quarta-feira, 6 de julho de 2011

Poema de Cinza - À memória de Fernando Pessoa - Por Antonio Botto *

Imagem: Inês Mota

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrêlas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que êstes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença,
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns Senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,

As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma côr, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver 
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...

Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dêle,
Do camarada raro que lembramos, 
Fiquemos uns momentos a cantar! 


* Poema extraído do livro  "Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e Antonio Botto".
Em Novembro de 1935, quando Pessoa morreu, o trabalho não estava concluído.  Foi Botto quem o terminou, selecionando poemas de José Régio, Augusto Pinto, Francisco Bugalho, João de Barros, Alfredo Guisado, Vitorino Nemésio, Carlos Queiroz, Miguel Torga, um poema ortônimo de Fernando pessoa e dos heterônimos  Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Incluiu, por fim,  o  "Poema de Cinza" , em homenagem ao amigo.
Esta edição foi  composta e impressa para a Editora Nobel na Casa Minerva, Coimbra, em fevereiro de 1944. Eu a encontrei num sebo. É numerada e traz a rubrica de Antonio Botto.

Share/Save/Bookmark

1 comentários:

Carlos Leite disse...

Eu adoro Fernando Pessoa, contudo, confesso que não conhecia este poema... Mas que belo poema! :)
Obrigado por o ter partilhado, temos um ótimo gosto ! :)


Atenciosamente,
Carlos Leite, http://opintordesonhos.blogspot.com