domingo, 1 de janeiro de 2012

Matrix. Realidade, ilusão, ciência – Reloaded



Meu nome é Morpheus. Alguns insistem em fazer analogias associando meu nome à figura do pregador João Batista, mas isso não tem o menor fundamento, acreditem. A nave na qual viajo se chama Nabucodonosor, porque certa vez sonhei com a destruição de Jerusalém, embora até hoje não saiba o que isso quer dizer. O onirismo às vezes nos prega dessas peças.

Venho em missão secreta, do centro quente da terra de Sião, a última cidade dos seres livres. Sou o visionário que lutará para libertar a humanidade do domínio das máquinas. Embora plasmado em imagem masculina, advirto que sou mulher mesmo e só usei a indumentária na película porque estava vindo de uma dessas modernas e ridículas festas temáticas para adultos.
Metaforicamente sou o componente yang da psique… putz, yin, deixa de novela e segura a droga desse microfone!… Continuando, sinto informar que não surtiu o efeito esperado tapar o sol com a peneira, Vocês esqueceram esta velha máxima? Por que os algozes usariam a energia solar se podiam recorrer à fonte dos próprios humanos, mais abundante e barata?
Repudio a ideia de ver vossas mentes conectadas em Realidade Virtual e abomino esses campos de cultivo, em que casulos aprisionam vossos corpos para alimentar as insaciáveis máquinas. Gostaria que soubessem o quão lamento vê-los manipulados, customizados no brechó da esquina e deslumbrados com as reprises das novelas globais.

Agora, as máquinas evoluídas pela AI reinam absolutas sob o comando do Agente Smith, especialmente programado para manter a ordem dentro do sistema e pronto para fazer uma faxina e exterminar humanos e programas instáveis na realidade simulada. Elas querem vossas energias, vossos votos para reeleger Dilma daqui a quatro anos, vossos incondicionais apoios à CPMFs (1), vossas certidões de idade, vossos cartões de crédito, vossas mãos em casamento e muito mais. Por isso, insisto, está na hora de fugir da caverna do senso comum e superar a ignorância rumo à filosofia. As dúvidas de como vencer essa árdua jornada poderão ser encaminhas ao site do Platão, aberto 24 horas por dias, inclusive nos fins de semana.

Insito, nem tudo está perdido, pois vislumbro um ser dentre vós, o Escolhido, capaz de controlar e derrotar os mecanismos antivírus da poderosa Matrix. Seria Anderson, o filho de André, o Hacker filho do homem, o ego psicologicamente representado, o neo Neo com excelentes e comprovados reflexos para apanhar sabonete no banheiro e messianicamente ressuscitado na sala 303 após beijo caloroso de Trinity?
Para verificar a identidade do Escolhido é preciso consultar o Oráculo – uma senhora casada com um carpinteiro de nome José – que sabiamente assertou “A nossa escolha é a repetição das nossas escolhas”. Por vezes ela aparece disfarçada de vendedora de hambúrguer(2) no McDonald’s e pode-se identificá-la facilmente pela canção “I’m Beginning to See the Light” (‘Estou Começando a Ver a Luz’), de Duke Ellington, que ela costuma entoar ouvindo o seu radinho de pilha ABC. Mas todo Oráculo que se preza tem a proteção do seu Cérbero de guarda ou espírito superior e assim Neo será testado e enfrentado por Seraph antes de este o conduzir até ela.
E não se enganem. Pode ser um contrassenso, mas Neo estaria perdido sem esse amparo, ainda que o Oráculo não forneça respostas, só escolhas. Eu mesmo, Morpheus, quando Neo decidir  ingerir a pílula vermelha que o deixará na maior lombra à la “Lucy in the Sky with Diamonds”, o alertarei: “ Esse home precisa entender que estou tentando libertar sua mente. Mas eu só posso mostrar a porta. E esse home é que tem que decidir se quer atravessá-la ou não.” Basta ver que o Kafka já sabia sobre o poder das escolhas, do livre-arbítrio, tanto que a porta da justiça permaneceu fechada diante do homem que não ousou enfrentar as adversidades que o adentrar reservava. E sabe-se que a passagem estava ali exclusivamente para ele.

E tem mais. Toda cautela é pouca com Cypher. Ainda que seu nome lembre Lúcifer – ele está mais pra Judas do que para anjo caído. É a encarnação do mal, a traição, o retrocesso total do eu e defende a ilusão como mais interessante do que a realidade ou “olhos que não veem, coração que não sente”. Costuma recorrer a citações do Mecanismo de Defesa do Ego (MDE), sem os devidos créditos e sem pagar pelos direitos autorais.
Por outro lado, Trinity, o aspecto yin da psique, pode ajudar muito. A não ser que yang, por sua personalidade possessiva e ciumenta, não o permita. Trinity é o apoio físico e espiritual ao Escolhido, a trindade que se resume em 4: pai, filho, espírito santo e assim seja. Recomendo tratá-la com o maior recato e prudência. Chamá-la inadvertidamente de Madalena seria um erro crasso que a deixaria puta para o resto da vida.




Assim, o Escolhido deverá seguir os coelhos brancos mutantes que aterrorizam rancheiros do Arizona, além de dominar o conhecimento sobre o alfabeto japonês ao contrário, a fim de desvendar os seguintes enigmas:
Por que aqueles Cavaleiros continuam dizendo “Niilismo”?
Por que Lula deixou de usar o famigerado “Companheiros”?
Por que a Capitania Hereditária do Maranhão não foi extinta junto com os dinossauros?
Por que herbívoros como a cabra, o cavalo, a vaca e o elefante, com dietas similares, apresentam excremento sólidos de formato e volume tão distintos?



A seguir, serão fornecidas algumas pistas elucidativas, pelo reconhecimento aos esforços de centenas e centenas de pessoas que visitarão este blog na tentativa de decifrar o enigma, cujos comentários não serão divulgados aqui devido a problemas técnicos verificados na transmissão de dados da nave-mãe à nave-filha, que se encontradeslumbrada com as babaquices do Big Brother. Assim, as informações poderão ser repassadas ao Enviado, por mensagens através do Twitter, do Facebook, do Orkut, do Badoo, do MySpace, do Hi5, Windows Live, Netlog e outras tantas redes sociais:
Os Cavaleiros do Monty Python permanecerão dizendo Ni e pedindo um shrubbery na Amazônia. Pode parecer absurdamente nonsense esmolar um shrubbery numa floresta tão majestosa, mas da maneira como anda o desmatamento, nem o carrinho que anuncia “vendo arbustos” vai salvar a trupe dos míticos cavaleiros. E, ainda que este planeta se vá pelas mãos do homem ou pelas motoserras nas mãos do homem – os satélites e as ondas magnéticas das TVs a cabo ou não já providenciaram a disseminação eterna dos Nis pelo Cosmos. Os legendários Cavaleiros querendo ou não.

Quanto aos excrementos dos herbívoros ruminantes, é tudo muito óbvio e o quesito figurou aqui apenas para avançar com o discurso e atender às exigências da titular deste blog, que não permite posts sucintos: Ora, a aparência e o volume do produto final não estão diretamente atrelados ao tipo de matéria-prima que entra e sim aos meandros internos de circulação e às dimensões do espaço por onde sai. Assim sendo, está clara a razão pela qual um pobre cabrito não poderia defecar qual um cavalo. Por sua vez, o elefante, por motivos idênticos e dado o seu porte magnífico, se evacuasse tal qual um cabrito, seria ridicularizado na selva, e o leão do imposto de renda, um felídeo bastante feroz, impiedoso, e oportunista, o emboscaria e o comeria rapidinho, bem antes de a pequena empresa completar o seu primeiro ano de atividade, embora o rei barbudo da selva esteja pouco se lixando para isso. Certa vez, ao ser indagado por agentes de terno preto e óculos escuros sobre esta intrigante questão do formato dos sólidos escatológicos dos bichos herbívoros, ele, espantado, não deu explicações convincentes. Aí o bicho pegou. Os nativos correram pra cima dele com paus e pedras, tablets, ipods, ipeds  e smartphones. Como é que o rei da selva não sabia nada de absolutamente bosta nenhuma?
Mas águas passadas não movem moinhos, já diz o adágio. Portanto, não esqueçam de agir sem trapalhada, porque apelos ao estilo Tooter Turtle, “Mr. Wizard, me tire daqui”, não mais serão atendidos, porque já não haverá varinha de condão, o lagarto não possui mais poderes de teletransporte e nem poderá devolver o velho eu para quem por ventura se arrependa e queira ser feliz com o que era.

E nada de egoísmo. O que vale é a negação do indivíduo e a segurança da massa. Pelo fim da gripe suína que ninguém mais se lembra, pela melhoria do transporte  no Barsil todo e pelo fim da corrupção e da roubalheira dos nossos políticos. Abaixo a prostituição infantil descoberta pelo Fantástico, nas esquinas "Wells Lake" de Ponta Negra. Pelo fim do nitrito na água de Natal.
Abaixo o azu, viva o vermelho, pelo fim do domínio das máquinas, pela sobrevivência da espécie humana!

NOTAS
1. CPMF – A morta-viva. Seu fantasma ainda atormenta os cidadãos, ricos e pobres, desse Brasil brasileiro. Sua ressurreição pode ser iminente.
2. Hambúrguer – Um alimento para suínos e canídeos, composto por 43.569 ingredientes, dentre eles as partes asquerosas – estômago e afins – de animais domésticos.

Inês Mota



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4 comentários:

Dilberto L. Rosa disse...

Acho que já li este texto... Ou não li e seria influência desta maldita Matrix a me perturbar com suas sensações de repetitivos 'deja-vús'?! Dúvida cruel... Excelente brincadeira com filosofias à Matrix e cultura 'pop' (lembrou-me do meu humilde "Novas Cartas Chilenas"... Nem falamos mais a respeito, né?)! Um abração, sumida!

Ines Mota disse...

Voce leu, sim, Dilberto, Está no "Teia Neuronial", de Thiago.
Também é verdade que ando sumida. A universidade me toma muito tempo. (Voltei a estudar, curso Letras/Espanhol). Além disso, ando abatida, sem motivação, por causa do trágico falecimento do meu pai, há quatro meses. Obrigada pelça visita e pelo comentário.É um prazer tê-lo por aqui.

Fernando Nazareth disse...

Excelente! Bom trazer de volta.

Rocio disse...

Eu acho que é muito interessante o que acontece aqui, neste momento, eu acho que eu aprendi que o protagonista não parece bom que ele tinha que usar lentes de contato