."

Várias outras de suas obras vêm corroborar essa ideia do inconformismo diante dos percalços da vida. Esse pensamento é recorrente em diversas outras obras de Kafka, além de O Processo, aqui citado. Assim também ocorre em A Toca - Uma advertência contra a inércia causada pelo medo. Esse pensamento também permeia outra de sua obra Um Velho Manuscrito, que sugere a busca em nós mesmos a coragem imprescindível para fugir dos opressores.“As ideias implícitas nas estórias citadas são mais lúcidas do que as idéias filosóficas que expunha para si próprio e para os amigos, fora da criação literária. Estas últimas , um pensamento filosófico discutível; as outras, o artista de gênio, a visão correta de uma vigorosa imaginação criadora."


Fonte: Leandro Konder em Kafka- Vida e Obras


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