quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Ave!

Salve Jorge, o mais novo folhetim da Rede Globo, estreou recentemente. Segundo a direção, a única ligação da trama com o santo é que este é o padroeiro da Corporação fictícia da novela. A estreia se deu sob protestos veementes de alguns evangélicos.

Um dos conteúdos do manifesto dessa torcida contra o folhetim circula nas redes sociais. Segundo um dos sites, Exército Universal"[...] Ao ressoar no recinto as palavras 'Salve Jorge', muitos estarão saudando conscientemente o 'espírito': 'Ó São Jorge (ogum) receba minha respeitosa saudação. As portas de minha casa estão abertas para ti'. 'Ogum' entra e o Espírito de Deus sai […] o Espírito de Deus não divide o espaço com ninguém, com a chegada de um outro espírito, Ele certamente se ausentará "[sic].

Para boicotar Salve Jorge o contra-ataque veio mais que depressa por parte da Rede Record, que aproveitou para divulgar Rei Davi, a reprise que será exibida a partir desta semana. Uma luta de gigantes? Ainda segundo o site,"Ressalta-se que a novela da Globo fará apologia à prática do lesbianismo. […] A novela também terá a participação de uma policial lésbica, que será interpretada por Thammy Gretchen, assumidamente lésbica na vida real" [sic]. Outra discriminação sobre a qual não convém discorrer no momento.


Porém, longe de entrar no mérito da questão dos evangélicos ou fazer apologia às novelas globais, não pude deixar de escrever estas linhas, ao me deparar com uma imagem na página do Facebook “Jesus é o caminho”. Quanto ao texto da publicação, cabe salientar que a expressão “salve” não tem suas origens no Candomblé, como apregoa a página. Os imperadores romanos já eram saudados por seus súditos com a expressão “Ave Caesar”, uma saudação de boas-vindas ou reverência, que traduzido corresponde a “Salve César”. “Ave Caesar morituri te salutant”, literalmente, “Salve César, saúdam-te aqueles que morrerão”, é uma tradicional frase latina que os gladiadores dirigiam ao imperador antes do começo de um combate na arena. A Igreja Católica, por sua vez, também fez uso da expressão para saudar a virgem Maria, mãe de Jesus Cristo, cuja oração a ela dedicada mantém a saudação latina “Ave Maria Gratia plena” (“Ave Maria, cheia de graça”).

O conteúdo, aparentemente banal e inofensivo, da mensagem veicula uma visão preconceituosa do Candomblé e reflete muito mais que uma simples polêmica entre evangélicos em torno do nome de um folhetim. Reflete a perseguição, a intolerância e a discriminação que sofrem as religiões afrobrasileiras, no meio da nossa sociedade. É estarrecedor ver como cada vez mais as minorias neste país, sejam quanto às identidades sexuais, à identidade racial, e inclusive no que diz respeito à religiosidade, são discriminadas e perseguidas tanto pelos ânimos exacerbados dos católicos quanto pelos evangélicos fundamentalistas, alguns dos quais fazem parte de bancadas parlamentares no Congresso Nacional e tentam a todo custo aprovar leis retrógradas que defendem os interesses de suas igrejas em detrimento dos direitos da maioria da população.

Somos seres livres e cada um faz a sua saudação como bem lhe aprouver, de acordo com sua prática religiosa, conforme lhe parecer conveniente. Ogum é um orixá do Candomblé, religião de matriz africana, cultuada no Brasil, que no sincretismo religioso corresponde a São Jorge da Igreja Católica, o santo guerreiro que teria nascido na Capadócia, localizada na atual Turquia.

Aos intolerantes a essas religiões afro-brasileiras, ainda tão presentes na atualidade, não custa lembrar que liberdade ao culto religioso consta da Constituição Brasileira.

Portanto, “Salve Jorge!” para quem está “vestido com as roupas e as armas de Jorge”, como disse Jorge Ben Jor. “Salve Jesus Cristo”, “Salve Maria”, para quem é cristão/católico. E salve a liberdade de escolha, de expressão, de ir e vir. Salve todas as liberdades para que não nos tornemos intolerantes e não trilhemos pelos mesmos caminhos por onde trilham aqueles que creem que pensar diferente da maioria é crime.





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