quinta-feira, 17 de julho de 2008

"Satyagraha" ...or "“Resistance is futile" ?

Chamam a atenção pela natureza e diversidade , os crimes investigados pela Polícia Federal no país. Porém, por vezes me chamaram mais a atenção os curiosos e criativos os nomes pelos quais são batizadas as operações.

Parece que a mitologia grega, amiúde, tem servido de fonte de inspiração.

Fico imaginado que a escolha do nome Fênix, para investigar os crimes de fraude contra a previdência Social, não foi mero acaso. Pelas reincidências e a dificuldade de erradicação, o símbolo mais adequado seria mesmo a magnífica ave, que além de possuir uma força fantástica, mesmo depois de morta, após entrar em auto-combustão, possuía a capacidade de renascer das cinzas. Pertinente, tal qual a escolha de “Matusalém” e Zumbi”, para as fraudes ao INSS, por motivos idênticos: Longevidade e resistência ao extermínio. Muito lógico!

E Medusa . O que teria motivado a escolha do nome? Seria pela sua condição de mortalidade conferida por Atena ? Sugeriria o lado negativo do homem e a descoberta do peso contudente da culpa? A cabeça de medusa, depois de decapitada por Teseu foi afixado no centro da égide do escudo de Atena. Tal atitude supostamente a protegeria de todos os inimigos, de todos os males. Poderia ser essa a explicação mais plausível para o nome da operação que combateria a compra e venda ilegal de moeda estrangeira no país?

Bastante sugestivas são as Operações “Navalha” (Quem sabe uma alusão ao filme "Navalha na carne" e a idéia de se extirpar o mal pela raiz.), "Cavalo de Tróia" (Descobrir que seu saldo bancário foi surrupiado por hackers, é mesmo um presente de grego) : "Vampiro" ( Licitações de hemoderivados, também são fraudadas, sim senhor!) . Agora, se alguém souber o que significa "Ocrim Esa" , por favor me avise.

O nosso Estado também foi contemplado com a Operação “Terra do Sol” - o óbvio ululante!! - onde Natal/RN, foi a capital do nordeste escolhida para Coordenar o combate ao tráfico de drogas na conexão norte/nordeste do Brasil.

Confesso que havia esquecido completamente da origem do termo “grileiro” e redescobri ao pesquisar a Operação “Kaiapó”, que combateu grilagem, a extração ilegal de madeira e o garimpo nessa área indigena. O termo grileiro é usado para nomear quem falsifica documentos para de forma ilegal tornar-se dono das terras desocupadas (terras públicas) ou de terceiros.

A grilagem é quando se compra várias propriedades, uma do lado da outra, como se fosse um grande loteamento. Porém, na verdade estas várias propriedades unidas formam um grande latifúndio.

Para isso, falsificam documentos de uma forma bastante curiosa: colocando-os numa caixa com grilos, para que, roídos e sujos, fiquem com aparência de antigos. Dizem que há outras formas mais modernas, entre elas o uso do forno microondas, para dar uma tostadinha nos documentos...

Entretanto, nenhuma me chamou mais a atenção do que a Operação Satiagraha. Achei o nome bonito, charmoso. Não sabia do que se tratava.Ao pesquisar, descobri, que assim como eu, muitas pessoas também ficaram curiosas com o termo: Satiagraha significa firmeza da verdade. Termo criado por Mahatma Gandhi na campanha pela independência da Índia. A Resistência Pacífica à serviço da Ética e da Verdade Moral. desenvlvida durante a revolta à ocupação britânica. em sânscrito, Satya = verdade e Agraha = firmeza . E para os indianos é o significado do princípio da não agressão ou protesto pacífico em busca da verdade. Satiagraha é também definido como “caminho da verdade”.

A Operação Satiagraha, foi deflagrada pela Polícia Federal em 8 de julho de 2008 contra grupo de pessoas que supostamente praticava crimes financeiros.

Aqui, algumas das Operações da PF e do que elas se incubiam:



-Cavalo de tróia- crimes pela internet, contra bancos e clientes

-Têmis, Hurricane:
venda de sentenças judiciais favoráveis aos jogos ilegais

-Sucurí: crimes praticados por servidores públicos federais em Foz do Iguaçu

-Anaconda:
venda de sentenças judiciais

-Águia e Planador: tráfico internacional de drogas

-Zaqueu: corrupção nas delegacias do trabalho

-Isaías: Extração ilegal de madeira

-Matusalém e Zumbi: fraudes no INSS

-Lince: extração ilegal de diamantes

-Lince 2:
adulteração de combustíveis e roubo de carga

-Farol da Colina: remessa ilegal de dinheiro para o exterior

-Sucuri e Trânsito livre: facilitação de contrabando

-Pandora: extorsão à empresários

-Medusa-compra e venda ilegal de moeda estrangeira

-Hidra: combate ao contrabando

-Fênix: fraude à previdência Social

-Vampiro: fraude em licitação de hemoderivados

-Sanguessuga:compra superfaturada de ambulâncias, com
dinheiro público

-Kayapó:grilagem e extração ilegal de madeira e garimpo na Terra Indígena Kaiapó.

-Navalha e Orcrim Esa:desvio de recursos públicos federais

-Loki: Operações financeiras fraudulentas no Paraná.

-Terra do Sol: tráfico de drogas entre estados do norte e nordeste.Operação coordenada em Natal-RN


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sexta-feira, 4 de julho de 2008

O equívoco das cotas.

A Comissão de Educação do Senado, aprovou no dia 02 do corrente, Projeto polêmico de autoria da Senadora Ideli Salvati (PT/SC).
Pela proposta, alunos egressos de Escolas Públicas, preferencialmente os que se declararem índios, pardos e negros, podem ter 50% das vagas nas Universidades Públicas e Escolas Técnicas e Profissionalizantes.
Os alunos devem ter cursado integralmente o ensino fundamental nas escolas públicas. Além disso, dentro da cota, devem ser incluídas vagas específicas para negros, pardos e índios de forma proporcional à população do estado onde fica a instituição, além de pessoas com deficiência, independentemente de virem do ensino público.
O sistema de cotas, é um equívoco. Longe de ser uma política afirmativa,acentua e reproduz novas desigualdades.É um viés discriminatório, onde o Estado, ao usar o critério da cor ou "raça", considera uns mais inteligentes do que outros.
Ao invés de política "compensatória" das cotas, defendo investimentos mais significativos do Estado para as escolas públicas, a fim de que possam oferecer um ensino básico capaz de proporcionar a todos- pretos, brancos, pardos, índios ou deficientes , condições de competir com os alunos da escola paga.

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terça-feira, 1 de julho de 2008

Arrochando o nó do cabresto.

Na última quarta-feira, o Presidente Lula anunciou um reajuste de 8% nos valores do Programa Bolsa Família.
O aumento implicará gastos extras na ordem de 400 milhões para o governo.
Ele rebateu com veemência as críticas de que o reajuste tenha caráter "eleitoreiro" pelo fato de haver sido concedido em ano eleitoral e de começar a vigorar antes das eleições municipais, a partir de hoje, 1° de julho.
É inegável, que programas sociais como O Bolsa família, funcionam como paliativos, e geram dependência. Mas, claro, rendem votos. Muitos votos! E o governo não abre mão dessa máquina. Os beneficiários temem perder a quantia mensal que embolsam sem esforço. Assim, acabam votando em quem as fornece. Isso, mantém o statu quo, onde ambos tiram proveito . Uma relação harmoniosa e perfeita, um mutualismo, um acordo que nenhum dos indivíduos da cadeia tenciona quebrar.
Embora, o investimento talvez fosse mais proveitoso, mesmo com efeito a longo prazo, se aplicado no incremento da economia; na geração de empregos; na educação de qualidade. Quem sabe assim, as crianças de hoje não se transformariam nas "beneficiárias" do futuro.
Se na visão do governo, era uma medida realmente necessária, devido o aumento do custo de vida, como alegado, bem que ela poderia ter sido adotada no final do ano passado.
Para mim, atitudes como esta e tantas outras, como obras e verbas liberadas para políticos aliados em véspera de eleição, se configuram sim, descaradamente, na compra de voto, por mais refutadas que sejam.



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segunda-feira, 30 de junho de 2008

A escolha deles... e a minha!

Estou deixando a minha revista. Quer dizer, estou cancelando a assinatura de minha revista semanal, que seria renovada no próximo mês. Mandei um e-mail dando ciência ao Serviço de Atendimento ao Consumidor e recebi um outro de volta, solicitando entre outros dados, o devido esclarecimento sobre os motivos da minha atitude. Na hora, achei melhor dizer pra eles que estou em contenção de despesas. O que é a mais pura verdade. (Muitos brasileiros andam adotando ações profiláticas e de emergência tentando driblar a quase esquecida inflação que ora volta a assustar com toda a força).
Mas depois me arrependi. Eu poderia ter falado com todas as letras, o real motivo da minha decisão: É a revista. Ela está uma droga!
Ela já vinha torrando a minha paciência há algum tempo. Amiúde, eu me perguntava: porque estou lendo isso? E não estou nem considerando como agravante a sua incontestável linha editorial tendenciosa, porque provavelmente todas elas o são, em maior ou menor grau. Só para ilustrar um pouco: Algumas entrevistas nas Páginas Amarelas . Como a revista pode ocupar um espaço tão nobre como aquele para estampar certas inutilidades que por lá figuraram ?
Dentre outras coisas, fiquei indignada, com um artigo sobre a separação de um famoso ex-jogador de futebol , com a forma irresponsável de como o assunto foi abordado pela revista.
Vale citar ainda as "mini-entrevistas" preconceituosas e de profundo mau gosto, na coluna "Holofote", que expõe pessoas ao rídiculo com perguntas idiotas.
Mas o que mais pesou nessa decisão, foi a reportagem de capa, sob o título: “A Escolha de Ronaldo – O “Fenômeno” podia ser um Pelé, mas de escândalo em escândalo sua imagem se desfaz como a de Maradona”. Ronaldo é, inegavelmente, uma personalidade pública. Talvez umas das pessoas mais conhecidas do mundo. Mas, as trapalhadas dele numa noite de farra, depois de um suposto desentendimento com a noiva, merecia mesmo a reportagem de capa, com cinco páginas sobre o assunto? O leitor estaria realmente interessado nisso?
Para mim, pouco importa o extenso elenco de namoradas famosas que o ídolo já teve ( A revista faz uma “profunda” análise sobre as causas dos fracassos das relações amorosas do jogador); não estou absolutamente preocupada com especulações acerca das reais preferências sexuais dele; ou com a sua espetacular trajetória profissional; ou com o fabuloso patrimônio daí advindo. Muito menos se freqüenta casas de prostituição, se bebe muito e se está com excesso de peso.
A reportagem, em toda sua extensão é repleta de piadinhas de humor deslocado e sem graça :“ (...) A imagem de Ronaldo descabelado e destruído, ao lado de travestis em uma delegacia carioca, rodou o mundo. No Brasil virou a piada da semana”. Putz!! Qual é mesmo a graça disso tudo? Isso é, afinal, motivo de piada?
O “Fenômeno” podia ser um Pelé”. Mas em que aspecto? Como jogador, embora com meus parcos conhecimentos no assunto, diria que Ronaldo não ficou nada a dever. E Pelé , com a atitude indigna e repugnante no processo de reconhecimento de paternidade de uma filha, não é exatamente o modelo ético mais apropriado a ser seguido.
Mas na opinião da revista, O Ronaldo bem que poderia se inspirar no Kaká. Ah, o Kaká por que não? A revista diz: “(...) o jogador de Futebol Kaká, é o que Ronaldo vem deixando de ser : Atleta consagrado, modelo de bom moço e garoto-propaganda perfeito” e “ele jura que se casou virgem”!!!...
Fica assim combinado, então: O Ronaldo pode seguir o exemplo que quiser. Ou não seguir nenhum. Poder ser quem quiser ser. Inclusive ele mesmo. Cheio de imaturidades e defeitos, como todo mundo, mas, ele mesmo.! Porque ele tem o direito de conduzir a vida particular da forma que mais achar conveniente.
A revista em tela, pode e talvez continue com sua linha editorial, com seu estilo jornalístico equivocado.
E quanto a mim, também faço escolhas: Recuso-me a aceitar o desfavor , o supra- sumo do anti -jornalismo imbecil. Pretendo daqui por diante, selecionar com mais cuidado, as minhas fontes de informação.
Hasta la Vista!!

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terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Sonhos- Akira Kurosawa

Sonhos-Kurosawa

Uma coleção de sonhos íntimos do diretor Akira Kurosawa num esplendor de imagens e gestos. Aqui o egoísmo humano, as vertentes de estados imaginativos, o terror do apocalipse são discutidos de forma genial, todas submersas em epífises gráficas de tirar o chapéu.

São oito episódios, alguns sobre as experiências vividas pelos japoneses após a 2a Guerra Mundial, como O Túnel.O trauma das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, por exemplo, é nítido nos episódios O Demônio Chorão e Monte Fuji em Vermelho.Este último, apesar de tratar de um assunto pesado, tem belas imagens formadas pelas nuvens de radioatividade coloridas (O Amarelo do Estrônio 90, o violeta do Césio 137 e o vermelho do Plutônio 239).O fascínio do diretor pelo pintor Vincent Van Gogh também está presente. É retratado em Corvos, no qual um homem, ao admirar um quadro do artista, é levado para dentro da obra.Além de passear pelas pinturas do ídolo ao som da 9a sinfonia de Beethoven, recebe uma lição de pintura do holandês: só é capaz de pintar aquele se envolve com a natureza, que a admira e segue a beleza que ela tem a oferecer.Outro capítulo marcante é Pomar de Pêssegos.Levado por uma estranha força ao local onde ficava o pomar de pêssegos de sua família, um garoto encontra o imperador japonês e seus súditos numa espécie de morro cortado em patamares - o que remete à tradicional hierarquia japonesa. Eles estão preparados para dançar e celebrar "O Dia da Boneca", ou seja, o florescimento dos pessegueiros, pois os bonecos representam os espíritos das árvores. Porém todas foram cortadas e não há mais o que celebrar. Acusado de egoísta pelo imperador, o garoto puro chora a morte das árvores. Como prova de comoção eles dançam uma calma e sincronizada dança. Nesse momento começa a chover pétalas de flores de pêssego e no local em que estavam as pessoas surgem lindas árvores floridas.



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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Tears in heaven - (Clapton canta a perda do filho)


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sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

M - O Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang)




"No raiar do cinema falado, esta obra notável do mestre realizador de Metrópolis (1927) e de Desejo Humano (1954), reúne em si o melhor dos dois mundos: reconhecemos tanto os melhores elementos expressivos dos filmes silenciosos, quanto utilizações sonoras (tanto ruídos quanto diálogos) cuja arte até hoje dificilmente é igualada. Vamos ver:Logo no começo do filme, temos uma das mais antológicas cenas da Sétima Arte: a câmera vem acompanhando em panorâmica a menina Elise Beckmann, que caminha batendo no chão a sua bola. Ela pára na frente de um poste e fica batendo a bola num cartaz de “procura-se”, que se refere justamente ao serial killer de garotinhas (eis o “vampiro” de Dusseldorf). Vemos apenas a bola batendo no cartaz – que antítese magnífica! Então, chega pela lateral a sombra de um homem (que já intuímos ser o assassino), cobrindo metade do cartaz. Quanta expressividade nessas metonímias! (a bola, o cartaz, a sombra) Digam-me que cineasta contemporâneo possui essas sutilezas... Esta cena, de acordo com o professor Ismail Xavier, apresenta ligações muito próximas com a estilística de Alfred Hitchcock. Em ambos os cineastas, temos como preocupação-mor significar o máximo possível através de meios exclusivamente cinematográficos.O assassino começa a conversar com a pequena Elise e a leva para passear. Aqui, tem-se um exemplo magnífico da montagem paralela oriunda de Griffith (veja-se a seqüência final de O Nascimento de Uma Nação) e que será aproveitada também por Hitchcock: enquanto o “vampiro” caminha com Elise pelas ruas, comprando-lhe balões, a mãe da menina espera ansiosa em casa, olhando para o relógio a todo momento, inquirindo os vizinhos, alegrando-se em vão quando tocam a campanhia (pois é apenas o carteiro). Os acontecimentos, seus dramas e seu suspense, vão sendo construídos lentamente através da montagem paralela. Na mesma seqüência, ocorre a versão cinematográfica do expediente literário do foco narrativo em 1ª ou 3ª pessoas: a mãe de Elise vai até o vão da escadaria em espiral (vemo-la pelas costas) e olha para baixo; então, vemos o que ela vê (câmera subjetiva). Este é outro expediente tipicamente hitchcockiano.Ah, não se faz mais cinema como antigamente!... Ainda nesta (como já disse, longa) seqüência, a mãe preocupada vai até a janela e grita o nome da filha. Corte. Vários planos, então, sucedem-se – acompanhados do som dos gritos da mãe (veja a integração artística dos recursos sonoros à imagem) – mostrando a escadaria vazia, o pátio vazio, o prato (vazio) de Elise colocado sobre a mesa do jantar, e, finalmente, uns arbustos em algum lugar desconhecido de trás dos quais sai rolando a bola da menina Elise. Precisa mostrar mais alguma coisa?
Após mais este crime, a população da cidade, especialmente aqueles que têm filhas pequenas, entra em verdadeira paranóia, o que desemboca – sem surpresa – numa terrível caça às bruxas. Procura-se o assassino serial em cada esquina, basta que um cavalheiro se dirija a uma criança. Começamos aqui a ver o poder perigoso de uma coletividade assustada (que no final do filme será levado às últimas conseqüências). Ainda preciso ler o essencial De Caligari a Hitler: Uma História Psicológica do Cinema Alemão, de Siegfried Kracauer, pois, pelo que sei até agora, ele trata da prefiguração do nazismo nos filmes expressionistas alemães.Enfim, toda a sociedade se une para combater o assassino desconhecido (o que, entendido com muito cuidado, não deixa de ser belo e interessante, já que se trata de uma ameaça a todos; porém, o que acaba acontecendo é que todos projetam seu ódio e sua paranóia na figura do “monstro assassino”, e isso, como já disse tem conseqüências perigosas). Até mesmo o crime organizado se une à tarefa – já que eles estão sofrendo cada vez maiores prejuízos com o aumento e a rigidez constantes da vigilância e das batidas policiais (por causa do serial killer). Em montagem paralela (mais uma vez), vemos a reunião dos criminosos e a reunião das autoridades da polícia, ambas discutindo meios de capturar o “vampiro”: o corte seco que separa os dois acontecimentos na verdade os une como se fosse uma rima, ou seja, igualando a lei e o fora-da-lei em equivalência. Chama muito a atenção aqui o exagero expressionista da fumaça dos cigarros – todos fumam nas duas reuniões. Mas é o crime organizado, com todo o seu “poder paralelo” que chega até mesmo a mobilizar os mendigos, que levará a melhor na captura do psicopata.Falando nos mendigos, outro exemplo de virtuosismo cinematográfico é quando a câmera passeia folgadamente pela sede da organização dos indigentes, focalizando aqui e ali cada grupo: uns separando bitucas de cigarros e charutos, outros restos de comida, alguns jogando cartas. É o olhar travando conhecimento total do ambiente; essa movimentação livre da câmera lembra A Grande Ilusão (1936), de Jean Renoir. Mais um exemplo da rica apropriação da nova tecnologia do sonoro: o psicopata é caracterizado, ao longo do filme, por uma certa melodia que ele assobia quando está em vias de cometer o seu crime; sua captura ocorre graças a um cego que vendera o balão a ele, quando estava com Elise Beckmann. O cego reconhece o assobio. Esse tipo de reconhecimento, muito apegado às coincidências, é típico da tragédia clássica.Finalmente, a longa seqüência final do julgamento (o filme todo se organiza em torno de longas seqüências muito detalhadas e explicativas, o que lhe dá certo caráter de reconstituição documental, já que se baseia numa história real: o “vampiro de Dusseldorf” agiu nos anos 20). É um julgamento totalmente informal, conduzido pelo crime organizado – com a presença da população local – na obscuridade do porão de uma fábrica abandonada. O “juiz” procura fazer o réu lembrar, enxergar, falar, lidar, enfrentar os seus atos hediondos. Então, Peter Lorre (que interpreta “M”) dá um show! Seu discurso é incrível e temos aqui de novo o bom aproveitamento dos recursos sonoros. É curioso pensar no fato de que o “vampiro” não recebe nome próprio algum, apenas alcunhas: “vampiro”, “M”, “monstro”, “assassino”, “pervertido”, etc. Apesar de a polícia, por sua vez, ter chegado a ele graças ao registro de sua internação passada em um manicômio, o filme não revela o seu nome ou a sua história. Ele não é um indivíduo humano dotado da dignidade cabível. Apesar dos seus crimes horripilantes, ele não passa de alvo, de encarnação para as piores projeções psíquicas da comunidade. A sombra que tomaria conta da Alemanha está se adensando.Ainda assim, é concedido ao réu um advogado de “defesa”. A coisa torna-se mais complexa, ainda mais ambígua e interessante. Os argumentos da acusação e da defesa discutem calorosamente os limites até hoje polêmicos entre justiça e vingança; entre punição e correção. Todos os argumentos, pontos de vista e fatos que povoam o debate, no Brasil atual por exemplo, sobre o problema da violência, particularmente sobre a pena de morte, estão no filme. De novo lá – e também aqui – o perigo da coletividade entregue a emoções primárias e de novo o perigo do nazismo, do qual não estamos tão distantes quanto gostaríamos de imaginar.
Será que eu conto o final? Veja o filme e surpreenda-se. E compare o seu desfecho com o fim que costumam levar muitos “vilões” em muitos filmes hollywoodianos da atualidade, até mesmo em desenhos animados. M, O Vampiro de Dusseldorf pode antecipar o nazismo, mas a posição que Fritz Lang toma em relação a ele é bem clara e reconfortante para nós. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito de muitos, muitos filmes de Hollywood que tratam de crime e castigo. Isso é que é realmente assustador..."(Por "Sombras Elétricas")

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domingo, 25 de novembro de 2007

"Vômito Desnecessário" - Um Curta Metragem

Vômito Desnecessário

"O vídeo se desenrola dentro de uma caixa preta...Uma metáfora sobre os processos nos quais nós seres humanos nos deparamos antes e depois do nascimento...E no decorrer de nossas existências. Descreve a construção da consciência através de projeções em conjunto com a performance da bailarina (Cacá Bordini) e quão frágil esta construção se torna com os questionamentos e a inutilidade de tentar expressar através das linguagens simbólicas o que todos sabem...Quais certezas podem ser sustentadas?

Poderíamos então acreditar nesta exteriorização do que imaginamos ser? Deixar de ser somente existencial tornando-se substancial...Uma caixa preta...Teríamos então opção de ficarmos dentro desta caixa ou destruir as armadilhas conceituais que criamos..."
( Tiago Spina e Hugo Bertelli) Participou do ENTRE TODOS - 1º Festival de Curtas Metragens de Direitos Humanos 2007

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terça-feira, 13 de novembro de 2007

Here comes the sun...


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Tempos Modernos -Chaplin



Tempos Modernos, de Charles Chaplin

(1936)

“Não sois máquina, homem é que sois” (C.Chaplin)

"A idéia deste breve comentário é apontar alguns aspectos do filme de Chaplin. Obviamente, não se estará com a pretensão de uma abordagem exaustiva de um filme tão denso, que se abre a infindáveis análises, dos mais variados pontos de vista. Embora tomado como mais um filme com a marca da comicidade de Chaplin, o que ele, em seu formato e roupagem, é, gostaríamos de tomar, entre as muitas existentes, outras dimensões de conteúdo trazidas pela película. Passemos a elas.
Partimos da idéia de que tanto no filme como no momento histórico do cinema em que lê foi feito, Chaplin trata de forma crítica da questão do tecnicismo na sociedade moderna. O filme, de certa forma, reflete a própria experiência de Chaplin à época da filmagem. Recém saído do sucesso de seu filme anterior (“Luzes da cidade”) no qual enfrentou o ceticismo de que em pleno desenvolvimento do cinema falado, que muitos indicavam como a morte da forma anterior de se fazer cinema, Chaplin conseguiu mostrar que em termos da produção e recepção da experiência artística, a técnica de vê ser vista como um meio, que não deve obscurecer o conteúdo. O sucesso conseguido com o filme “Luzes da cidade”, garantia à proposta artística de Chaplin uma vitória sobre o ceticismo daqueles que indicavam a pura necessidade da nova técnica sobre a anterior no sentido de maior qualidade. Os arautos dos novos tempos tiveram de se contentar com a demonstração de Chaplin sobre as variadas formas de sensibilidade humana e suas possibilidades de transmissão.
Com “Tempos modernos”, Chaplin já garantira a indicação de que, mesmo em meio ao cinema falado, e as novas subjetividades e sensibilidades por ele produzidas, o cinema mudo, poderia ainda ter seu espaço. Chaplin, inclusive, faz uma incorporação satírica da fala neste filme. Mais do que submeter o cinema mudo e sua estética ao formato do cinema falado, ele submete a fala a outras formas de linguagem. No filme, a fala aparece como grunhidos, às vezes sem sentido, às vezes de forma periférica e marginal. A cena em que Chaplin, instado a cantar, e sem as anotações da letra da música, que perdera, é obrigado a improvisar e “cria” uma letra sem sentido, mas que é bem aceita ao final, já que o central não estava, ali, na letra cantada, mas no sentido que ele compunha com dança, gestos, ritmos.

A “vitória” de “Luzes da cidade”, garantiu um bom espaço de ação à Chaplin no “Tempos modernos”. Se ele representava a luta de seu autor, na vida real, contra as imposições acríticas e ufanistas do tecnicismo, o que se representa no filme esta no mesmo universo de sentido. Isso será verbalizado no futuro no filme “O grande ditador” quando ele profere a máxima, que nos serve de epígrafe, contra o processo de maquinização do homem que o levava à insensibilidade na realização de seu ser humano.
Sem nos prendermos diretamente a cada parte do filme, diríamos que o filme mostra as formas pelas quais, o homem na sociedade capitalista desenvolveu um fetiche sobre a técnica e seus resultados. O homem deve ser substituído pela máquina, quando não ele mesmo deve virar uma espécie de máquina. A rotinização e o esvaziamento das dimensões criativas e societárias do trabalho surgem, entre outras, como facetas imediatas deste tipo de experiência. Ela se espelha por todo o corpo social. O tecnicismo, a burocratização e a alienação são a tônica.
No filme, o homem, trabalhador – e aqui vale a ressalva, pois o “doce vagabundo” de outrora entra, se submete, no mundo do trabalho -, percorre uma verdadeira odisséia no interior e no exterior da fábrica. A incessante tentativa de transformá-lo em uma máquina repetitiva, o acompanha por, praticamente, todas as cenas. Quando consegue escapar da fábrica, cai nas malhas da polícia e da medicalização. Fábrica, polícia, médicos, drogas, com este rede a lhe cercar, são poucos os poros que sobram a esse homem neste sistema da “jaula de ferro”.

Uma das indicações de possibilidades de questionamento apresentada por Chaplin, reside na união e no protesto dos trabalhadores. Isso lhe valeu, inclusive, a pecha de bolchevista nos Estados Unidos. Porém, há uma “deixa”crítica de Chaplin que não pode deixar de ser apontada. O protesto acaba sendo feito de forma mecânica, pelos operários-máquina, seguindo cegamente quem lhes levante a bandeira. Ele parece apontar que romper com aquele sistema era romper também com formas que, ainda que de reação a ele, haviam sido geradas em seu interior, trazendo sua estampa. Elas, então, deveriam enfrentar os limites por ele impostos, não ser apenas sua contra-face, mas ser-lhe o outro, para, aí sim, transcendê-lo.
Mesmo na tentativa de superação por dentro feita pelo “amor” e pelo “sentimento”, apresenta seus limites. Para conseguir concretizar plenamente seu amor pela jovem – concretamente em termos de constituir família, ter um lar, bens materiais etc -, o trabalhador precisa, mesmo após ter “abandonado” aquele sistema, se “entregar” novamente a ele. Parece que a “realização” do ser ou se fará “por dentro”, ou não se fará.


Porém, Chaplin parece guardar a idéia de que a utopia, fundamental como constituidora de horizontes imagináveis - e, por isso mesmo, possíveis -, precisa ser mantida. A busca de um novo projeto, transcendendo ao “mundo das coisas vigentes”. Juntos, atrelados por um sentimento comum, o dois terminam por caminhar uma estrada em busca de um outro mundo possível, guiados pelo sol radiante.
Embora de título “Tempos modernos”, creio que o filme tem muito a nos dizer nestes “Tempos pós-modernos”. Podemos pensar através dele todas as possibilidades que embora docilizadas e feitas de forma sutil, vão nos transformando ainda em seres-máquina, ainda que pretensamente multifuncionais. Chaplin antecipa toda uma relação entre o sistema de instituições e práticas que servem para controlar os trabalhadores. Hoje, entre as muitas coisas que se pode indicar, controla-se o tempo e os ritmos de quem esta “dentro” das empresas e joga-se a polícia contra os que estão de “fora”. Mesmo os setores considerados intelectualizados e qualificados foram submetidos ao ritmo frenético da produção, o conhecimento passou a ser quantificado, a conexão eletrônica transformou as casas em local de trabalho e longas jornadas, nas quais os “capatazes” são os próprios trabalhadores. A liberdade, da qual só se percebe a faceta da insegurança, tem gerado angústia, stress e depressão. Nunca se viu tanto uso de remédios anti-depressivos, transformando-nos na sociedade Prozac. As cadeias, ao redor do globo, incham de populações marginalizadas pela sociedade e pelo mundo do trabalho, e as leis de repressão se ampliam e enrijecem, frente ao enfraquecimento e flexibilização da legislação trabalhista, que gera um verdadeiro desamparo, jogando os trabalhadores em um mundo precário e instável.
Enfim, deve-se tentar ver o filme “Tempos modernos” não como um mero retrato de um dado momento histórico. Antes, deve-se explorar, tomando-o pela raiz, as suas potencialidades de lançar luz sobre nosso presente".


Por: Marco Aurélio Santana
professor de História da UNIRIO
(Universidade do Rio de Janeiro)










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