quinta-feira, 3 de março de 2011

A lenda de Gregorius - O Eleito


Imagem da Net. Desconheço autoria

Num reino distante, o rei e a rainha não tinham filhos e há muito lutavam para conceber o tão esperado herdeiro. Finalmente, após anos de tentativas com inseminação artificial, a rainha dá à luz um casal de gêmeos e morre logo depois do parto. Os Gêmeos, que se chamavam João e Maria são criados pelo pai no Castelo Ra-tim-bum.

Aos doze anos, Maria, que não mais tolerava os assédios do pai, convida o irmão para fugirem de casa. E assim, numa noite de lua juntam seus pertences e abandonam o castelo. Vagam noite adentro pelas clareiras outrora ocupadas pela densa floresta Amazônica e ao amanhecer encontram uma casinha numa área remanescente da mata. Cansados e famintos, ligam pro Disk Pizza e pedem uma quatro queijos e uma portuguesa e devoram tudo juntamente com as tortas, doces e chocolates, regados a refrigerante que jorrava das paredes.

Certo dia João diz: Maria, nós nascemos da morte. E usa essas palavras como argumento para seduzi-la. Com o tempo, os dois não resistem mais ao desejo que nutrem um pelo outro e passam a viver juntos descobrindo os prazeres mundanos e  Maria concebe  um menino a quem chamaram de Gregorius.


Entretanto,o remorso toma conta de sua alma e o inquieta. Que merda que eu fiz. Que grande FDP que eu sou, pensou João. Com o intuito de redimir sua culpa sai pelo mundo e poucos dias depois, confundido com um perigoso traficante, é morto por policiais na favela Dona Marta.

A criança então é colocada pela mãe dentro de um pipo - o mesmo que Poe usara no seu célebre conto - junto com ricas peças de ouro e com um quadrinho emoldurado com os seus dados: Nome dos pais, local de nascimento, teste do pezinho, exame de DNA e em seguida é atirada ao mar. Foi encontrada por uma freira sadomasoquista numa remota ilha do caribe, que o criou como se fosse o seu filho que anos antes havia colocado num barril e jogado ao mar.

Maria, desesperada, segue o fio do novelo de Teseu  decidida a retornar ao castelo. Lá, chega a tempo de assistir a cremação do corpo do seu pai (que já ia tarde) e é então coroada rainha e ovacionada pelos seus súditos.
Anos más tarde, lá no Caribe, Gregórius, então com 17 anos, descobre sua real origem e decide viajar com a missão de encontrar seus pais para oferecer-lhes o perdão e encontrar a paz que tanto buscava. Desiste da empreitada quando se depara com um reino sitiado. Ali, se detém e luta até libertá-lo. Em seguida, desposa a bela  rainha  Maria I e vai viver  uma vida semelhante à de certos parlamentares, sem dar um prego numa barra de sabão, comendo, bebendo e vestindo do melhor à custa dos súditos.

Tiveram duas filhas maravilhosas e foram felizes para sempre. Até o dia em que Maria descobriu os pertences que Gregorius guardava a sete chaves. Não havia mais dúvidas: Ele era seu filho. Puta que pariu. Essa merda de Novo?, pensou Maria. E foi ter com Gregorius. Este, desalentado, vagou pelo mundo para redimir-se dos seus pecados, mas como não era otário feito seu pai, evitou seguir viagem para o Rio de Janeiro.


Foi viver em Brasília. Lá, enviou seu currículo para o chefe do Gabinete do Sarney e uma semana depois já estava empregado fazendo absolutamente nada. Entretanto, quando vieram à tona o escândalo dos Atos Secretos (lembram?), Gregorius perdeu a mamata e ficou a ver navios, prosseguindo assim sua romaria mundo afora.

A história de sua peregrinação é muito comprida e eu não estou mais com saco para relatar. O fato é que no final, após expiar sua culpa, livre de todo o pecado, Gregorius, acreditem, se torna Papa. E o grande Papa Gregorius, finalmente reencontra sua mãe Maria e suas duas filhas - às quais  abençoa como tio.

Passaram a morar próximos e a cultivar ótimas relações familiares. Estava finalmente estabelecida a paz. Gregorius ora e agradece por ter finalmente rompido o maldito círculo do incesto, afinal de contas, tudo tem limites e o mundo é finito.

E, seguindo a orientação divina de jamais, em hipótese alguma, andar atrás de Rubinho Barrichello, todos foram felizes para sempre. Até aquele fatídico dia  que, contrariando as ordens superiores, foi atingido violentamente por uma mola voadora em forma de tartaruga, pesando 800g e já não se lembrava mais quem era.

 Inês Mota

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Kafka e sua obra: pessimismo?

(Imagem by me )


No entendimento do filósofo e escritor brasileiro Leandro Konder, não.

No seu livro Kafka- Vida e Obras, Konder argumenta que enquanto filósofo, Kafka foi levado a adotar ideias pessimistas. Certa vez em conversa com um amigo, Kafka afirmou de forma negativa e radical: "Somos pensamentos niilistas aparecidos no cérebro de Deus. Somos um de seus maus humores, um dia ruim d'Ele". E quando o amigo indaga, se então havia esperança, ele retruca: "Para Deus, sim. Mas não para nós".

 É necessário, entretanto, separar as ideias de cunho pessoal do escritor quando se restringia a pensamentos filosóficos das ideias que ele traz implícitas na sua obra. E felizmente, para nós, Kafka foi um artista e não um filósofo. "Essa criação artística vem corrigir a deformação pessimista e conservadora de algumas de suas ideias filosóficas", diz Konder, que argumenta:

"Em suas obras de ficção, Kafka não foi pessimista. A moral do pessimista é mais ou menos a seguinte: Não adianta fazer nada, porque o mundo é uma porcaria e há de ser sempre assim como está'. A moral das estórias de Kafka é muito diferente. Se podemos resumir a lição que Kafka nos dá, devemos dizer que seus livros são gritos de alarme, são denúncias, avisos de perigo, e não aconselham ninguém a se resignar com a situação a que o mundo chegou."

Um dos exemplos que mais ilustrariam o humanismo ativo presente na obra kafkiana, nos é apresentada no seu livro O Processo. Em determinado trecho da obra, no capítulo Diante da Lei, nos ensina que para se conseguir justiça é preciso enfrentar com rigor e obstinação os males da passividade, nesta parte da obra, O capelão da penitenciária narra uma lenda a Joseph k, personagem central da trama :

Manuscrito original de O processo consrvado em Marbach, Alemanha

"Conta ela que um cidadão foi detido por uma sentinela diante de uma porta, que era a porta da Lei. O cidadão quer entrar porém o guarda não o permite. O cidadão pergunta se poderá entrar mais tarde e o guarda lhe responde:"Talvez. Mas não agora". Ao perceber que o cidadão está procurando olhar através da porta, o guarda previne: 'Se te sentes assim tão atraído, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, advirto que sou forte. E embora forte, sou o mais ínfimo dos guardas. De sala para sala as portas serão guardadas por sentinelas cada vez mais fortes...'
...O cidadão se instala diante da porta e passa toda sua vida na expectativa de um dia poder obter permissão para entrar. Já velho e a morrer, indaga da sentinela: 'por que, durante todos estes anos, não apareceu aqui outra pessoa que não fosse eu, querendo entrar por esta porta?'. O guarda responde: 'Porque esta porta não existia senão para ti, só tu tinhas o direito de entrar por ela e agora , a morreres, vou fechá-la'. E fecha...
Joseph K, o personagem, revolta-se contra a atitude do guarda e acredita que ele agiu de má fé. Entretanto, o padre que havia feito a narração o critica e o adverte de que a lenda é deveras complexa e encerra inúmeras interpretações. O intuito do capelão, por sua vez é obscurecer o entendimento da narração envolver o espírito do acusado em grande desordem.
Mas a lenda era bem clara: O cidadão cometeu o pecado da obediência. Ele não ousou discordar da absurda autoridade nem questionar sua legitimidade".
Konder acrescenta: "O próprio Joseph K, ao longo do seu monstruoso processo luta para sobreviver, mas morre porque nunca leva a sua luta contra a desumana organização judicial às últimas consequências. O guarda da porta da Lei era um empulhador. O capelão, tentando obscurecer com interpretações contraditórias o sentido da lenda era outro empulhador. Por não terem sabido definir claramente a empulhação e por não terem tomado uma posição radical de luta prática contra ela, os personagens de Kafka se viram triturados pela engrenagem dos empulhadores..."

Várias outras de suas obras vêm corroborar essa ideia do inconformismo diante dos percalços da vida. Esse pensamento é recorrente em diversas outras obras de Kafka, além de O Processo, aqui citado. Assim também ocorre em A Toca - Uma advertência contra a inércia causada pelo medo. Esse pensamento também permeia outra de sua obra Um Velho Manuscrito, que sugere a busca em nós mesmos a coragem imprescindível para fugir dos opressores.“As ideias implícitas nas estórias citadas são mais lúcidas do que as idéias filosóficas que expunha para si próprio e para os amigos, fora da criação literária. Estas últimas , um pensamento filosófico discutível; as outras, o artista de gênio, a visão correta de uma vigorosa imaginação criadora."


Fonte: Leandro Konder em Kafka- Vida e Obras


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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobre um luar de agosto

Imagem: Internet

Na manhã de domingo, sob o ar impregnado de um odor enjoativo, despertou com o sol batendo no rosto e com o mugido melancólico dos bois. Sentia-se abatida e  movimentava-se com dificuldade já que o corpo todo lhe doía.
Na noite anterior havia feito uma breve visita  ao amigo Antônio na fazenda vizinha. Conversaram na varanda enquanto tomavam vinho e regressara a casa por volta da meia noite.
Agora, tudo que  precisava era sair o mais rápido possível da atmosfera modorrenta do curral e apagar quaisquer vestígios do recorrente pesadelo.
Entrou em casa e subiu até o quarto. Como de costume, tomou um banho demorado, colocou as lentes de contato verdes para encobrir o residual vermelho na cor dos olhos, cortou a enorme garra - desta vez no dedo indicador direito -, aplicou cicratizante nos arranhões, depilou um tufo de longos pelos ásperos que se destacava no ombro esquerdo e desceu até o canil. Recolheu o corpo destroçado do seu cão labrador e o enterrou no jardim. Limpou as marcas de sangue do chão e em seguida, ligou insistentemente para o amigo Antônio a fim de  confirmar o passeio de barco.  Compreendeu então que  ele não poderia atender.
E tudo se consumava mais uma vez.


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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Natimorto

Imagem: Frida Kahlo

Fi-lo,
não nego 
renego
 o tardio parto.
 rebento indigente,
de vestes tão ralas
de tão tosco pano.
que fio ordinário
urdiu obtusos versos?


Inês mota

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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Laura

(Imagem da Internet: Desconheço autoria)

No dia em que nasceu do ventre de Maria Antônia, se chamava Laura.
Não tardaria a se chamar Laura de Maria Antônia de Zé Camelo.
Ao casar-se, virou Laura do coronel Murilo Gondim.
Insana, tornou a ser Laura.
Sem sobrenome e sem dono.
Louca e livre.

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domingo, 15 de agosto de 2010

Mea Culpa

Foto: Inês Mota

Paulo, meu neto, tem quase 5 anos. Ontem, depois de uma incursão com um grupo de amigos pelo Bloco 10, voltou com um galo feio na testa.
A despeito das chacotas que fazemos de que ele é o chorão da praia, não costuma ser mofino diante dos pequenos infortúnios próprios da tenra idade. Tanto que toma vacinas e injeções avisando logo que não vai chorar, pois trata-se apenas de uma picada de formiga e no máximo vai emitir um discreto ai.
O pranto, via-se, não era espontâneo, mas fomentado pela gravidade que os próprios amigos pareciam imprimir ao fato, e ele provavelmente sentiu algo distinto da reação que costumava captar diante das menos graves desditas anteriores. Tanto é que vez ou outra cessava o choro e olhava confuso para cada um dos companheiros, buscando subsídios a veredicto menos preocupante.
Desvende o resto do texto aqui:
http://objetobscuro.blogspot.com/2010/08/mea-culpa-ines-mota.html


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Memória olfativa

Imagem da internet- Desconhe


Enquanto ouço o barulhinho monótono da lavadora, me veio à memória o penoso trabalho que era lavar as roupas da nossa casa na época em que eu era  uma criança com 9 ou 10 anos de idade.
Éramos já uma família numerosa e essa tarefa era minha responsabilidade
Antes de o sol sair, eu e um dos meus irmãos mais novos, meu auxiliar, nos dirigíamos a uma lavanderia pública. Quando possível, escolhíamos a pedra mais próxima da caixa d’água para facilitar a tarefa. Com os equipamentos a postos, uma bacia, uma lata grande de zinco e um banquinho, iniciávamos o serviço.
Desvende o resto do texto aqui:
http://objetobscuro.blogspot.com/2009/06/memoria-olfativa.html

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sábado, 14 de agosto de 2010

Fórceps

Añañuca amarela, flor do deserto. Por Leon Calquin

O poema na escrvaninha é mudo
a ideia é surda
a mão é inútil
suspira
inerte

O poema na escrivaninha é surdo
a mão é muda
a ideia é inútil
suspira
 inerte



O poema na escrivaninha é inútil
a ideia é muda
a mão é surda
suspira
inerte

A escrivaninha
a mente árida
a mão submissa



 o poema 

 inerte
 inútil

 surdo
mudo

germinará?



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sábado, 7 de agosto de 2010

Fantástico Realismo

(Todas as imagens: Rob Gonsalves)

Os dias nublados que são especialmente mágicos aos olhos de Agnes são também aqueles em que parece haver algo de tenebroso na atmosfera que inquieta sua alma. Urge escalar o galho mais alto da cajaraneira e espreitar pelo caleidoscópio:
Vó Chiquinha chama porcos e galinhas com um cuxe, cuxe, um tico, tico, tico. Vaidosas, elas não querem molhar a plumagem e logo se empoleiram, ao ouvir do Vô Joca que o pai da coalhada anuncia um pé d´água. O porco Joaquim, coitado, que ficou surdo com o barulho da bigorna do Janúncio, nesse dia não voltou ao chiqueiro. Nem nesse dia nem nunca mais. Dizem que anda de bicicleta na Granja do seu Ramiro, entregando cartas para os que sentem saudade.


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domingo, 25 de julho de 2010

Ontem

Imagem da Net

Os pés descalços no leito seco do  rio Piranhas. As mãos miúdas cavam em busca da granulação mais fina da areia que irá polir as panelas da mãe. 


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