terça-feira, 9 de junho de 2020

Outros Crimes Exemplares (I.M.) *



(Imagem da Internet. Desconheço autoria)

OUTROS CRIMES EXEMPLARES (I.M)

* Conto válido como 3ª avaliação da disciplina Teoria da Literatura II - UFRN- 2011.

Então.
Essa é uma história antiga. Quer dizer, é mais ou menos antiga. Tem uns quarenta anos, por aí. Começa com Seu  Benedito Romão.
O Seu Benedito era um comerciante dono de uma bodega muito sortida na Rua Antônio Garcia e morava com sua mãe numa casa em frente ao campo de futebol “José Avelino da Silva”, no bairro Paraíba, em Caicó. Era um senhor rechonchudo e simpático que costumava assobiar em meio ao seu ofício de vendedor. Gostava de uma roupa cáqui e as calças altas estavam sempre presas por um cinturão de couro marrom. Não se apartava do seu chapéu de feltro cinza. Tinha um jeito todo especial de embalar as coisas que vendia no  estabelecimento. Por exemplo, ao embrulhar as bolachas secas, pegava uma folha de papel pardo, rasgava com uma régua de madeira, colocava-a sobre os pratos dourados da balança e, com uma caneca de zinco pontiaguda ia trazendo a massa aos pouquinhos, para que não ultrapassasse uma quarta – a clientela não comprava de meio ou de um quilo –, juntava o embrulho e ia torcendo o papel para produzir o fechamento, que ficava parecendo uma trança de cabelo como a que  mãe fazia em mim.

Será que é necessário explicar a vocês o que é uma quarta de bolacha ou algo sobre a tal caneca de zinco? Melhor não. É preferível continuar com a história, porque essas digressões podem esticar demais  as coisas e  comprometer o relato, não é mesmo?
Antes eu preciso esclarecer que, pelo que sei, Seu Benedito, além da labuta semanal na bodega, aos sábados e aos domingos trabalhava vendendo seus produtos num ponto no Mercado Público, justo ao lado de onde ficava o sebo de livros do Zé Maria. Num desses dias de pouco movimento, ele, que nem era muito chegado a livro, decidiu sair e comprar um exemplar que lhe pareceu interessante. No fim da tarde, já em casa, sentou-se na sua espreguiçadeira e começou a leitura, enquanto sua esposa lhe trazia uma taça de vinho tinto e uma porção  de queijo.
Tratava-se de um livro de contos intitulado Outros Crimes Exemplares. A primeira história se chamava “Cada um tem a Pasárgada que merece”. Eu até poderia relatar sumariamente a intriga, tal como me passaram, mas como tenho um volume da obra em casa, vou expor a coisa tim tim por tim tim:

“Estou pensando em ir embora, quero voltar para o meu torrão...”
Dia e noite era essa cantilena do meu marido Cazuzinha queixando-se que sentia saudades da sua terra, uma cidade praieira na grande Recife. Amiúde, tinha uns banzos medonhos relembrando dos amigos, das aventuras e bebedeiras, dos banhos de rio e de mar e das pescarias, dos sons da cidade, dos maracatus e dos frevos.
Sentia saudades de andar de bicicleta, dos dias ensolarados, das serestas na lua cheia, de montar em burro brabo, da festa do Bom Jesus dos Navegantes, da comida caseira e das histórias que a sua mãe contava. 
Era um homem jovem e saudável e teria vivido muito, não fosse a estupidez de incluir no rol dos saudosismos a primeira e inesquecível namorada e as memoráveis farras com as meretrizes da cidade. Isso eu não suportei. Cheguei aos limites da tolerância. Qualquer uma no meu lugar faria o mesmo.
O vinho que preparei para ele naquele domingo de Páscoa potencializou o efeito do veneno e tudo não rendeu cinco minutos. Agora, ele escuta o som do silêncio e os carpidos de sua mãe, Dona Bia de Seu Cazuza. Justa que sou, permiti que fosse enterrado onde queria estar vivo. Cada um tem a pasárgada que merece.

É verdade que Seu Benedito ficou um pouco chocado com tal desfecho e com a patente frieza da personagem, mas talvez esse fato o tenha motivado ainda mais a retomar empolgado a leitura do segundo conto, “O triste fim de Inácio Moura”, que diz o seguinte:

Durante o velório do meu marido, encarei como uma estranha coincidência o reencontro com o Inácio Moura, um velho conhecido que havia se graduado em Natal e retornara à terrinha para ministrar aulas na universidade local. O acaso nos aproximou e, diante da indignação de minha ex-sogra e praticamente da cidade inteira, casei-me com ele três meses depois, numa cerimônia simples no Fórum Municipal, estabelecendo-me de vez  no estado pernambucano. 
Inácio era um escritor renomado e dentre suas obras figura a famosa tese de mestrado denominada A Última cantiga de ninar ao menino que se recusava a crescer, dedicada a mim e aos dois filhos que tive com o meu primeiro marido. Entretanto, o mais importante trabalho literário produzido por ele foi um livro que traz o título Outros Crimes Exemplares, motivo de orgulho para ele – e  para mim, já que lhe dei a ideia de produzir contos cujos enredos girassem em torno de assassinatos cometidos por motivos fúteis. A obra foi lançada  com  sucesso em  várias cidades país afora, em meio a muitas críticas positivas nas rodas de conversas  literárias.
Ele produziu mais algumas obras importantes, inclusive a sua tese de doutorado, Patrimônio histórico do Sertão Potiguar, de cujo lançamento participei. O livro agora trazia uma dedicatória pomposa, não mais a mim, mas a sua orientadora de nome afrancesado, Sophie Cavagnac. E eu pergunto: é justo isso? Que ser humano poderia suportar tamanho despautério? Nós brindamos ao seu sucesso, mas aquele foi o último champagne que ele saboreou na vida. Reconheço, entretanto, a minha falha quanto à dosagem de veneno, o que lhe provocou um fim lento e doloroso. E disso eu sinto remorso. Afinal, ele era um bom homem e merecia uma morte  abreviada.
Sua última obra, um livro de poesias chamado Brevidade das coisas: Poesias de I.M., foi publicada postumamente, em meio a grande clamor, dali a dois meses.

Nesse momento, Seu Benedito, indignado, não sabia se continuava a ler os demais contos ou se parava por ali mesmo. Olhou de relance para a esposa, que na cozinha preparava uns docinhos de festa e  pensou que não custava nada ver até onde ia a ousadia do autor, qual absurdo viria pela frente e assim passou ao terceiro conto, intitulado  “Festim Maldito” :

Apesar dos reveses pelos quais por vezes temos que passar, a vida continua e a solidão, dizem, não é algo para ser cultivado. Depois de alguns meses sozinha após a morte do meu marido, recentemente conheci um comerciante e nos apaixonamos. Mudei-me definitivamente para Caicó, casamo-nos e agora tenho uma vida feliz e harmoniosa, não fossem alguns hábitos irritantes que ele insiste em cultivar, como usar um chapéu démodé de feltro cinza, trabalhar sem descanso nos fins de semana e fazer fotos de túmulos no cemitério local, toda sexta-feira, impreterivelmente.

Sonolento, Seu Benedito fechou o livro sem terminar a leitura. Sua mulher já o chamava para que se recolhessem. Era tarde e ambos tinham muitos afazeres impontantes no dia seguinte.

E é como eu estava dizendo, esses fatos são antigos mesmo e acho que me foram contados por minha mãe, que esmiuçou a vida toda de Seu Benedito. Não esqueceu sequer de mencionar que o queijo que acompanhava o vinho chileno naquela remota tarde de domingo era de manteiga e derretido. Um detalhe até prescindível, porque em Caicó praticamente só se come esse queijo e sempre dessa forma.
Falou das circunstâncias em que ocorreu a morte do Seu Benedito, um rapaz velho que, como eu já citei antes, tinha uma bodega na tal rua, que se vestia assim, assim, que vivia com a velha mãe, Dona Isabel, até que conheceu uma mulher das bandas do Pernambuco, com dois filhos barbados a tiracolo, se enrabichou por ela e se casou, a despeito dos conselhos da família. 

Ah, sobre a morte, consta que ele, durante um brinde na festa de suas Bodas de Papel, sofreu um ataque cardíaco fulminante e caiu mortinho. Nesse tempo se morria e pronto, estava acabado. Ninguém nem investigava o motivo real. A viúva, que não era mais viúva quando eu conheci esta história, tomou conta da bodega e nem chegou a aprender a embrulhar bolacha do jeito do Seu Benedito, por causa do desgraçado advento da sacola plástica, disseminada mundo afora que dará uma considerável contribuição ao fim da vida no planeta.

Foi o que mãe me contou. Como ela conhecia tantos detalhes? Ora, e eu lá vou saber? Nunca perguntei. O que eu sei é que ela sabia. Sabia e tá acabado. Mas vejam só, às vezes as coisas se embaralham um pouco na minha cabeça. Eu posso até admitir equívocos quanto à procedência dessa história. Teria eu escutado mesmo da minha mãe? Sei lá, talvez eu até tenha sonhado, porque eu também sonho. Ou, quem sabe, sejam resquícios guardados de umas conversas com minha amiga Agnes, que costuma ler Max Aub, Cortázar, Clarice, Borges e mais um montão de gente que tem o costume de escrever coisas assim...  esquisitas.
E é só. Acabo aqui, porque  já estou ficando muito enjoada dessa história.

Inês Mota

* Conto válido como 3ª avaliação da disciplina Teoria da Literatura II - UFRN- 2011.

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MEMÓRIAS DE QUANDO FUI NETA II (Numa manhã de domingo, num tempo remoto).


Foto: Inês Mota
Na casa do Padrinho Amor- o tio-avô-, onde a menina reina ao lado do mano Dinarte, impera a liberdade e tudo é normal, natural e permitidíssimo. 

Ela pode derramar os esmaltes de unhas, usar o óleo de canela de boi nos cabelos e quebrar a perna da boneca de Rita. Mexer o enorme tacho de sabão de potassa que vomita bolhas fedidas a fato de bode. Soltar as cabras do curral, que correm em direção ao cocho para matar a sede. Catar os ovos nos ninhos das galinhas e, assessorada pelo irmão, quebrar todas as panelas de barro do incauto vizinho tio Chico de Joca, coitado, que ao mudar-se deixou-as sobre uma roda de carro de bois.

Embrenhar-se pelos mufumbos e juremas, a perseguir encantada, as cores dos pavões sem conseguir alcançar. Apanhar as frutas verdes e oleosas das oiticica que não prestam pra comer e fazer músicas com os chocalhinhos das vagens de gergelim. 

Espantar os porcos, guinés, perus, ovelhas e galinhas com um galho cheiroso de marmeleiro. Colher trapiás e os melões-caetanos que pendem como brincos de ouro das cercas de varas entre os pereiros.
Trepar-se no pilão da cozinha para alcançar as cabaças e admirar os filhotes no ninho de rouxinóis. 

"Tecer" pano de rede xadrez subindo e descendo os degraus do roído tear de madeira. Dar banho no pobre do gato amarelo que, com o rabo entre as pernas e um olhar rancoroso, corre agoniado direto para a rede do primo Janúncio. Comer com farinha, tripa e bofe de carneiro assados na brasa.

Embriagar-se fumando o cachimbo da tia Maria que, caçoando, adverte: " avie, menina, joga logo uma caneca d'água na parede, que o cheiro do barro acaba essa morrinha!".
Embriagada de tanto amor e carinho, caminhar pelas veredas do sítio e adormecer no mato macio, ouvindo a música do riacho do Vô Joca, que parece dizer:" sonha, menina, sonha enquanto é tempo, que sonhar faz um bem!".
Inês Mota;
Natal, 11 de agosto de 2010.
*Imagem (Penso que é de minha autoria): Casa onde nasci, no sítio Logradouro, município de São Bento (PB


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segunda-feira, 8 de junho de 2020

Memórias de quando fui neta

(Imagem: Salvador Dalí)

Aos 7 anos, eu não compreendia porque o avô de uma colega tinha apenas uma esposa e achava o fato  estranhíssimo. O que? só uma? Pois o meu avô tem duas! Também achava estranho se todos os avôs não soubessem fazer tudo o que o meu sabia. Como? Ele não sabe confeccionar selas e gibão de couro, construir casas, cercas e currais, plantar uma roça de milho e feijão, escavar poços, fazer vaca parir, arrancar tatu do buraco, curar bicheiras dos cavalos, matar cobra venenosa, abater bois e carneiros e preparar a carne para  vender na feira?

O meu avó materno era João que como todos Joões virou Joca, um senhor franzino e calvo, de jeito tranquilo, de fala mansa que nos encarava sempre de frente, cabeça erguida, olhos semicerrados como se estivesse escaneando nossa alma e imprimindo nosso pensamento. Se precisasse era brabo que nem siri em lata.

Quando chegávamos de férias à sua casa era festa e liberdade total! A casa era de fato pequena, mas me parecia enorme, com suas paredes sem reboco cheias de frestas de onde eu retirava os "barbeiros" para brincar de fazenda. O piso vermelho de tijolos lisos e gastos, era frio e nos servia de cama depois do almoço.
Na sua casa, éramos recebidos por suas duas esposas. Uma de direito, as duas de fato. Nenhuma era minha avó de sangue (a  minha avó, havia morrido de parto quando minha mãe tinha pouco mais de um ano). As duas compartilhavam o mesmo teto de forma  supostamente harmoniosa e a divisão de tarefas parecia ser de acordo com o nível cultural de cada uma. Uma era instruída, falante, sabia ler, escrever e contar. Era vaidosa e gostava de viajar "ao Recife". Era minha madrinha e só eu tinha o privilégio de compartilhar os segredos e mistérios infindáveis de sua mala de madeira, grande e bonita que me embriagava com o cheiro de pó de arroz, perfumes, esmaltes e sabonetes.  A cada vez que era aberta, me fascinava, além de tudo, colada no interior da tampa, a figura de uma miss Brasil de maiô, faixa, cetro e coroa,  que vim a saber que era Ieda Maria vargas, miss Brasil e miss Mundo 1963, formando parelha com  outra de um senhor elegante que depois, soube tratar-se do Juscelino Kubitschek.

Ela organizava a casa, dava ordens e preparava os doces e compotas que eram armazenados em recipientes de barro com pinturas vermelhas e guardadas num jirau, espécie de trançado de madeira que pendia do teto preso com cordas nas extremidades. A outra, não sabia nada das letras e não primava pelo cuidados com a aparência nem pela vaidade pessoal. Era calada e arredia, possuía um vocabulário singular e se limitava a preparar a comida do dia -a- dia, a pisar no pilão,  a moer milho,  efetuar a limpeza da casa e das roupas e cuidar dos bichos pequenos no quintal.

Sinestésica desde sempre, eu associava à primeira a lençol branco, ao cheiro bom do melão, ao mar do Recife que nunca vi, à liberdade, à vaidade e ao glamour. A segunda, sempre me lembrou uma enorme panela de feijoada com pé de porco fervendo no fogão de lenha, um pilão de arroz descascado, o acridoce da coalhada com cuscuz e rapadura e o odor de penas de galinha molhadas.

Nas minhas incursões pelos reduzidos limites da propriedade eu explorava tudo, desde a casinha parede- meia - onde havia ferramentas, rações para o gado, arreios, cuias, montes de batatas e silos de zinco cheios de grãos (vedados com uma mistura de cera de abelhas e pó de tijolos,) as cacimbas, os currais e os bichos copulando, dando cria e leite. O riacho, pelo qual eu tinha certeza que se seguisse o leito  chegaria ao mar. Esse mar que de fato nunca explorei. Não por medo da viagem ou dúvida quanto à sua existência. O  que de fato me importava era preservar o mistério, pois o mar devia ser bonito demais e melhor do que vê-lo era imaginá-lo na sua imensidão azul.  Além disso, o riacho, perene, estaria sempre ali e era a via de acesso para a realização do sonho quando assim eu o desejasse.

Aos 10 anos, já há algum tempo na cidade, tudo me parecia diferente. Os interesses eram outros e já não via tanta graça no sitio do meu avó. Aos poucos as coisas se esvaiam, mudando de cor e dimensão. O verde não era mais o verde que eu vira,  as chuvas com trovões rareavam  a água se acabava, aos poucos o riacho minguava, os bichos sumiam, os silos sempre pela metade, o cachorro sarnento e magro caducava num canto da casa, as pessoas, enfadonhas e taciturnas pareciam cansadas da vida. 

Um dia meu avô se foi e vi minha mãe carpir sua dor calada, vestir preto fechado por um ano. Eu e minha irmã, usamos por seis meses -batendo e vestindo- duas mudas de roupa composta por uma saia preta e uma blusa preta de bolinhas brancas. Os meninos maiores, assim como o meu pai, usavam um "fumo" no bolso da camisa.

Depois disso, voltei poucas vezes ao sítio. As duas viúvas, como eu pude constatar, não conviviam tão bem assim e cada uma buscou seu rumo. A casa e tudo ao redor virou cinza, desolação e abandono. Só mais uma paisagem seca no sertão da Paraíba.
Apesar do gradativo distanciamento entre nós, senti muitas saudades do meu avó e por algum tempo o meu espírito infantil lembrava dele com um misto de tristeza, melancolia e rancor: como ele podia ser tão ingrato, ter morrido assim sem mais nem menos e sem se despedir de mim?

Dele, herdei  o gosto  pela organização, pelas coisas simples e bem feitas, a teimosia e a resistência às adversidades e a capacidade de ser o que ele próprio se intitulava " pau pra toda obra", além do hábito de apreciar o sabor de uma pimenta malagueta braba, que vez ou outra me assanha a gastrite crônica e causa a insônia que me  convida a registrar essas memórias.
Inês Mota

Ieda Maria Vargas Miss Brasil e Miss Universo 1963
(Imagem do site http://jhomundomiss.blogspot.com/2010/09/miss-brasil-1963-so-para-lembrar.html)

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MEMÓRIAS DE QUANDO FUI NETA (Sobre maracujás e ninhos)

imagem: site BAIXAKI


Não saberia precisar quando e, quiçá, isso não seja relevante para quem se dispor a desperdiçar um bocadinho de tempo com escritos de quem pensa que pode sair por aí divagando sobre situações tão banais e insossas de sua infância.
Mas já que cheguei até aqui com esse delongamento introdutório, que nem de longe se arvora a triscar as tendências do Gongorismo ou Quevedismo, apenas brincar de fazer uso de muita ou pouca forma disforme para dizer pouco ou nada do que nada sei e não passa de pequena crônica despretensiosa.
O que posso afirmar é que foi num tempo em que, juro, eu não conhecia a história do Labirinto de Creta e tampouco ouvira falar do novelo de Teseu. Entretanto quando saia nas minhas insólitas viagens pela Caatinga, costumava levar uns grãos de milho que espalhava pelo caminho, os quais, sabia, me guiariam de volta para casa.
Eu buscava desbravar o mato cerrado, o desconhecido, a "grandiosidade" do sítio do meu avô, as árvores, os bichos, os riachos e córregos. Eu procurava especialmente as latadas de maracujá do mato, ao seu ver, erroneamente chamado de brabo, já que nunca presenciara qualquer atitude tempestuosa que lhe valesse tal alcunha. Deleitava-me com o divino o sabor das frutas, deitada na relva vendo manadas de bichos-nuvens fugazes, passeando com pressa e se desintegrando no azul do céu, quem sabe medrosas, temendo manadas ferozes no seu encalce.
Depois, já em casa, como era bom observar sorrateiramente a vaidade melancólica da minha mãe, tão atarefada, que à beira do fogão de lenha, se dava o direito de ficava bonita ornando os cabelos com as majestosas flores de maracujá matizadas de vermelho, azul e roxo, que eu trazia pra ela.
No dia em que me deslumbrei com a visão do primeira comida esquisita que me pareceu fios de tecer redes, cismei que aquilo dava em árvores e daí em diante, nas aventuras subsequentes. os passeios se tornaram mais longos, as caçadas mais meticulosas. Os maracujás já não eram objetos exclusivos de busca,
Jamais encontrei os tão cobiçados pés do que me disseram chamar-se macarrão e passei a desconfiar que eles davam mesmo era embaixo da terra, escondidos feito batata doce ou macaxeira. Ou, quem sabe, brotavam dos ninho enroladinho dos rouxinóis que eu vira pendurado junto ao silo de feijão do Vô Joca.
Naquele tempo, não tinha certeza de nada. Hoje, tampouco.
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domingo, 7 de junho de 2020

NEM TODO CÉU É DE BRIGADEIRO

Imagem da Net- Kurosawa- Kagemusha

Tudo passa lento e morno e a noite vai tingindo o dia como Kurosawa pinta seus filmes.
Sentada no banco do parque, conto os tijolos vermelhos da calçada e acompanho o movimento nervoso das formigas que em fila indiana carregam ovos de dinossauros na cabeça.

Um vento travesso rouba o chapéu do seu Zé e o deposita no galho seco do fícus...fícus benjamina...fícus benjamim...Benjamim...

-Benjamim, chame seu pai pra dentro!
-"Papaiii"..!

Uma folha fugida do outono que não temos, passa rodopiando e se acomoda no vão dos meus dedos enquanto o pardal belisca o pão do mendigo que costura os seus sonhos numa mochila de lona verde tecida no tear que pai comprou em São Paulo e queimado por descuido de Dimas. 

Seu Nozinho contorna a calçada pela quarta vez, montando sua velha bicicleta preta e assobiando Hey Jude porque segundo ele é impossível atravessar esse Saara sem Beatles. 

Um cão sarnento passa cambaleante espantando as moscas da pata ferida e me olha pedindo licença para se deitar e ficar triste. Ele se deita e nós ficamos tristes.

Ao longe, o radio toca um prelúdio para ninar gente grande e pequena. É a voz de algodão doce de  Luiz Vieira que lembra saudade, inverno, trovão e bolinho de chuva.
Um relâmpago risca o  céu, que agora cinza ameça desabar sobre nós.

Bem que mãe disse que ia chover!

Inês Mota



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sexta-feira, 5 de junho de 2020

Abissal

Foto: Inês Mota


O caleidoscópio de rochas vivas generosamente acolhia-me e, ainda assim, o meu mundo era sombrio e tenebroso.

Eu sentia tanto medo. E o medo retraía-me ao posto de atalaia que me garantia relativa segurança em meio aos ferozes habitantes.

Para não me afogar, vencia a fadiga e protelava o sono, dia e noite. Noite e dia, empenhada em enxugar o mar d' água em torno de mim.

Oh, Sísifo! Como eu sabia dos seus desenganos.

Um dia, o misericordioso Merlin Azul segredou-me que esse mundo se chamava mar.
Segredou-me que meu nome é peixe.

Ciente da minha nova condição, descartei panos, dores e o escuro do mundo abissal.

Agora cuido de voar e contemplar estrelas

Inês Mota

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segunda-feira, 25 de maio de 2020

Outros Crimes Exemplares - A desleixada.

Imagem: Dan May

Não, não fiz de propósito!
Sou um cabeleireiro de prestígio e muito habilidoso, mas qualquer um está sujeito a manias e eu, que não sou exceção, também tenho as minhas: detesto caspa.
Comecei a cortar o cabelo dela e as caspas molhadas pareciam farelos de aveia.
A princípio, fui indulgente e com toda a paciência retirava-as com o pente fino. Mas tolerância, convenhamos, também tem limites.
A frase indignada caspa, eu?, foi a gota d'água, digo, a pá de terra.
Comecei com uma pequena cutilada na nuca e, resoluto, fui até o fim.

Foi mais forte do que eu
Qualquer pessoa no meu lugar faria o mesmo.

Inês Mota



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quinta-feira, 7 de maio de 2020

Outros Crimes Exemplares - Remorso

Imagem: Salvador Dali - Remorso


Morreu precocemente aos 28 anos.
Eu não teria pedido para que ele preparasse um arroz refogado, se imaginasse que o infeliz não sabia o  que era colorau.
Mas não sou dessas que toleram perguntas imbecis e por isso decidi servir-lhe aquela salada de vegetais estragada.
Confesso que não foi uma boa ideia. O botulismo é terrível e o seu fim foi lento e doloroso. E disso eu sinto remorsos.
Afinal, ele era um bom  homem e merecia uma morte abreviada.

Inês Mota



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quarta-feira, 1 de abril de 2020

Outros Crimes Exemplares - O Símio



Comia bananas como um símio esfomeado.
Começava fazendo cinturas na fruta com mordidinhas de baixo pra cima  e de cima para baixo.
Depois, fazia pequenas pausas e fitava-me franzindo o cenho e mostrando os dentes amarelos e carcomidos.
Enquanto roía a casca, soltava sons guturais como estertores de um moribundo.
Não satisfeito, sorria como se zombasse da minha extrema capacidade de tolerância.
Que ser humano pode suportar tamanho despautério?
O trabalho, confesso, foi cansativo porque a penca era muito grande. Porém, foram as últimas bananas da terra que ele saboreou.

Inês Mota


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domingo, 22 de março de 2020

Outros Crimes Exemplares - Cada um tem a Pasárgada que merece.



Estou pensando em ir emboraquero voltar para o meu torrão.
Dia e noite era essa cantilena, queixando-se que sentia saudades da sua terra, uma pequena cidade praieira nos cafundós do Ceará.
Amiúde, tinha uns banzos medonhos relembrando dos amigos, das aventuras, dos banhos de rio e de mar e das pescarias, dos sons da cidade.
Sentia saudades de andar de bicicleta, dos dias ensolarados, das serestas em lua cheia.
De montar um burro brabo, da festa do Bom Jesus dos Navegantes, da comida caseira e das histórias que a sua mãe contava. 
Era um homem jovem e saudável  e teria vivido muito não fosse a estupidez de incluir no rol dos saudosismos, a primeira namorada e as memoráveis farras com as meretrizes da cidade. 
O vinho, que preparei potencializou o efeito do veneno e tudo não rendeu 5 minutos.
Agora, ele escuta o som do silêncio e os carpidos de sua mãe, Dona Bia de Cazuzinha.
Justa que sou, permiti que fosse enterrado onde queria estar vivo.
Cada um tem a pasárgada que merece.


Inês Mota


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