segunda-feira, 22 de junho de 2009

Kafka em 4 minicontos.

(Kafka. Esboço de um raro sorriso...longe da opressão?)

Lamentos
São as sedutoras vozes da noite: também assim cantavam as Sereias...
Não fora de justiça, para com elas, atribuir-lhes o deliberado propósito de seduzir: elas bem sabiam que possuíam garras e nenhum seio fértil, e disso lamentavam-se em altas vozes - mas não tinham culpa de soarem tão belos os lamentos.

A Coleira
Livre e confiante cidadão da Terra, eis que está preso a uma corrente longa o bastante para lhe proporcionar a liberdade sobre todo o espaço terrestre; conquanto longa apenas de maneira a que não o solicite coisa alguma fora dos limites da Terra. É ao mesmo tempo livre e confiante cidadão do Céu, e eis que está preso a igual corrente celeste.
Quando pende muito para a Terra, estrangula-o a corrente celeste; quando pende muito para o Céu, estrangula-o a coleira terrestre...
Tem todavia todos os recursos, sente isso; sim, mas obstina-se em negar que tudo se dava a um erro inicial na fixação dos grilhões.

O pião
Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E se via um menino que tinha um pião já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda irava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade, acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto corria até perder o fôlego atrás dele. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos – fugentava- o dali e ele cambaleava como um pião lançado com um golpe sem jeito da fieira.

O abutre
Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.
- É que estou sem defesa - respondi. - Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
- Mas deixar-se torturar dessa maneira! - disse o senhor. - Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? - disse eu. - Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente - disse o senhor. - É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora?
- Não sei lhe dizer. - respondi.
Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem - disse o senhor. - Vou o mais depressa possível.
O abutre escutara tranquilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.




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sexta-feira, 19 de junho de 2009

Cuando éramos niños - Mario Benedetti

(Foto: Inês Mota)

Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía.

luego cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque era un océano
la muerte solamente
una palabra

ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en los cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros.

ahora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra.

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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Off. Diário de bordo 1

Meus queridos leitores: Gostaria de ratificar a minha mais completa inaptidão para escrever um artigo legal. E por isso, não posto nada, ainda. Ou seja, estou aqui para dizer que não estou.
Ai, ai...
Pois não é que descobri, entre surpresa, decepcionada e resignada, que não tenho leitores?
Pra você ver as criaturas como são. Eu aqui, tão enferma, coitadinha e nenhum vivente se dirigiu a minha pessoa para desejar boa recuperação. Nem um chazinho de hortelã, nem um mísero Apracur, um Anador ou um Vick Pirena.

Estou mal e com uma aparência horrível. Os olhos lacrimejam e as articulações doem a nível quase insuportável. Minha cabeça pesa uma tonelada e um aguaceiro constante escorre pelo nariz, além dos irritantes acessos de tose, do frio e das lombras da febre.

Hoje, após dois dias sem me alimentar, minha filha trouxe-me um prato de comida e gentilmente ordenou: En-gu-la!!!!!
E eu engoli. Fazer o que? Ainda que meu paladar não reconhecesse o sabor de uma cenoura e o meu olfato ignorasse o cheiro do peixe. Desceu tudo feito bucha. Segundos depois, representantes de uma pequena rebelião interna ameaçavam retornar ao lugar de origem. Ficou só na ameaça, felizmente, ainda que eu me sentisse inflada feito uma bóia. Agora sei exatamente como se sentem os pobres gansos destinados a produzir foe gras. (Ainda fazem aquilo com os bichinhos?)
Em suma, é isso.
Estou destruída. Debilitada. Logo hoje que ia começar uma série na academia pra turbinar quadríceps, glúteos, bíceps, tríceps e adjacências?...
Odeio gripe!
Mãeeê!... buá.






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domingo, 7 de junho de 2009

Off.

(Imagem: não sei a autoria)

Olá, meus queridos leitores.
Estou enferma.
Não digo que estou gripada. O termo, parece que é obsoleto.
Tenho uma virose, então. ( E gripe não é uma virose?)
Mas deixa pra lá...

Pelo menos espero não ser a gripe suína. Ops, suína também não é apropriado.É Gripe "A" .

Mas voltemos ao motivo de minha incursão a esse Objeto:
Ficarei uns dias sem postar.
E vocês hão de perguntar: E daí?
Daí, nada...!
É isso!
Até porque ando severamente infectada e afetada por outro agente não microscópico - a falta de criatividade.
Prometo voltar quando sarar dos males físicos e puder postar algo decente.
Bye.
Beijos.
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sexta-feira, 5 de junho de 2009

Caicó não tem foie gras

A nova revista de bordo das linhas aéreas TAM está circulando o mundo todo dando um excelente destaque para a cidade de Caicó através de artigo publicado pela chef Ana Luiza Trajano que esteve recentemente na cidade. Ela inicia o artigo dizendo que “A pequena Caicó, no Rio Grande do Norte, é um paraíso Goumert a ser descoberto”.

Eis o artigo:

"Os franceses têm o vinho de Bordeaux, o sal de Guérande, a Poulett de bresse, o foie grás (sic) do Périgord, o presunto de Bayonne a Pimenta de Espelette… Tantos produtos identificados como selo de qualidade de sua appellation d’origine contrôllé! A Itália também valoriza o DNA de sua comida; o queijo de Parma, a mostarda Cremona, o tomate de San Marzano, a mussarela napolitana. Nós aqui no Brasil temos as nossas excelências regionais, nem sempre, porém, reconhecidas, e eu gostaria de começar por Caicó."

Caicó? Vocês hão de perguntar. É Caicó, no Rio Grande do Norte. Eu também não sabia. Foi numa visita a São Luiz do Maranhão que conheci o chef Dantas. Faz tempo que ele e a família são radicados no Maranhão. Mas me falaram com tanto orgulho da culinária de Caicó que fiz as malas e na companhia de Dantas, fui conhecer sua terra natal.

Hospedada por dona Neném, saí para explorar as preciosidades locais. Queijo de coalho, sequilhos, biscoitinhos de queijo, o biscoitinho palito, a raiva (mais um tipo de biscoitinho de lá). Produtos feitos com carinho artesanal – uma delícia. Com a grife Caicó. Reconhecida em todo o Nordeste.

Qualidade com hospitalidade.
Caicó se esmera para agradar os que têm água na boca. Almoçamos e jantamos na casa de cozinheiros e cozinheiras de primeira linha. Uma festa fora o apetite.

A Alessandra preparou um banquete de receitas regionais: arroz-de-leite, munguzá, farofa d’água, paçoca de carne de sol, carne-de-sol-assada, umbuzada, filhós de mel e suco de cajarana. Já o chef Sandro, do restaurante Brilhante, enveredou por especialidades autorais. Trouxe à mesa um “caviar de caju”, um “caju metido a besta” e um rondelli de macaxeira com carne de sol.

O Brasil é um lauto cardápio de Caicós pedindo para serem descobertos. Cada um com sua especialidade artesanal e sua história afetiva. Sempre deixando no paladar do viajante o gostinho do quero mais e a vontade de voltar algum dia. A Caicó eu sonho voltar agora em julho, para a Festa de Santana. Eles já adoram uma festa e a de Santana é a mais animada. Dizem na cidade que Caicó é muita festa, pouca água e muita festa. Eu meto a minha colher: e muita comida boa."

Por: Ana Luiza Trajano - Chef do restaurante Brasil a Gosto, de São Paulo, um dos melhores de gastronomia brasileira. Já publicou um livro com o mesmo nome, que tem poesias e fotografias inspiradas por suas viagens pelo país. É consultora do novo cardápio da TAM, o Brasil a Bordo.


Imagens: "Casa da Cultura de Caicó"- Blog de Anna Joelma, "À Flor da Pele"
Fonte: Blog do Robson Pires.
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domingo, 31 de maio de 2009

Cantando na Chuva

(Gene Kelly cantando na chuva- mistura de água e leite)

Rever filmes interessantes é um hábito que cultivo.
Nessa noite de sábado, escolhi um grande clássico Hollyoodiano.
Fascinante, seria talvez, a palavra mais clichê para descrever Cantando na chuva.



Este, é para mim, o melhor musical da história e obra prima da Metro. Mesmo aqueles que têm preconceitos em relação a musicais, se renderão ao seu encanto. É cinema do mais alto nível, diga-se. Inteligente, cômico, romântico.



Tudo é perfeito: fotografia, roteiro, trilha sonora, história.
E haveria por acaso, modo mais adequado de mostrar a dinâmica dos bastidores de filmagem?
Claro que a imagem mais marcante da película, é a antológica sequência de imagens de Gene Kelly, dançando- e cantando- na chuva, que nos deixa tontos com seus passos de dança, com o belo corpo e charme dos grandes astros de Hollywood.


O filme revela ainda a magia do cinema, onde o espectador pode sonhar num mero galpão abandonado, com o parco auxílio de enorme ventilador e uma velha escada.
Já imaginou a dificuldade que foi a transição do cinema mudo para o falado? Sabiamente, o cenário foi situado dentro de um estúdio e retratado no final dos anos 20, esse momento tão árduo e siginificativo e para a indústria cinematográfica.

Foi o precursor no uso do som e o primeiro filme falado e cantado.
É interessante podermos ver a aceitação do público para essa nova modalidade, bem como a aflição dos estúdios para se acomodarem à nova cara que surgia na indústria.
E o que dizer da atuação?


Gene Kelly (Don) lindo, irresistível e perfeito nas falas e belas coreografias. Donald O´Connor (Comso Brown) tem excelente atuação, nos faz rir com suas expressões faciais, suas caretas super engraçadas (que lhe renderam o Globo de Ouro de melhor ator comédia/musical).
Jean Hagen (Lina Lamont), que foi indicada ao Oscar, deslumbra, com suas falas erradas e voz pra lá de irritante. E Debbie Reynolds (Kathy Selden), bela e doce em sua coreografia e perfomance, cantando a música "Good mornin´".


(Singin' in the Rain, 1952)
Direção: Gene Kelly e Stanley Donen
Título Original: Singin'in the Rain
Elenco
Gene Kelly (Don Lockwood)
Donald O'Connor (Cosmo Brown)
Debbie Reynolds (Kathy Selden)
Jean Hagen (Lina Lamont)
Millard Mitchell (R.F. Simpson)
Cyd Charisse (Dançarino)
Douglas Fowley (Roscoe Dexter)
Rita Moreno (Zelda Zanders)
Madge Blake (Dora Bailey)



Curiosidades:
*A Chuva, onde Gene faz suas coreografias, é uma mistura de leite e água
* voz que canta e aparece no fim, dublando a personagem Lina Lamont (Jean Hagen) supostamente da personagem Kathy (Debbie Reynolds), era de fato a voz verdadeira de Jean Hagen.
* Gene Kelly estava com febre durante as filmagens da famosa cena em que canta Singin'in the rain.
* Somente após a escolha das canções que fariam parte do filme, é que foi escrito o roteiro do filme.

Trilha sonora

1 - Singin in the Rain
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
2 - Fit as a Fiddle
Música por Al Hoffman e Al
Goodhart.
Letra por Arthur Freed.
3 - All I Do Is Dream of You
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
4 - Make 'Em Laugh
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
5 - I've Got a Feeling You're Foolin
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
6 - The Wedding of the Painted Doll
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
7 - Should I?
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
8 - Beautiful Girl
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
9 - You Were Meant For Me
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
10 - Moses
Música por Roger Edens.
Letra por Betty Comden and Adolph Green.
11 - Good Morning
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
12 - Would You
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
13 - Broadway Rhythm Ballet
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
14 - Singin in the Rain (in A-Flat)
Música por Nacio Herb Brown
Letra por Arthur Freed
15 - You Are My Lucky Star
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.
16 - Temptation
Música por Nacio Herb Brown.
Letra por Arthur Freed.



Imagens da internet.
Pesquisa:site Adoro cinema

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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Lei de Gérson.





Meu relógio digital - Foto feita por mim

Enquanto fazia compras numa rede de supermercados, me vi atraída por irresistível promoção: fornos de microondas com pequenos defeitos a preços rebaixadíssimos. Que maravilha!
Escolhi um ao acaso, que parecia apenas faltar uma pecinha da parte interna - o trilho - onde se encaixa e corre o prato de vidro refretário. Como havia vários desses artefatos dentro dos outros fornos, escolhi um que serviu e o inseri na canaleta. Sapequei o eletro no carrinho, paguei e fui pra casa, satisfeita com minha aquisição a preço irrisório. Na verdade, uma pechincha, visto que paguei um terço do preço normal. Embora o vendedor assegurasse que o equipamento havia sido testado, não havia garantia nem opção de troca em caso de defeito. Era pegar ou largar e apelar pra sorte. Peguei e apelei.
Pois não dei sorte. Ao conectá-lo à tomada e ajustar a hora do relógio, coloquei um pão integral pra aquecer e fiquei ali observando o paõzinho escuro girando sob a luz amarela. Ao retirá-lo, só não era mais frio do que a sensação que experimentei ao constatar que havia me ferrado.
Entretanto, passada a decepção inicial,
cônscia do pepel idiota que desempenhei e do belo mico que pagaria perante os familiares - junto com umas boas risadas - não fiquei tão chateada assim.
Afinal, pela malandragem, mereci o enquadramento na
Lei de Gérson*.
Além do mais, posso não ter um microondas novo, mas tenho um enorme e suigeneris relógio digital que funciona a contento. Uma beleza!


Então, vai levar vantagem você também?


Imagem:Revista Isto É, 1999.

*"Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também."
Com esta frase, proferida num comercial de cigarros em 1976, onde o jogador de futebol Gérson era o protagonista, estava instituída a famigerada Lei de Gérson, mais um elemento de definição da identidade nacional, um símbolo claro da nossa ética - ou falta de ética, de querer sempre levar vantagem.
Posteriormente, o jogador se mostrou arrependido e constrangido pelo reclame, que associou seu nome a qualquer comportamento pouco ético e às expressões
Síndrome de Gérson ou Lei de Gérson.


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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Estampas Eucalol


Como não sou uma módica apreciadora de música, no decorrer do dia há sempre um som que me acompanha, inclusive nas horas que permeneço desperta pela insônia.

Razão talvez, pela qual, há dias minha obstinada memória musical entoava insistente uma mesma canção à minha revelia.
Impelida pela necessidade de descansar o juízo, debalde, experimentei várias estratégias a fim de exorcizá-la: Travesseiro apertando a região auricular; pensamentos libidinosos; televisão no último volume; um forrozinho de Luiz Gonzaga na Rádio Rural. Nada! Nem mesmo a música cretina e idiota de bate-estaca da academia de ginástica teve o poder de detê-la.
Decidi atacar de outra forma: Entoando-a a plenos pulmões. Não é que funcionou?
Livrei-me da invasora. A menos que este post anule os efeitos e me devolva a maldição, que, se não era de toda má, chateava a paciência e saturava os neurônios.

A música em questão, da qual gosto muito, é "Estampas Eucalol".
A letra é do Hélio Cantreiras. (Gosto da interpretação do Xangai.)

Montado no meu cavalo
Libertava prometeu
Toureava o minotauro
Era amigo de teseu
Viajava o mundo inteiro
Nas estampas eucalol
A sombra de um abacateiro
Ícaro fugia do sol.

Subia o monte Olimpo
Ribanceira lá do quintal
Mergulhava até netuno
No oceano abissal
São Jorge ia prá lua
Lutar contra o dragão
São Jorge quase morria
Mas eu lhe dava a mão
E voltava trazendo a moça
Com quem ia me casar
Era minha professora
Que roubei do Rei Lear.


(O vídeo abaixo não é uma obra de arte. Mas foi o que achei no Youtube)

As Estampas Eucalol


As Estampas Eucalol são imagens com textos instrutivos que acompanhavam a linha de perfumaria e produtos de higiene da marca Myrta, uma estratégia usada pelos irmãos Stern, fundadores da Perfumaria no Rio de janeiro para aumentar a venda dos seus produtos.

A Fábrica iniciou as atividades em 1917. Em 1924, foi produzido o sabonete Eucalol e depois a pasta de dentes e o talco.
Diferentemente dos sabonetes da época que eram em tons branco ou rosa, o sabonete Eucalol era verde, devido à essência de eucalipto, na sua composição.
Por esse motivo sofreu algumas rejeições. O consumidor não gostou da inovação. E as vendas não descolavam.
Tentou-se de alguma forma reverter a situação.
"Inicialmente tentaram conquistar o público com um concurso de poemas tendo por tema o sabonete Eucalol, onde os vencedores eram agraciados com prêmios em dinheiro e mais as menções honrosas publicadas na Revista Fon-Fon em 1928 como o abaixo que recebeu o primeiro prêmio:

Banho, para uns, é de sol;
Outros de mar o preferem;
Uns banho de igreja querem,
Mas eu cá todo me assanho
Se penso em tomar um banho
Com sabonete EUCALOL
(Fernando Reis - Rio)

Mesmo o concurso de poemas, não surtiu o efeito esperado. Foi então que surgiu a idéia de lançar as Estampas, cuja divulgação foi feita através do jornal "A Noite", no ano de 1930. O sucesso foi estrondoso, crianças e adultos colecionavam as estampas, impulsionando as vendas do sabonete e a Empresa crescia vertiginosamente

As primeiras séries das Estampas Eucalol tiveram temas bem brasileiros: A vida de Santos Dumont, Epsódios Nacionais, Produtos do Brasil, Cahoeiras do Brasil, Aves do Brasil e Bandeiras do Brasil, intercalados com outros temas de âmbito universal como Viagens através dos Continentes, Lendas da antiguidade, Precussores do automobilismo, Don Quixote e Compositores célebres, e nesta última incluíram Carlos Gomes.





Séries como História do Brasil, Lendas do Brasil e Índios do Brasil, eram usadas em escolas pelo Brasil afora como material didático. O artista Percy Lao, por ter vasta experiência no desenho de temas regionais brasileiros em virtude de ter trabalhado durante muitos anos no IBGE fazendo desenhos temáticos brasileiros, foi contratado para desenhar a série Viajando pelo Brasil, que apresenta 6 estampas com motivos regionais de cada estado, inclusive o da cidade do Rio de Janeiro, na época Distrito Federal. Os originais destes desenhos foram feitos por ele a bico de pena e são muito interessantes.






Um tema que proporcionou belas estampas é o das Histórias Infantis como João e Maria, Branca de Neve, Gato de Botas, Gata Borralheira, Chapeuzinho Vermelho e A Bela Adormecida. Visando a reduzir custos a fim de enfrentar a concorrência das multinacionais que se estabeleciam no Brasil, em 1957 a Perfumaria Myrta decidiu encerrar a impressão das estampas, e o último tema impresso foi Escotismo, cujos aficcionados até hoje procuram por estas estampas. Apesar do esforço desprendido a empresa não suportou a concorrência e em 1978 acabou por ser vendida, tendo sido requerida a falência da empresa em 1980.



As Estampas Eucalol são as estampas mais importantes da América Latina, encontrando-se colecionadores das mesmas em vários países do Hemisfério Sul. Fizeram parte da vida brasileira durante quase 30 anos, deixando marcada sua presença nas gerações que as vivenciaram."


Ao todo foram emitidas 2.400 estampas, distribuídos em 54 temas de 1930 (ano em que começaram a ser emitidas) a 1957.

(Fonte:Site Cultura e Conhecimento)
Imagens:Internet.
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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Hasta Pronto, Benedetti!


Diseño del blog de Pau Valls

El hombre que aprendió a ladrar

(Mario Benedetti (Paso de los Toros, 14 de septiembre 1920 - Montevideo, 17 de mayo 2009)

Lo cierto es que fueron años de arduo y pragmático aprendizaje con lapsos de desaliento en los que estuvo a punto de desistir. Pero al fin triunfó la perseverancia y Raimundo aprendió a ladrar. No a imitar ladridos, como suelen hacer algunos chistosos o que se creen tales, sino verdaderamente a ladrar. ¿Qué lo había impulsado a ese adiestramiento? Ante sus amigos se autoflagelaba con humor: "La verdad es que ladro por no llorar". Sin embargo, la razón más valedera era su amor casi franciscano hacia sus hermanos perros. Amor es comunicación. ¿Cómo amar entonces sin comunicarse?

Para Raimundo representó un día de gloria cuando su ladrido fue por fin comprendido por Leo su hermano perro, y (algo más extraordinario aún) él comprendió el ladrido de Leo. A partir de ese día Raimundo y Leo se tendían, por lo general en los atardeceres, bajo la glorieta, y dialogaban sobre temas generales. A pesar de su amor por los hermanos perros, Raimundo nunca había imaginado que Leo tuviera una tan sagaz visión del mundo.

Por fin una tarde se animó a preguntarle, en varios sobrios ladridos: "Dime, Leo, con toda franqueza: ¿qué opinas de mi forma de ladrar?". La respuesta de Leo fue escueta y sincera: "Yo diría que lo haces bastante bien, pero tendrás que mejorar. Cuando ladras, todavía se te nota el acento humano".

Mario Benedetti: Cuentos completos,Alfaguara, Madrid, 1996 (pág. 469)





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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Alice através do Espelho - Hoje não é meu Desaniversário.

Ilustração : John Tenniel

"Nesta direção", disse o Gato, girando a pata direita, "mora um Chapeleiro. E nesta direção", apontando com a pata esquerda, "mora uma Lebre de Março. Visite quem você quiser, são ambos loucos."
"Mas eu não ando com loucos", observou Alice.
"Oh, você não tem como evitar", disse o Gato, "somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca".
"Como é que você sabe que eu sou louca?", disse Alice.
"Você deve ser", disse o Gato, "Senão não teria vindo para cá."


Ilustração : John Tenniel

“Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?”
“Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o gato
“Não me importa muito para onde”, disse Alice
“Então não importa o caminho que tome”, disse o gato
“Contanto que eu chegue a algum lugar”, Alice acrescentou à guisa de explicação
“Oh, isso você certamente vai conseguir”, afirmou o gato, “desde que ande bastante”



Ilustração : John Tenniel

"Quando eu uso uma palavra" - disse Humpty Dumpty num tom de escarninho - ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique … nem mais nem menos.
"A questão - ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes."
"A questão - replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso."


"O que? Me desculpe? indagou Alice.
" Quer dizer, o que é um presente de não aniversário?
"Um presente dado quando não é nosso aniversário, é claro.

"Alice refletiu um pouco.
"Acho que gosto mais de presentes de aniversário" - concluiu finalmente.
" Você não sabe o que está dizendo" - gritou Humpty Dumpty
"-Quantos dias tem um ano?"
" 365, disse Alice.
" E quantos aniversários você tem?"
" Um só.
" E se você tira 1 de 365, quanto fica?"
"364, é claro
Alice não podia reprimir um sorriro enquanto tirava o caderninho de notas e escrevia a subtração para ele ver.
365
- 1
____
364
Humpty Dumpty pegou o caderninho e comtemplou-o cuidadosamente.
"Parece que está certo..."



Ilustração : John Tenniel

“Ninguém está na estrada”, disse Alice.
“Ah se eu tivesse olhos assim”, o rei observou num tom irritado.“Ser capaz de ver Ninguém! E, além disso, a uma tal distância! Ora, o máximo que consigo com essa luz é ver pessoas de verdade!"


"Vamos! Vamos! gritou a Rainha. Mais rápido! Mais rápido!
E correram tão depressa que por fim pareciam deslizar pelo ar, mal roçando o chão com os pés, até que de repente, bem quando Alice estava ficando completamente exausta, pararam, e ela se viu sentada no chão, esbaforida e tonta.
Alice olhou ao seu redor muito surpresa.
"Ora, eu diria que ficamos sob esta árvore o tempo todo!"
"Tudo está exatamente como era!"
"Claro que está, disse a Rainha, esperava outra coisa?"




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