sábado, 8 de fevereiro de 2020

Abdução

Imagem: Papel de parede Magnathorax - O Segredo do Triângulo das Bermudas

Quando Joãozinho galgou o pé de feijão transgênico deparou-se com Gigante, o anão, conversando com Ave, a centopeia de trilhões de pares de pernas. Os dois brincavam em torno de uma casa decorada com deliciosas iguarias que iam saboreando enquanto conversavam.

Ave exibia uma meia diferente em cada pé e se divertia com um chocalho repleto de objeto coloridos, enquanto Gigante enchia de bugigangas a enorme carroceria do seu caminhão.

Foi assim que Joãozinho entendeu o intrigante mistério das coisas que sumiam misteriosamente de sua casa: além das guloseimas, como potes de Nutella, sorvete de flocos, chocolates, castanhas, brigadeiros, trufas e fatias bolo de aniversário, encontrara tigelas sem tampa, tampas de tigelas, tarraxas de brincos e brincos solitários. Dezenas de agulhas de coser, carretéis de linha, rabicós, tampas de canetas e canetas sem tampas. Havia pilhas de papeizinhos com números de telefones importantes, além de pentes e escovas, grosas e mais grosas de grampos de cabelo, inúmeros pés de meias descasados e grande quantidade de carregadores de celular.

Urgia voltar pra casa e cerrar portas e janelas. 

Em poucos minutos um curioso quadrante se abriria novamente e mais uma leva de coisas iria para o espaço.

Inês Mota

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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O sertão virou mar... um mar de verde!!

Ontem, visitei o Seridó.
Fui a Caicó. Uma visita rápida. Observei uma mudança na região, a partir de Currais Novos, em relação à paisagem de pouco mais de 20 dias atrás, a última vez em que estive lá.

Parecia um milagre: A caatinga cinzenta, se transformara num verde exuberante, onde os arbustos e árvores, agora emergem de um tapete igualmente verde, que recobre todo o marrom avermelhado do solo, a cor predominante por muitos meses do ano.

De fato, na caatinga, a mata branca (que é um bioma único no mundo e exclusivamente brasileiro), as plantas xerófilas possuem mecanismo que permitem que se adaptam bem ao semi-árido: suas raízes são profundas, o que facilita a busca de umidade; são recobertas por uma camada de cera que retém líquidos e as folhas pequenas, são finas e por vezes reduzem-se a espinhos. 

Durante o período de seca, a maior parte dessa vegetação, com espécie de plantas caducifólias, perde a folhagem, evitando assim um nível maior de perda de água pelo mecanismo da respiração.
Há ainda as cactáceas, de folhas atrofiadas e caules grossos que resistem à seca armazenando grande quantidade de água em sua estrutura peculiar.

Assim, basta que caiam umas poucas chuvas na região, para que tudo se transforme rapidamente e o que era seco e aparentemente sem vida, volta a ser verdejante. Novamente, brotam as folhas nos galhos ressequidos e o Sertão ganha nova pintura.

À tardinha, com um tempo mais ameno, viajo de volta a Natal. Da janela do ônibus, os meus olhos, agora desacostumados às imagens, (há um ano, tão comuns e normais), passam a perceber detalhes. Vejo a paisagem próxima ao açude Itans, ora com um nível de água bastante reduzido, devido a baixa precipitação pluviométrica nos últimos anos e pela intensa evaporação.

Em alguns trechos, pode-se ver as pedras do leito. Nos locais mais rasos, a água forma vários braços de nesgas alongadas que parecem se agarrar a terra, num gesto desesperado para impedir a intensa evaporação e infiltração.

Aos poucos, esses pedaços de água vão sumindo e só a caatinga é alvo de minha observação.
Em alguns pontos há uma enorme devastação da cobertura vegetal. E os espaçamentos são muito grandes entre um arbusto e outro. Ainda há a pratica de derrubada da vegetação com fins de obter-se o carvão vegetal e para alimentar as olarias.
Até quando?
Mas logo abandono esse pensamento quando começam a passar velozmente diante de mim, as cercas de pedra.
São construções feitas com pedras simetricamente arranjadas. Provavelmente, algumas, construídas por mão de obra advinda das Frentes de Emergência, quando das grandes estiagens. 
Verdadeiras obras- de-arte. Quilômetros e quilômetros delas, que me levam a questionar, que mãos as construíram, o que será que resguardam
nessa terra aparentemente abandonada?

As cercas de pedra são bonitas e resistentes. Elas, dispensam o uso de madeira e impedem o carreamento do solo, ajudando assim na sua preservação. É visível nelas o mal estado de conservação e há vários pontos onde desabaram, deixando assim enormes buracos. 

Provavelmente, em alguns anos, essas cercas deixarão de existir.
Darão lugar à construções mais modernas, com cerca invisíveis.

A alusão às cercas, é meramente do ponto de vista contemplativo, artístico e estético.
No momento não me detenho em outro tipo de análise.
Mas o sumiço delas, pelo menos do meu campo de visão não demorou.

O Ônibus tomou outra direção e enveredou pelas curvas da estrada que leva a Jardim do Seridó e rapidamente tudo foi ficando para trás.

Agora já estava escuro e começou a cair uma chuvinha fina, que aos poucos foi aumentando de intensidade. Eu
 havia sentido a falta dos trovões. 
E eles ecoam, ainda que abafados pelo barulho do motor.

De vez em quando eu podia ver as bonitas serras, a cada relâmpago que iluminava o céu.


Fotos: Internet

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domingo, 21 de janeiro de 2018

Geometria


Aghata sempre fora um animal inquieto desde o seu nascimento. 
Exceto pelos meses que passara na barriga de sua mãe, ela diria que todos os lugares por onde viveu e morou lhe pareceram incômodos e desconfortáveis.


Fora sempre uma estrangeira aonde quer que fosse. De nada adiantava a água, a comida, uma paisagem bonita, um cantinho fresco para repousar o corpo.
Assim, quando saia dos seus confinamentos, Aghata corria em círculos, desesperada, procurando uma forma de voltar para o que ela considerava sua casa, que na verdade, não atinava onde pudesse ser.

Foram incontáveis as ocasiões de fugas e de falsa liberdade durante toda sua juventude e idade adulta.
Os seus donos, preocupados, começaram a segui-la para tangê-la,- se não de volta pra casa, já que ela não sabia onde ficava -, mas para mantê-la quieta e não lhes trazer aborrecimentos.
A princípio ela resistia e escapava dos perseguidores em louca disparada, dando voltas e voltas, sem contudo,  ir a lugar algum.

Aos poucos foi ficando velha e resignada.

Ainda se movimenta lentamente no interior do círculo, onde em várias extremidades, se posicionam seus caçadores, cada um num local estratégico, a vigiá-la ao longe, por toda a circunferência.


Aghata agora caminha titubeante, percorre o raio que vai do centro do círculo ao ponto onde se acha um dos seus donos.
Lá é escorraçada e ela faz o caminho inverso. Faz vários percursos, sempre enxotada por um empurrão, uma pedrada, uma palavra àspera  e ela retorna ao ponto zero.


Tantos diâmetros percorridos. Mas Aghata sabe que não há saída.
Deita-se, aconchega-se consigo mesma.
Tenta não sentir dor. Não sentir dor já lhe dá um pouco de paz.

Pensa numa estrela distante e se acalma.
Assim deverá viver até tornar-se apenas um punhado de pó a pairar no espaço.


Aghata não não sente mais desejo de voltar pra casa. E isso não tem mais importância.


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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Óbolo para Caronte



 Imagem. Fonte: Portal dos Mitos

Morri numa quinta-feira de agosto.
Para ser mais exata, às 11:00 horas do dia 24, tal como registrado no documento de óbito.
Consta das crenças populares que esse é o dia que o cão anda solto. Não saberia esclarecer entretanto a que espécie de cão se referem, o que também não faz a menor diferença.
A princípio me abstenho de esmiuçar os detalhes do fatídico ocorrido visto que o que está em causa no ensejo não são as picuinhas dos ávidos perscrutadores da vida alheia – ou da morte alheia-, que não descansam até conseguirem encontrar uma explicação plausível, elucidativa – e justa – para a tragédia e, por fim, darem-se por satisfeitos.

Sabemos contudo que os abutres são mais ferozes quando o morto resolve dar cabo da própria vida (o que felizmente não é o meu caso) e cada um veste sua sinistra capa, empunha boné e lupa e se empenha na tarefa investigatória, não descansando antes da absoluta convicção do motivo que levou o pobre diabo a uma atitude tão drástica e avassaladora que deixa como legado um sofrimento eterno para a família. E por isso as elucubrações que não têm mais fim: "o que teria ocorrido? Sofreria o defunto de alguma doença grave escondida a sete chaves? Estava a dever grandes somas ao banco? Haveria por fim descoberto que viver é esquisito e desistido de buscar um sentido à existência? Teria enlouquecido de vez? Deixou alguma carta dando explicações?".

Quero antes de tudo, ressaltar que não sou uma ingrata, uma mal agradecida que não leva em conta a dor dos familiares e amigos, a gentileza, o amor e os gastos dispendidos com a despedida do mundo terreno. A minha indignação reside no fato de teimarem em me proporcionar um velório “digno de tão querida pessoa” (sic), transgredindo todas as minhas ordens expressas, ditas, escritas, propaladas e reiteradas aos cinco ventos aos membros da família, a amigos e inimigos, próximos e distantes.

Pelos Deuses! Quantas vezes deixei claro que abominava e dispensava aquela cerimônia lúgubre que imprime ao dia uma cara de noite, um céu cinzento de garoa fina. E aquele ar pesado, impregnando as ventas do mundo e a boca da noite com um cheiro de dor e desengano, lágrimas e ausência.

Carpideiras de plantão entoam um triste alarido misturado com o burburinho das vozes das rezadeiras e o choro pungente dos parentes inconsoláveis. As luzes bruxuleantes pendem das paredes e teto, velas de chamas amarelas e chorosas piscam pesadamente e pingam estalactites quentes ao lado do lustroso ataúde que lembra um enorme e – caro – pão doce. A fila das pessoas se acotovelando para apreciar mais de perto a cara do desencarnado, a desgraça dos parentes e a certificar-se se a dor expressa pela família condiz com tão suposta grande perda.

O cheiro de morte, de incenso, do chá, do café e biscoitos servidos aos visitantes. O odor das flores. Ah! As flores… Eu disse que não queria flores. Mas eles teimam em retirá-las de onde nunca deveriam ter saído para pateticamente recobrirem um corpo morto que elas não podem e nunca puderam perfumar. E há mais flores. Há grinaldas e mais grinaldas ornadas de fitas com dizeres pesarosos dispostas em círculos pelo salão. Pobres flores. Morrerão precocemente. Sem merecer.

Debalde minhas escaramuças – defunto não tem querer – segue noite adentro a cerimônia. A família, sofrida, aos farrapos, se reveza no doloroso espetáculo. Os visitantes escasseiam à certa altura. No silêncio, um galo canta ao longe. Ainda há galos anunciando o sol e que a vida continua para os que ficam. A madrugada avança lenta, prolongando o sofrimento dos que esperam o grand finale, a hora do merecido descanso — dos vivos, em dolorida paz, em suas casas, ciosos do dever cumprido - e do aconchego que resta ao morto ao colo da terra.

Mal clareia o dia, novo ajuntamento de gente. Terços. Ladainhas e choros, ora convulsivos, ora serenos e resignados. Hora da partida. Segue o cortejo, de carros, de gentes conhecidas e desconhecidas, de curiosos, que se dirigem à minha morada final. Uma breve visita à igreja para as bênçãos do padre, com mais rezas, abraços de conforto aos familiares, recomendações aos deuses, pedidos de misericórdia ao pai eterno, água benta, crucifixo, o cheiro de incenso, o cheiro da morte dormida.
Por fim, uma gaveta me acomoda. Uma, duas ou três pás de cal. Os funcionários da morte caçoam. Morreu de uma cocada… coitada. Não, não fora uma cocada que fizera mal, esclarece. Fora um coco que lhe caíra na cabeça. De grande altura. Não resistiu, a infeliz. Morte estúpida. Gargalham convulsivamente e se vão deixando na cripta abafada um bafo azedo de aguardente. Depois, só o escuro, o silêncio. Só eu e elas, as flores inocentes. O sono no escuro silencioso com cheiro de terra.

Pobres dos mortos que não têm vontades.

Pobres dos vivos. Não levo o óbolo para Caronte.


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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Cinzel

(Imagem: site do artesão)


No lugar ermo da Caatinga que lembra o fim do mundo, o barro é arrancado a golpes de picareta pela mestre Bissinha.

Sob o olhar atento da discípula, aos poucos as preciosas entranhas da terra vão se avolumando em dois recipientes.
O maior, uma lata de querosene 'Jacaré'.
O outro, uma embalagem de manteiga do programa americano 'Aliança para o Progresso'. A estampa retrata o aperto de mão imperialista recebido de bom grado pelo miserável do terceiro mundo.

No caminho de volta, o sol cozinha a pele e as bordas das latas lanham as mãos.
As rodilhas de molambo tentam  inutilmente cumprir a tarefa de minimizar a pressão da carga sobre as cabeças.

O quão insignificante é a fadiga diante da iminente recriação do mundo a partir do barro.

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sexta-feira, 10 de junho de 2016

A Mesma Praça



Deixei a Valentina na escola e resolvi descer pela Praça Afonso Pena. Sim, aquela mesma que se converte numa linda piscina de águas marrons e sujas quando chove muito aqui na Tijuca. Mas que, quando é praça, é uma boa praça, sim.

Claro que me dirigi diretinho para aos equipamentos de ginástica da terceira idade e, brinquei com as maquininhas por uns quarenta minutos, até que um grupo de pessoas mais adiante me chamou à atenção junto ao monumento do Tim Maia.
Corri pra lá. Havia uns atores professores, que davam aulas de teatro à pessoas da 'melhoridade'. (As aspas decorrem da minha incerteza quanto a isso) 
Fiquei curiosa. Sentei, observando tudo; como eles atuavam propositalmente, de forma caricatural, carregada, exagerada belamente na 'cor'.

Durante uma hora, mais ou menos, me diverti, com as gentes que aos poucos chegavam e, captei e compactuei com aquela energia gostosa que se manifestava bem na minha frente e ali, se fazia visível, contagiante e colorida.
Cantei com eles a música que servia de fundo para a representação. Cantei alto, com muita vontade, aquela canção da minha adolescência, lembrando do meu pai e sorrindo de muita saudade: "Esse cabeludo por acaso é cantor? Desliga esse rádio, menina e, crie juízo. Isso não é música de futuro".

Quando chega o fim dos trabalhos, um senhorzinho de barbas brancas e longos cabelos me carrega pra roda e, rodamos, cantando, sorrindo e ouvindo as orientações dos que repassavam as lições, pedindo para que atentassem às deixas de cada um.
Vez ou outra, os meus vizinhos da esquerda ou da direita, me interpelavam, atrapalhando as explicações e aí, ouvíamos alguns 'psiu!', suaves repreensões.
-Ah, menina, então você é de Natal.... só podia. Percebi pelo sotaque...Linda cidade!!!
-Adorei. Ficamos em Ponta Negra e fizemos passeio de bugue, com emoção, hahahaha.
-Praias linda! Aquilo lá é o paraíso - na terra. Que é que estás a fazer aqui? Se eu pudesse eu morava naquele céu...
Aí começa a chamada.
-Fulano...!
-Presente!
-Sicrano!
-Presente!
-Inês!
-Faltou. A Inês é morta! heheheheh
-Como é seu nome mesmo?
-Inês Mota!
-Gente, a Inês é viva, hahahaha
-Viva, viva a Inês viva!
-Quer fazer parte do grupo? Toda quinta, aqui, às nove em ponto.
-Ah, não sei.... vou ficar olhando...tenho trauma. Nunca soube representar...
-Não precisa. Basta simular um bocadinho. Só um bocadinho, entendeu? hahaha.
-Como o Fernando Pessoa. "O poeta é um fingidor..."
E tome música, violão, gente cantando, eu cantando a música do cabeludo que pai não gostava. https://youtu.be/vZ8sw_lH9ms

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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Kurosawua ou a angústia da influência

Imagem: "Ícaro e Dédalo", por Charles Paul Landon
Eram dias de mudança.
A casa, como em toda mudança, apinhada de caixas e móveis, bichos e gentes. Um caos que não se sabia por onde por ordem.


Da janela, Agnes assiste aos inusitados voos das crianças que, do 20º andar do prédio em frente, despencam sorridentes em queda livre.
Embaixo, o sangue, o espanto, o desassossego, a dor, o carpido das mães.
Agnes, pensativa, lembra apenas dos rostos felizes dos meninos que não temiam voar.
Em frente à casa, multidão. Um formigueiro em burburinho.
Tumulto. Especulações.


Então fora isso.
Era o que se propalava na rua. Era do Ângelo, a culpa.
Ângelo de Agnes de seu Chico.

33 anos, manso, sorridente, estudioso. Desde pequeno gostava das engenharias. Lia revistas de eletrônica. Engendrava  rádios transmissores domésticos.
Agnes e Ângelo são abordados. Na própria casa.

Polícia. Polícia. Polícias verdes e marrons. Camuflados.
Ângelo ri com todos aqueles bonitos dentes e grandes feito pedras de dominós. Debocha.
É broma. Só pode ser.


O artefato era seguro. Fora feito há mais de 20 anos. "Eu era um menino".
O projeto, só compartilhado com alguns outros poucos diletantes das tecnologias, era audacioso. E perfeito. Nenhum acidente registrado durante os testes com o protótipo.
Quantos voaram. Quantos realizaram sonhos. Quanta liberdade furtiva em meio aos cerceamentos. 


Mas os sonhos, como sonhos que são, são esquecidos, passam como o tempo e os protótipos e os projetos perfeitos ficam para trás, na caixa dos esquecimentos.
Ângelo sabe agora que não está sonhando. As polícias viram exércitos. Dentro de casa, na rua. Infinitas. Infinitas como fractais.
Enquanto bolina a memória, Ângelo vê materializar-se o objeto elíptico, tão familiar, tão roto. Surgem os distintos botões de cores e dimensões variadas, como os planetas do Sistema solar.


Mas, como lembrar das combinações, o código secreto, acionar o equipamento - agora mortal-  e, desativar suas funções?
Debalde, ele luta para lembrar a sequência. Os dedos passam trêmulos pelo dispositivo. O tempo não perdoa. Deleta a memória. O tempo, o tempo é lugar comum, é clichê.
Gabriel... Quem sabe, ele lembra... Ele não lembra.
Antes de sair, Ângelo volta-se para Agnes. Olham-se.

Agnes, rebela-se. As polícias não são páreo para uma mãe.
Avança. Transpõe a porta, abraça Ângelo.
Tropeçam. Caem, levantam, abraçados.


Agnes acorda. Chora um choro de felicidade.
Fora só um sonho. Apenas um sonho.
E do sonho, restaram as perturbadoras lembranças. As lembranças e o artefato. Em suas mãos.
Persevera.

Há de descobrir o bendito código.
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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Eros e Psique - A cupidez no Olimpo

Eros e Psique por Jacques-Louis David (1748–1825)

Conta a lenda que vivia uma asquerosa lagarta que em seu curto período larval passeava distraidamente pela horta de repolho roxo. Daí a sua coloração. Ela era cleptomaníaca e roubava nacos do vegetal, não porque sentisse fome, mas para alimentar seu TOC e conferir uma corzinha vinho ao seu corpo, chamando a atenção quando fosse posar de fatal para fotos no Red carpet.
Chamava-se Psique e, conforme está escrito na mitologia, pouco tempo depois, superando todas as dificuldades, infortúnios e sofrimentos, desperta do sufocante estado de pupa/túmulo e se transforma numa linda e leve borboleta de asas diáfanas, embelezando toda a plantação de soja  que florava em Mato Grosso do Sul.
  

Cupido e Psique, François Gérard

Sabe-se contudo, que isso não passa de uma metáfora.
Psique era em verdade, uma delicada e formosa jovem com um par de asas que dava gosto e  se preparava para viver plenamente um grande amor. ( Formiga, quando quer se perder, cria asas. Isso se aplica também às lagartas).

Entretanto, Vênus, a bela deusa vulgarmente conhecida como Afrodite aqui na Grécia, revoltada por haver desposado Vulcano – o deus manco que forjava o ferro – e não com o gostosão Marte, com quem passou a ter uma relação adúltera- mas principalmente por invejar a beleza de Psique, resolve tramar contra esta.
Assim sendo, ordena a Eros -, vulgo Cupido aqui em Roma-, o seu filho, que dê um jeito de Psique se apaixonar por um ser horrendo. Porém, o plano não transcorreu exatamente como o esperado. Eros, embora ardiloso, esperto, jovem e mentiroso pela própria natureza, não resistiu aos encantos de Psique e acabou tornando-se seu amante. Na moita, evidentemente, pois Afrodite cortaria as asinhas deles se viesse a saber.
Ele a levou para a cobertura de um belo apart-hotel com piscina, sauna e tudo que a tinha direito uma bela mortal e os traficantes dos morros do Rio de Janeiro, e só a encontrava sob o manto negro da escuridão.
Dentre outras coisas, como não poder usar minissaia, calças jeans cintura baixa, decote profundo, batom, frequentar baile funk na Vila Andrade, conversar por internet ou telefone com as amigas, posar nua para Rafael – a exceção era para Michelangelo – e, principalmente, sair com amigos do sexo masculino, ela jamais deveria tentar vê-lo.
Era pro-i-bi-do! E assim tudo transcorria na mais plena felicidade.
Ocorre que as ambiciosas irmãs de Psique,  já devidamente instaladas emluxuosos apartamentos funcionais pagos com dinheiro do contribuinte, incentivadas pela mídia televisiva, começaram a encher o saco de Psique, insinuando que o tão misterioso amado era um monstro horrendo, que tinha chifres, calçava 52 e que quando ela menos esperasse ele iria comê-la.
Além disso, insinuaram que ele ouvia Restart, Lady Gaga e Luan Santana, acabara de comprar a biografia de Justin Bieber e costumava assistir ao Domingão do Faustão.
Foi a gota d’água.
Certa noite, Psique caminhou sorrateiramente até a alcova sagrada, decidida a descobrir a real identidade do seu amado. Empunhando uma facapeixeira (deveria ser assim pelas novas regras do Acordo Ortográfico) numa mão e uma vela preta de sete dias na outra, inclinou-se para mirar o rosto adorado e… Ohhh…!!!  jungle people, we are happy people! – exclamou, tal foi a sua surpresa quando viu, placidamente adormecido com toda aquela candura e beleza em abundância, o Brad Pitt. Em carne, osso, caras, bocas. Nesse exato momento uma bala perdida penetrou pela janela da cobertura, alojando-se no travesseiro esquerdo. (Ou teria sido no direito?) Indignado, ele exclamou: “PQP, esse travesseiro é de pena de ganso e me custou uma nota verde…” E, voando, desapareceu para sempre*.
Psique ficou inconsolável e, para punir as irmãs fuxiqueiras, usou todo o lobby possível na elaboração de um Projeto de Lei contra o nepotismo, propondo proibir a contratação de parentes nos órgãos públicos dos três poderes, alguns deles podres, o que acarretaria o fim do império de Niemeyer, transformando-o num deserto.
Decidida a recuperar a confiança de Eros, Psique o procurou dia e noite. Fez uma ronda por todos os bares da Avenida São João, juntamente com Maria Betânia, e nem sinal dele. Desesperada, comprou uma bolsa Louis Vuitton e foi pedir misericórdia à sogra, que de pronto aceitou o presentinho e, embora sabendo seu paradeiro, impôs algumas condições para trazer o filho de volta aos braços da nora.
Afinal, ele estava internado numa clínica para menores infratores, atravessando sérios problemas psicológicos, pois não se conformava em haver sido queimado no ombro esquerdo – ou seria no direito? – com um pingo de óleo do rosa mosqueta. Uiii!
Assim sendo, não havia outro jeito. Psique teria que cumprir as quatro tarefas impostas por Afrodite:
A primeira e a mais difícil de todas era fazer com que os políticos brasileiros tomassem vergonha na cara e, como a própria Afrodite sabia tratar-se de  perda de tempo, dado o grau de dificuldade, sem mais delongas pulou logo para o desafio seguinte.
A segunda consistia em conseguir identificar e separar todos os grãos de granola de uma tigela de açaí na tigela, inclusive especificando o tipo de banana usada no preparo, antes que a negra bomba energética concentrada se espalhasse como hábito alimentar pelo resto do mundo. Foi moleza. Uma amiga que gostava muito da banda Calypso, comovida com a tristeza da jovem, resolveu o problema sem maiores dificuldades.
Para realizar a terceira tarefa, Psique deveria ir até a Granja Solar, de George Orwell  e conseguir a maior quantidade possível de buchada de carneiro light que pudesse. As ovelhas, contrariando a contumaz subserviência, estupidez e alienação, a princípio se recusaram a deixar seus companheiros morrer pela causa, mas, doutrinadas por Napoleão e Bola de Neve, aliados dos humanos, e de alguns políticos inescrupulosos brasileiros que promovem a vergonhosa farra das aposentadorias vitalícias, ofereceram os couros às varas com relativa facilidade.
 Imagem: Pandora, de John William Waterhouse


Na quarta tarefa, Psique teria que convencer Prometeu a devolver o fogo roubado dos deuses e em seguida descer até o Hades e pedir  Perséfone a famosa caixa que continha, dentre outras coisas, que iríamos saber posteriormente, um programa Photoshop pirata para retocar as fotos de Afrodite, que não podiam em hipótese alguma ser postadas no Facebook sem os devidos retoquesl. Psique só teria que se desviar de um cachorro feroz de nome Scooby Doo e do seu amigo babaca chamado Salsicha. Ocorre que mais uma vez a pobre mortal se deixa levar pela curiosidade e abre a caixa. Ao invés da beleza, só o CD pirata, como já havíamos mencionado, uma fita do Senhor do Bonfim, um relógio ornado com strass comprado na 25 de Março, um disco duplo da Xuxa (Xuxa só para baixinhos/Xuxocão) e um vidro de Dramim B-6 que ela sorveu de um único trago, pensando tratar-se de absinto, e caiu num sono profundo, coitada, antes mesmo de ver os condenados do Escândalo do Petrolão  na cadeia
Felizmente, Eros, que havia escapado da clínica, vem em seu socorro e mete rapidinho todo o sono dentro da caixa – bem lá no fundo -, deixando de fora só a esperança de Mário Quintana, uma meninazinha meiga que se atirara do décimo segundo andar de um prédio verde e ficara completamente louca.

Por fim, Zeus/Júpiter (allegro ma non troppo), que na Guerra de Troia tomou partido pelos gregos e troianos, conforme seus interesses pessoais, atendendo aos rogos carinhosos de Tétis para apadrinhar o mimado Aquiles, ou às pressões incestuosas da esposa-irmã Hera,consegue apaziguar Afrodite e esta permite a ratificação do casamento dos pombinhos – no civil e no religioso -, sendo conduzidos por Hermes, o fuxiqueiro-mor do Olimpo, até à Assembleia dos Deuses.

Olimpo, afresco, c.1850.
Luigi Sabatelli

Ali, após grandiosa farra regada a ambrosia, no devido tempo, quando o governo brasileiro decidiu foder o povo ao realizar as tão profundas e urgentes reformas fiscais, políticas e previdenciárias, quando as empresas de publicidade no país estavam longe de descobrir uma fórmula de produzir comerciais de dentifrícios menos idiotas, nasce um menino chamado Voluptas (Prazer!) e, até hoje, pasmem, ainda rola uma confusão com esse negócio de exame de DNA pra saber quem é o pai da criança.
Fim
NOTA : *Sempre – Unidade de medida de tempo usado antigamente na Grécia antiga, que equivale a “vou ali e volto já”.


Inês Mota

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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Insight



Ao me acomodar para dormir veio-me um insight, que com certeza resultaria numa excelente pequenitude.(http://pequenitudes.blogspot.com.br/). Sem querer me arriscar a perder tal preciosidade, ao acordar com a costumeira amnésia, apelei ao meu  meu "hd externo"', compartilhando com ele a ideia. entretanto, acordamos desmemoriados e ficamos horas, inutilmente tentando trazer de volta o esquecido. 
Reconstruimos todo o cenário anterior, as conversas, os contextos. Nada funcionou. Estava perdido para sempre meu conto de inspiração divina que poderia, no mínimo, constar do cânone literário brasileiro.

O que restou foi o fragmento  de um  sonho que, claro, não vou  publicar aqui por não se adaptar ao estilo a que se propõe o blog, como constatarão a seguir: "Numa sessão extraordinária na Câmara dos Deputados, aberta para discutir porcaria nenhuma, sobre patavina de nada, parlamentares trocam saudações afetuosas entre si : 'vossa excelência é um cagão, um grandessíssimo fdp' ; 'vossa excelência é um salafrário, mentiroso, um filho de uma ronca e fuça'. 'Vossa excelência é um líder?? Vossa excelência não passa de um larápio, um meliante, um corrupto e suas ações que afrontam a Constituição brasileira'

De repente, um dos bichões da fila esquerda olha pro lado e exclama a plenos pulmões: 'oxente, alguém cagaram no recinto! Exigimos mais respeito nesta merda de Casa!'. Ao que o grandão da direita retruca: 'vamos fazer uma moção de desagravo, haja vista a extrema deselegância retórica, equivocada e escatológica dos safados nobres companheiros, que fere mortalmente as normas regimentais desta bosta de casa de mãe Joana. E, sem mais, para concluir os trabalhos, em nome do excelentíssimo senhor presidente, - que precisou se ausentar às pressas, por uma causa justa -, visando restabelecer a ordem, apelo ao fantasma cagão, que se apresente sem delongas, sob pena de todos poderem recorrer ao direito de resposta, além de, daqui para a frente, obstruir quaisquer pautas de votação nesta merda de casa, até que o vagabundo se retrate, em nome desse povo brasileiro de bosta!' "

Inês Mota


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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Eva

Imagem: Internet


E esta maçã que agora tomo
a emanar aromas
dos seus matizes rubros?

Os meus dedos a erguem,
minhas mãos a contornam,
até que, pela tênue haste seca,
a levam aos lábios famulentos.

Do corpo ferido que já se adelgaça, ecoa o som de areia úmida.
Uma ampulheta se delineia,
-contará o tempo do ocaso.

Encrustada nos vãos da cintura,
espreita-me um arranjo, prenhe de olhinhos negros que eu, distraidamente, deixo cair ao solo.

Consunmatum est!
(Por eu mesma)


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