terça-feira, 27 de julho de 2010

Cinzel

(Imagem colhida do site do artesão)

No lugar ermo da caatinga que lembra o fim do mundo,  a argila é arrancada a golpes de picareta pela mestre Bissinha, sob olhar atento da discípula, e  aos poucos se avoluma em dois recipientes: uma lata de querosene Jacaré e uma outra menorzinha, outrora embalagem  de manteiga do programa americano 'Aliança para o Progresso', cuja estampa retrata o aperto de mão imperialista, recebido de bom  grado pelo miserável do terceiro mundo.
No caminho de volta, o sol cozinha a pele e as bordas esgarçadas das latas lanham as mãos, enquanto as rodilhas de molambo inutilmente tentam cumprir a tarefa de minimizar a pressão da carga sobre a cabeça. Mas o quão insignificante é a fadiga diante da iminente recriação do mundo a partir do barro...
E da arte advém  a pequena fortuna que a discípula usufrui da forma justa:  na Bodega do seu Benedito Coruja, adquire uma quarta de bolacha seca embrulhada em papel pardo - a festa do café da manhã com seus irmãos-; um tablete de caldo knorr, comprado equivocadamente por chocolate - a primeira  decepção infantil -; e uma pulseira de fantasia que, tempos mais tarde, é esquecida na caixa do medidor de luz que servia de cofre na antiga moradia.


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