quinta-feira, 11 de agosto de 2011

MEMÓRIAS DE QUANDO FUI NETA II (Numa manhã de domingo, num tempo remoto).


Foto: Inês Mota
Na casa do Padrinho Amor- o tio-avô-, onde a menina reina ao lado do mano Dinarte, impera a liberdade e tudo é normal, natural e permitidíssimo. 

Ela pode derramar os esmaltes de unhas, usar o óleo de canela de boi nos cabelos e quebrar a perna da boneca de Rita. Mexer o enorme tacho de sabão de potassa que vomita bolhas fedidas a fato de bode. Soltar as cabras do curral, que correm em direção ao cocho para matar a sede. Catar os ovos nos ninhos das galinhas e, assessorada pelo irmão, quebrar todas as panelas de barro do incauto vizinho tio Chico de Joca, coitado, que ao mudar-se deixou-as sobre uma roda de carro de bois.

Embrenhar-se pelos mufumbos e juremas, a perseguir encantada, as cores dos pavões sem conseguir alcançar. Apanhar as frutas verdes e oleosas das oiticica que não prestam pra comer e fazer músicas com os chocalhinhos das vagens de gergelim. 

Espantar os porcos, guinés, perus, ovelhas e galinhas com um galho cheiroso de marmeleiro. Colher trapiás e os melões-caetanos que pendem como brincos de ouro das cercas de varas entre os pereiros.
Trepar-se no pilão da cozinha para alcançar as cabaças e admirar os filhotes no ninho de rouxinóis. 

"Tecer" pano de rede xadrez subindo e descendo os degraus do roído tear de madeira. Dar banho no pobre do gato amarelo que, com o rabo entre as pernas e um olhar rancoroso, corre agoniado direto para a rede do primo Janúncio. Comer com farinha, tripa e bofe de carneiro assados na brasa.

Embriagar-se fumando o cachimbo da tia Maria que, caçoando, adverte: " avie, menina, joga logo uma caneca d'água na parede, que o cheiro do barro acaba essa morrinha!".
Embriagada de tanto amor e carinho, caminhar pelas veredas do sítio e adormecer no mato macio, ouvindo a música do riacho do Vô Joca, que parece dizer:" sonha, menina, sonha enquanto é tempo, que sonhar faz um bem!".
Inês Mota;
Natal, 11 de agosto de 2010.
*Imagem (Penso que é de minha autoria): Casa onde nasci, no sítio Logradouro, município de São Bento (PB


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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Memórias de quando fui neta

(Imagem: Salvador Dalí)

Aos 7 anos, eu não compreendia porque o avô de uma colega tinha apenas uma esposa e achava o fato  estranhíssimo. O que? só uma? Pois o meu avô tem duas! Também achava estranho se todos os avôs não soubessem fazer tudo o que o meu sabia. Como? Ele não sabe confeccionar selas e gibão de couro, construir casas, cercas e currais, plantar uma roça de milho e feijão, escavar poços, fazer vaca parir, arrancar tatu do buraco, curar bicheiras dos cavalos, matar cobra venenosa, abater bois e carneiros e preparar a carne para  vender na feira?

O meu avó materno era João que como todos Joões virou Joca, um senhor franzino e calvo, de jeito tranquilo, de fala mansa que nos encarava sempre de frente, cabeça erguida, olhos semicerrados como se estivesse escaneando nossa alma e imprimindo nosso pensamento. Se precisasse era brabo que nem siri em lata.

Quando chegávamos de férias à sua casa era festa e liberdade total! A casa era de fato pequena, mas me parecia enorme, com suas paredes sem reboco cheias de frestas de onde eu retirava os "barbeiros" para brincar de fazenda. O piso vermelho de tijolos lisos e gastos, era frio e nos servia de cama depois do almoço.
Na sua casa, éramos recebidos por suas duas esposas. Uma de direito, as duas de fato. Nenhuma era minha avó de sangue (a  minha avó, havia morrido de parto quando minha mãe tinha pouco mais de um ano). As duas compartilhavam o mesmo teto de forma  supostamente harmoniosa e a divisão de tarefas parecia ser de acordo com o nível cultural de cada uma. Uma era instruída, falante, sabia ler, escrever e contar. Era vaidosa e gostava de viajar "ao Recife". Era minha madrinha e só eu tinha o privilégio de compartilhar os segredos e mistérios infindáveis de sua mala de madeira, grande e bonita que me embriagava com o cheiro de pó de arroz, perfumes, esmaltes e sabonetes.  A cada vez que era aberta, me fascinava, além de tudo, colada no interior da tampa, a figura de uma miss Brasil de maiô, faixa, cetro e coroa,  que vim a saber que era Ieda Maria vargas, miss Brasil e miss Mundo 1963, formando parelha com  outra de um senhor elegante que depois, soube tratar-se do Juscelino Kubitschek.

Ela organizava a casa, dava ordens e preparava os doces e compotas que eram armazenados em recipientes de barro com pinturas vermelhas e guardadas num jirau, espécie de trançado de madeira que pendia do teto preso com cordas nas extremidades. A outra, não sabia nada das letras e não primava pelo cuidados com a aparência nem pela vaidade pessoal. Era calada e arredia, possuía um vocabulário singular e se limitava a preparar a comida do dia -a- dia, a pisar no pilão,  a moer milho,  efetuar a limpeza da casa e das roupas e cuidar dos bichos pequenos no quintal.

Sinestésica desde sempre, eu associava à primeira a lençol branco, ao cheiro bom do melão, ao mar do Recife que nunca vi, à liberdade, à vaidade e ao glamour. A segunda, sempre me lembrou uma enorme panela de feijoada com pé de porco fervendo no fogão de lenha, um pilão de arroz descascado, o acridoce da coalhada com cuscuz e rapadura e o odor de penas de galinha molhadas.

Nas minhas incursões pelos reduzidos limites da propriedade eu explorava tudo, desde a casinha parede- meia - onde havia ferramentas, rações para o gado, arreios, cuias, montes de batatas e silos de zinco cheios de grãos (vedados com uma mistura de cera de abelhas e pó de tijolos,) as cacimbas, os currais e os bichos copulando, dando cria e leite. O riacho, pelo qual eu tinha certeza que se seguisse o leito  chegaria ao mar. Esse mar que de fato nunca explorei. Não por medo da viagem ou dúvida quanto à sua existência. O  que de fato me importava era preservar o mistério, pois o mar devia ser bonito demais e melhor do que vê-lo era imaginá-lo na sua imensidão azul.  Além disso, o riacho, perene, estaria sempre ali e era a via de acesso para a realização do sonho quando assim eu o desejasse.

Aos 10 anos, já há algum tempo na cidade, tudo me parecia diferente. Os interesses eram outros e já não via tanta graça no sitio do meu avó. Aos poucos as coisas se esvaiam, mudando de cor e dimensão. O verde não era mais o verde que eu vira,  as chuvas com trovões rareavam  a água se acabava, aos poucos o riacho minguava, os bichos sumiam, os silos sempre pela metade, o cachorro sarnento e magro caducava num canto da casa, as pessoas, enfadonhas e taciturnas pareciam cansadas da vida. 

Um dia meu avô se foi e vi minha mãe carpir sua dor calada, vestir preto fechado por um ano. Eu e minha irmã, usamos por seis meses -batendo e vestindo- duas mudas de roupa composta por uma saia preta e uma blusa preta de bolinhas brancas. Os meninos maiores, assim como o meu pai, usavam um "fumo" no bolso da camisa.

Depois disso, voltei poucas vezes ao sítio. As duas viúvas, como eu pude constatar, não conviviam tão bem assim e cada uma buscou seu rumo. A casa e tudo ao redor virou cinza, desolação e abandono. Só mais uma paisagem seca no sertão da Paraíba.
Apesar do gradativo distanciamento entre nós, senti muitas saudades do meu avó e por algum tempo o meu espírito infantil lembrava dele com um misto de tristeza, melancolia e rancor: como ele podia ser tão ingrato, ter morrido assim sem mais nem menos e sem se despedir de mim?

Dele, herdei  o gosto  pela organização, pelas coisas simples e bem feitas, a teimosia e a resistência às adversidades e a capacidade de ser o que ele próprio se intitulava " pau pra toda obra", além do hábito de apreciar o sabor de uma pimenta malagueta braba, que vez ou outra me assanha a gastrite crônica e causa a insônia que me  convida a registrar essas memórias.
Inês Mota

Ieda Maria Vargas Miss Brasil e Miss Universo 1963
(Imagem do site http://jhomundomiss.blogspot.com/2010/09/miss-brasil-1963-so-para-lembrar.html)

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